10/05/2011

Religião e Alienação

Adriana Tanese Nogueira

"A religião é o suspiro da criança acabrunhada, o coração de um mundo sem coração, assim como também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo." Karl Marx

Essas palavras, profundas e perspicazes, soam ainda atuais. Elas não pregam contra a religião em si, como convenientemente foi interpretado. O pensamento de Marx é muito mais radical do que isso, e mais perigoso. Perigoso porque descortina um ponto de vista que leva à mudança efetiva.

A "criança acabrunhada" é a pessoa prostrada, aflita e atormentada. Ela é uma "criança" porque se sente impotente e só, desamparada e sem noção do que está acontecendo. Esta criança está em todos nós, em algum (ou muitos) momentos da vida. Vemos-nos jogados nessa Terra sem entender porquês que permanecem, muitas vezes, sem respostas, instigados por situações e impulsos internos dos quais não possuímos visão clara mas que nos levam à novas situações, impulsos e ações. A criança acabrunhada somos nós quando nos dobramos pela dor. E levantamos os olhos ao céu. O suspiro que essa criança solta, cheio de tristeza e de esperança reprimida, como quem não ousa mais esperar na felicidade, preenche as igrejas. 

Nas orações, os fieis projetam seus sonhos e desejos. Na religiosidade dessas pessoas está condensado o afã por uma realidade melhor, plena e livre. Busca-se aconchego e proteção contra um mundo sem sentimento, áspero e cruel. A inquietação e insatisfação pelo presente encontra ouvidos na espiritualidade, como se esta fosse um quarto acolhedor dentro de uma casa sombria. Para aguentar o tranco, se visita esse quarto e lá se depositam os segredos mais íntimos do coração. Em seguida, se volta para o mundo e se continua a vida "do jeito que ela é".

O Espírito do qual fala Marx é o sentido que dá identidade à história e seus protagonistas. Ele é aquela visão de conjunto que encontra um lugar para cada coisa e as moves segundo trajetórias que têm valor para além do umbigo individual. O Cristianismo, tradicionalmente, oferecia esse Espírito ao explicar o por que do sofrimento humano e da injustiça. Na perspectiva cristã, porém, a realidade é "vontade de Deus". Resta-nos nos assujeitar a ela. Cada um tem o lugar que tem por alguma razão, a qual pode ser-lhe incompreensível mas que está clara na mente de Deus.

Apesar das mudanças sociais e culturais ocorridas nos últimos quase dois séculos desde Marx, da multiplicação de variantes cristãs e da mistura entre diferentes religiões, essa forma de entender as coisas continua empregnada na psicologia individual como postura interior inconsciente que norteia o entendimento da espiritualidade, da vida e dos anseios individuais. Segundo esse ponto de vista, é preciso aguentar e levar adiante. Por este motivo, refugiar-se numa religião para desabafar a dor a respeito de uma vida infeliz equivale a uma droga. Como em qualquer adição química, a droga é usada aguentar a vida.  Pela droga tem-se a ilusão de estar tendo uma vida diferente. Após desfazer-se o efeito da droga, se volta ao real. Daí a necessidade de usar mais droga para prolongar a ilusão.

Esse tipo de religião se torna uma forma de manter os seres humanos moralmente dobrados à realidade e mentalmente submissos ao status quo. Ela se nutre e cresce graças ao sofrimento humano: quanto maior a infelicidade mais forte a religião. E, assim como com as drogas, quanto mais intenso o uso que delas se faz, mais fraca é a força de vontade da pessoa, menor sua ação criativa, mais baixa sua auto-estima, mais inútil ela é como cidadã do mundo.

Que o universo contenha muitos mistérios além dos que podemos compreender, que há inquietantes percepções do que está além do visível não desmerece a crítica marxiana. Mistérios invisíves co-existem com a realidade visível, e usá-los para justificar o que temos debaixo do nariz é desempoderamo-nos como humanos. Uma religião que cortas as asas e "apazigua", no sentido de conformar e manter o jogo andando é, literalmente, um ópio.

Mas não é só isso, Marx vai além. O elemento focal, a essência da alienação que tais religiosidades promovem é que elas interpretam a espiritualidade como alheia ao mundo. Encontramos aqui a mesma cisão cartesiana entre corpo e alma que levou à abordagem ao corpo como uma máquina e à cegueira a respeito das influências psicológicas sobre ele. No caso das religiões, elas não são apresentadas como instrumento para mudar o mundo, mas como muleta para suportá-lo, criando nele um espaço de sobrevivência individual. Falta qualquer visão coletiva e social, bem em sintonia, aliás, com o individualismo moderno e protestante. A única vez que o Cristianismo se fez uma revolução social, depois de seus primeiríssimos tempos lá 2000 anos atrás, foi com a Teologia da Libertação (rapidamente reprimida), a qual levou a sério o "seja feita a tua vontade como no céu assim na terra", no sentido de: vamos então pôr em prática essa vontade, já que Deus não pode querer que o mundo seja governado pela injustiça, pelo abuso e pela maldade.

