08/07/2011

Conveniência e moral no casamento

Adriana Tanese Nogueira

Entre o casamento baseado no cálculo e no interesse e aquele fruto da paixão transparente, há uma terceira situação, a mais complicada de todas. Se trata da união na qual afeto e conveniência convivem lado a lado. O que acontece?

Há pessoas de bons costumes, honestas dentro do possível e bem intencionadas que se ligam a outras por afeto - não por paixão verdadeira. Mas o afeto é cimentado por outro ingrediente que fica, vamos dizer assim, na sombra mas nem por isso é menos influente: o interesse.


Estar com aquela pessoa é conveniente, e pode sê-lo por uma variedade de razões, não necessariamente como expressão de mau caráter. Há muitas dificuldades na vida e, às vezes, a aliança com outra pessoa parece ser a única solução. Talvez não seja, mas é o que nos parece no momento. Geralmente, tal união é conveniente para ambas as partes e há afeto entre elas. Ou melhor, há algum sentimento verdadeiro entre elas, que pode muito bem ser tácida e mútua gratidão. Entretanto, não é amor. E por este motivo não tem como durar.

Com o passar dos anos, as vicissitudes normais de um casamento e subsequentemente de uma família trazem desgaste e apatia. O contrato inicial não se sustenta mais, porém como ele foi mascarado por um afeto supostamente tão profundo e verdadeiro para que originasse um casamento, a pessoa não ousa reconhecer consigo própria a importância real que o fator conveniência jogou na sua aliança inicial com o outro.

A pessoa não quer perder a cara na frente de si mesma. Não pode admitir que agiu movida por interesses dos quais agora não sente mais necessidades ou que aparentemente não valem o suficiente para sustentar um casamento. Ela descobre que gratidão e conveniência não bastam para conseguir ter carinho, cumplicidade, intimidade, sensualidade e entrega com a outra pessoa, e muito menos ter uma vida sexual satisfatória. No sexo muitas verdades vem à tona.

Mas são negadas pela combinação maléfica entre a moral que se quer manter consigo próprios e o medo de perder algo ao perder a relação. As perspectivas de futuro, entretanto, são nebulosas. O afeto do começo, sem estar nutrido por amor, não tem como não se tornar apatia, sobretudo porque esse tipo de união ocorre entre pessoas tão diferentes que não podem encontrar nutrimento uma na outra. A isso se soma o fato de que a delega de um poder à outra pessoa torna a primeira insegura quanto à sua capacidade de continuar sozinha. Com os anos, apesar da situação que motivou o casamento ter melhorado ou até ter se resolvido, a insegurança cresce. É como se houvesse sido depositado um "talismã da sorte" no outro. Num outro que não se ama e que é nosso marido ou esposa! Esta situação paradoxal cria um círculo vicioso refletido naquela sensação de estar presos, e de levar a relação "empurrando com a barriga".

Em conclusão, há escolhas imperfeitas que porém podem ser remediadas ao fazer novas escolhas mais apuradas e honestas. Transparência e humildade consigo são indispensáveis para ganhar o respeito de si mesmos e dos outros. E, claro, coragem para dar os passos que tornam uma vida digna dos nossos próprios padrões morais.

3 comentários:

  1. ...Existe uma infinidades de interesses que sustentam por longos e longos tempos algumas relações...

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  2. ...nem todos positivos para o desenvolvimento individual e do casal, e da família! Precisa ver a relação ganho-benefício e quais são as prioridades em jogo.

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  3. Se o homem apaixonar se de verdade por alguém, largaria às conveniências e manipulações da esposa p tentar ser feliz?

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