28/06/2011

Psicoterapia é empoderamento

Adriana Tanese Nogueira

É com grande satisfação que vejo pessoas florescerem e se empoderarem. Hoje como nunca observo a elevação da auto-estima das pessoas que estão em terapia comigo, e seu caminho rumo ao empoderamento pessoal. Em meio aos tumultos da vida, às dúvidas e aos desafios, elas podem nem sempre se dar conta do processo luminoso no qual estão, mas eu enxergo com clareza seu desenvolvimento para melhor. Muitas outras percebem nitidamente os resultados positivos, sentem-se mudadas, mais despertas, mais vivas. Mais poderosas.

Devo dizer também que tenho outra satisfação, a de trabalhar com pessoas que demonstram o potencial certo para esse trabalho. Num consultório de terapia há sempre um
movimento de entra e sai. Algumas pessoas não ficam por muito tempo, ou nem mesmo voltam na segunda sessão. O que acontece com elas é que não têm condições psicológicas para enfrentar o trabalho que lhes é pedido pelo seu própri ser. Há casos dramáticos que é uma pena ver ir embora porque nada pode melhorar pelo caminho da inércia. O da psicoterapia é uma estrada que as pessoas precisam trilhar caminhando sobre suas próprias pernas, o analista não carrega no colo, o analisando deve estar em condições de andar para iniciar sua jornada. Os que passaram por isso sabem o quanto às vezes é duro, daí o valor de quem persiste. Nesse tipo de trabalho, perseverar é vencer.

Se o analista não pega no colo, ele porém faz algo essencial para que a caminhada do analisando tenha sucesso. Como um artista, sua função é de tocar os pontos certos, frisar o que é importante, deixar de lado o que não é. Como na interpretação dos sonhos, é preciso ter o correto ponto de vista, sem se deixar levar por detalhes  ou "armadilhas". Há sempre um fio da meada, que, uma vez encontrado, desenrola-se o novelo (o "rolo da vida") e a partir daí se pode criar uma bela malha, fruto do trabalho consciente e de objetivos conscientes.

Muita gente tem medo da psicoterapia e muitas outras nem sabem o que isso é. Para as que têm medo, devo admitir que eu também estaria preocupada em ir a alguém que não conheço. Entretanto, é preciso ter confiança em si mesmos. Assim como, em geral, se é capaz de discernir a qualidade humana das pessoas que se conhecem, ou pelo menos dia após dia é possível conhecê-las melhor e decidir sobre sua ética, o mesmo vale para qualquer profissional.
É verdade, porém, que nem todos os psicoterapeutas, psicanalistas e psicólogos possuem o "correto ponto de vista", e isso nem sempre depende da teoria que seguem, mas de até onde chegaram em sua própria trajetória interior. Com "correto ponto de vista" entendo o "pano de fundo" sobre o qual a terapia se baseia. Quando falamos em patologia nos referimos necessariamente a um modelo de saúde. Quando falamos de "anormalidade" a um modelo de "normalidade". Este é o pano de fundo que, infelizmente, muitas vezes, fica inconsciente nos próprios profissionais e teorias. O resultado  é que o entendimento da problemática do paciente permanece mesclada com os valores colletivos não questionados, com o senso comum e modelos de vida  não necessariamente saudáveis. O ponto de vista para promover o empoderamento individual não pode, por definição, vir do coletivo, pois o indivíduo é quem traz o novo. Somente o ponto de vista profundo pode-se superar os limites socio-culturais e favorescer o florescimento da individuação.

Por outro lado, a resistência à psicoterapia é devida em grande parte à oposição do ego ao auto-conhecimento e à descoberta de realidades internas que se temem. Prefere-se continuar mantendo a luz apagada, para não ver, não saber, não pensar e possivelmente não sentir, do que fazer luz e enxergar o que há para ser visto. Esse trabalho de desnudamento é inevitável porém se se deseja mudar para melhor. Reconstrói-se uma casa após ter eliminado os escombros da anterior. Focar nos medos é sinal de que não se está prontos para o trabalho de auto-conhecimento.

Aquelas pessoas, porém, que encaram seu caminho de individuação, independentemente de seu histórico cultural, se são homens ou mulheres, hetero ou homossexuais, possuem uma oportunidade concreta de florescimento, o que nada mais é que real empoderamento. Vejo mulheres tomando as rédeas de suas relações, vejo homens tomando atitudes, descobrindo carreiras. Assisto pessoas se tornarem mais fortes, pegando o que lhes é de direito, aprendendo a ser boas mas não bobas, questionando valores morais sem perder a fé, discutindo questões de gênero sem perder o amor, transformando a relação com seus filhos, sendo duras ou amorosas no respeito. Vejos crianças aprendendo a prestar atenção ao que sentem e a modificar reações interiores perturbadoras. Vejo criancinhas expressando sua doçura a despeito dos comportamentos violentos de antes.

Tudo isso não é merecimento só do meu trabalho, mas também da qualidade humana dessas pessoas que demonstram que há esperança real de construirmos um mundo melhor. Como num conto de fadas, a varinha mágica é aquele instrumentos profissional do bom psicoterapeuta que tocando a coisa certa na hora certa produz a mágica da transformação.

2 comentários:

  1. Poxa, esta mesmo procurando algúem que tivesse fundamentos de Jung, gostaria de trocar algumas palavras com você se possivel.

    Meu nome é Eucajus - eucajus@gmail.com

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