As tentativas de "alterar" a realidade encontram-se sempre no campo individual ou familiar e estão voltada a "acalmar" e devolver as coisas (leia-se, relações e identidades) a um modelo que é, nada mais nada menos, que o estereótipo. Além disso, essas ações espirituais no mundo possuem sempre uma conotação fortemente promocional: quer-se demonstrar uma verdade dada vendendo o peixe de cada grupo, como se a felicidade humana pudesse estar vinculada a marcas.

Para finalizar, o que castra por completo a possibilidade da espiritualidade transformar o mundo é seu estar atrelada à antiga perspectiva cristã que abomina conflito, atrito, oposição. No campo religioso, é o pavor da heresia. No campo social, do subvertemento da ordem. No campo individual, do conflito e da tensão. Evitar a tensão leva ao conformismo e à covardia, ingredientes indispensáveis para promover indivíduos submissos e fracos, e a adição química. Qualquer drogado é conivente com o sistema que o oprime.

Uma religião que promove pessoas dependentes, que repetem refrões, que não possuem pensamento crítico, que são dóceis ao mundo e à sua organização, que pensam em evangelizar mas não em melhorar a vida no planeta, que não enxergam as conexões entre os interesses poderosos dos Empresas Religiosas e aqueles das Empresas de que governam o mundo, tal religião é o ópio do povo. Religião que serve é aquela que, obviamente, não faz distinção entre "macho e fêmea" e que não tem medo do conflito. Ela impulsiona à liberdade de pensamento, à criatividade individual, à ousadia revolucionária, ao senso crítico, ao amor universal e à consciência da importância do papel individual na criação "do reino de Deus".

14 comentários:

  1. Discordo de grande parte do que foi explanado, tenho a impressão de quem não conhece partes fundamentais da biblia (pilar de muitas religiões, como no trecho que diz:"não vos conformeis com esse mundo", e ao contrario do que foi dito muitas pessoas que conheço que se enquadram no esteriótipo que nos incubiram de "religiosos" são extremamente atentos para transformas realidades a nossa volta, atentos e participativos em beneficio a comunidade, sustentando casas necessitadas e atuando como voluntários com o que temos para oferecer ao próximo; nossas vidas a seu favor, como o Deus desconhecido para muitos que só conhecem a religião e não a essência, bom esses são só alguns pontos do que discordo para não ser muito longa... essa descrição é bastante limitada ao senso comum que impera hoje em dia...

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  2. Oi Déborah, só uma informação histórica importante: a Bíblia não foi pilar de muitas religiões, ok? Parte dela reunia ensinamentos dos judeus, o judaísmo já existia há milênios antes do cristianismo. E o islamismo se baseou no livro dos judeus, e não na Bíblia. Aliás, a Bíblia como a conhecemos hoje é resultado de um concílio da Igreja, nos primeiros séculos de sua existência, pra decidir quais livros a comporiam e se valia mesmo a pena ter a Torá judaica como base. Dos vários candidatos, ficaram apenas alguns, entre eles, os 4 evangelhos. O cristianismo é, na verdade, uma das religões orientais mais novas que existe. Como religião, acho que só perde pro islamismo em termos de juventude. De resto, todas as outras já existiam. Inclusive, o contrário é que aconteceu: a Bíblia foi influenciada por vários livros e saberes de várias outras religiões e costumes, inclusive egípcios, gregos, persas, etc.

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    1. Juliana, a questão do concílio que você cita foi para terminar de organizar a Bíblia no que tange aos livros que fariam parte ok, mas não apenas a Torah existia mas também os outros livros proféticos, apenas os atuais livros do Novo Testamento são tão novos como você diz; não compreendo como dizes que os islâmicos não se baseiam na Bíblia, sendo que Jesus Cristo é visto por eles como Profeta, mostrando influência do Novo Testamento. Penso que fizeste confusão entre Antigo Testamento e com a Torah, ou então tentou fazer uma separação que ao meu ver é desnecessária, pois é como "trocar seis por meia dúzia". Não desejo me alongar demais, porém apenas ressalto também que é engraçado pensar que a Bíblia sofreu influências de outros saberes quando lemos o livro de Jó 26:7 que explica que a Terra é suspensa sobre o nada em uma época em que Egípcios, gregos e hindus tinham a crença de que a Terra era suspensa por elefantes, ou sustentada em colunas, etc. Lembrando que o correto é pontuar a Bíblia como Antigo e Novo Testamento.

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    2. E apenas a efeito de informação, o Cristianismo é uma religião ocidental, e não oriental como disseste.

