04/06/2011

A FELICIDADE É CONSEQUÊNCIA

Adriana Tanese Nogueira




Um animal é feliz quando pode expressar sua natureza. Uma ave precisa voar, uma onça caçar, um golfinho nadar em espaços amplos. Um cão para ser feliz necessita de movimento, disciplina e amor, além de um vínculo sólido e confiável com seu dono. Um gato quer se deixado em paz, quer respeitada sua independência, receber carinho quando lhe der na telha e comida quando sentir fome. A natureza de cada ser vivo ao se expressar livremente produz como efeito colateral felicidade.

Qual é a natureza do ser humano? Diferentemente daquela animal, ou não tanto quanto
aquela, a natureza humana é algo em movimento, um contínuo “work in progress” que precisa ser mantido em andamento para não estancar e sufocar. Ou seja: o ser humano precisa descobrir novos horizontes, aprender e crescer emocional e intelectualmente. Esta é a natureza do ser humano. Independentemente de suas escolhas, gostos e história, todos possuem internamente o movimento rumo ao crescimento; quem num rítmo quem no outro, o processo é infinito.

Seres humanos tendem a se entediar (quem mais rápido, quem menos) se permanecerem fazendo sempre as mesmas coisas. Sua natureza é a do explorador curioso. Ao mesmo tempo em que precisam de segurança e aconchego, seja material que emocional, seres humanos gostam de ir além, superar limites e avançar. Quando o ser humano pode ir para frente sem perder seu lar, quando sua necessidade inata de liberdade de movimento, mental e físico, é satisfeita sem prejudicar sua pertença a um grupo (casal, família, coletividade), ele está nas condições de ser feliz.

Esse movimento não é caótico ou casual. Por este motivo que tantas vezes não basta mudar de casa, namorado ou país para ser feliz. A mudança que faz sentido na vida individual e social se chama evolução. Ela não é simplismente física, porque não se trata do corpo crescer, apesar disso ser necessário no começo da nossa vida; não é intellectual somente, apesar de ser uma peça importante no desenvolvimento de uma pessoa. É mais do que isso, é também emocional e espiritual. É uma progressão global do ser humano que se sintetiza no aumento de sua consciência.

Evoluir no nível da consciência significa crescer como pessoas a partir do que se vivencia a cada dia, se dar conta, perceber mais, se enxergar com mais detalhes, entender melhor quem somos e quem são os outros. Nosso horizonte então se amplia, conseguimos focar melhor o contexto e reconhecer as nuanças. Por consequência, as decisões são mais pertinentes, as escolhas mais positivas, o caminho mais seguro. Se vive mais em paz.

Evolução, portanto, é um movimento numa direção. E para segui-lo é preciso saber exatamente o que é que precisa evoluir, porque o progresso não é uma idéia abstrata mas um acontecimento real na vida individual. Quando João não está feliz, ele precisa descobrir o que nele tem que mudar para que possa ser feliz. Quando Maria está deprimida, a pergunta é: qual etapa de sua vida Maria precisa conquistar? O sofrimento vem do que não se deixa sair, das palavras não ditas, nos gestos não feitos, das atitudes não assumidas, dos sentimentos calados, das escolhas ignoradas.

Evolução tem sentido. Esta é uma palavra muito interessante porque significa ter direção e ter significado ao mesmo tempo. Assim é com tudo na nossa vida. A diferença entre algo com sentido e algo sem é a mesma que existe entre um emaranhado confuso de linhas e um desenho claro e compreensível. Às vezes se enxerga o emaranhado porque falta a lente certa para entender o que está acontecendo. É aí que precisa procurar ajuda profissional. O profissional oferece lentes para ver e vendo tem como entender o que acontece e entendendo tem como tomar decisões e agir sem nos prejudicar.

A "natureza humana" está inextricavelmente vinculada ao sentido. Se uma experiência não faz sentido não será boa. O sentido de uma vida se manifesta na soma dos sentidos de cada momento. Cada escolha de vida concorre para criar o sentido maior se a pessoa que escolha estiver engajada numa vida consciente. Se há contradições talvez elas dependem muitas vezs mais da forma como se olha para as coisas do que das coisas em si. Por isso, reavaliar o modo de pensarmos e interpretarmos a vida e a nós mesmos é essencial.

Se a felicidade é consequência de João e Maria expressarem quem são, ou o que são,  buscar a felicidade equivale a se conhecer e assim entender o ambiente no qual estamos. Em nossa vida há limites que precisam ser respeitados, mas há outros que estão aí para serem derrubados para que possamos dar à luz quem somos. E, então, sim, sermos felizes.

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