09/06/2011

Mar português

Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Toda conquista humana é feita a custo de grandes sofrimentos. Faz parte de nossa condição.

Fernando Pessoa é mestre memorável na capacidade de trazer em palavras o afã da alma. É no penar humano pela conquista de espaços maiores, movendo os horizontes para frentes, que se espelha o céu.

Como haveremos de conhecer os desígnos do céu se não através dos motos internos da alma que nos empurram a sondar o além das fronteiras conhecidas? E como haveremos de ter certeza que o que a alma almeja é "certo"? Por um ato de fé. Fé em nós mesmos. Pois os anseios interiores refletem a alma que os têm. Grandes ambições pertencem a espíritos de amplas visões.

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