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  3. Adriana, na semana passada foi aprovada pelo STF a união civil estável para casais gays. A mídia e a sociedade aceitaram bem, ninguém fez nenhuma grande manifestação ao contrário. Mas eu fiquei tão chateada de ver tantos colegas de trabalho e pessoas nas ruas comentando sobre este "absurdo" que eu me perguntei, gente, essas são as pessoas que vão pra igreja? Onde está o amor ao próximo e o não atire a primeira pedra? E outra: de repente, o casamento hetero virou a última maravilha do mundo, de repente, esqueceram que é este casal que acolhe milhares de vítimas de estupros e violência doméstica, traições de maridos e de esposas... antes, diziam que a libertação da mulher ia acabar com o casamento: não acabou. Depois, o divórcio: não acabou. Agora a união civil dos gays: não vai acabar com o casamento. Mas acho que vai ajudar a sociedade a refletir sobre o que é realmente duas pessoas estarem juntas por amor.

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  4. Ah, e outra, Déborah: com todo o respeito e reconhecimento ao trabalho de muitos religiosos no mundo pela sua transformação (Madre Teresa de Calcutá é só um dos exemplos que me vêm à cabeça, mas há muitos outros, com certeza), mas uma das coisas a se extrair do texto é que as pessoas fazem coisas boas pela moralidade que lhes é transmitida. Ser bom acaba sendo sacralizado por todas as religioes, não só a cristã. É uma maneira de manter a sociedade funcionando, e isso é bom. Compreende? A pessoa não é boa por causa da religião (senão, não haveria ateus tão bons no mundo, como o Bill Gates, que doou a maior parte de sua fortuna pra crianças com câncer), a religião é que consagra a bondade para manter a coesão do tecido social. Várias outras religiões pregam a bondade, inclusive, bem mais que o cristianismo, porque não admitem nenhuma exceção bem dubiedade quanto ao conceito e a prática da bondade. Um bom exemplo é o budismo. O Dalai Lama mesmo diz: minha religião é a compaixão.

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  5. hehehe ufa, por fim, gostei do texto, Adriana!

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  6. Não havia comentários aqui... não vi nada. Porém, o Blogger tem feito mudanças, é possível que se tinha algo foi perdido :-(

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  7. Nossa, uma moça fez um comentário e eu fiz uns 4 depois... mas acho que foi um dia antes ou no dia em que o Blogger deu uma pane geral. Vários posts e comentários sumiram em outros blogs em que participo/acompanho.

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  8. Não se pode misturar as escrituras, Deus ou Jesus com as religiões.
    Religiões são dogmas e preceitos de homens e nada do que ele pregam está na bíblia. A religião é parte do sistema, assim como política e televisão, que nada tem de bom, só alienação.
    Mas se você ler a bíblia, vai ver que ela é a base para um mundo melhor, onde o principal tema é o amor ao próximo.
    Veja lá no meu blog, a própria bíblia diz pra nós corrermos das religiões.
    http://religioesinsanas.blogspot.com/

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  9. Gente, não estou discutindo a Bíblia. A Bíblia nesse contexto não me interessa. Encontramos nela mensagens maravilhosas, profundas e outras que são datadas pros nosssos ouvidos. E daí que a Bíblia aclama o amor ao próximo? Quantas pessoas religiosas são bons exemplos do que está escrito na Bíblia (na parte boa desta, não na parte das guerras e dos julgamentos)? E quantas pessoas boas há no mundo que NADA tem a ver com a Bíblia?

    O que interessa nesse texto são os efeitos HISTÓRICOS do cristianismo e os efeitos psicológicos. É disso que estou falando, não do que Jesus disse e Deus falou.

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  10. O texto é bom, mas eu não concordo com o final que sugere "religião que serve" .Elas lutam sem pudor nenhum umas contras as outras e usam seu gado para seu próprio benefício. Em todas elas se esconde o interesse potiico e econômico. Devemos considerar que qualquer deus sugerido é uma hipótese longe de ser comprovada. Eu particularmente não acredito em nenhum dos milhares de deuses já inventados pelo homem. E Juliana Silveira, a Madre Tereza de Calcutá ao contrário do que muitos acreditam, foi uma pessoa ignorante, egoísta e doente que foi usada na sua cega ignorância pelo Vaticano para arrecadar milhões e "vender " mais cristianismo mundo afora. Leia o livro de Christofer Hitchens "The missionary Position:Mother Tereza in Theory and Practice" Tem um doc em vídeo também é só buscar na internet. Achei aqui https://www.youtube.com/watch?v=IdYb_qS_ksg

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    1. Mr. Mac, religião não é uma ciência, não se "comprova". A religião está baseada na fé, na mesma fé que vc põe em tua namorada de que ela é uma pessoa boa, confiável, honesta que gosta de você. E sim todas as religiões estão misturadas a interesses humanos de todo tipo, porque todas são feitas por humanos. Purifiquemos os humanos, ou seja, fazemo-los evoluir e eis que teremos religiões melhores, um mundo melhor e relações amorosas melhores :-)

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