16/07/2011

ERA UMA VEZ O CASAMENTO

Adriana Tanese Nogueira

Havia uma vez homens que trabalhavam fora e mulheres que cuidavam de casa e filhos. Nesse tempo, os homens eram secos, sérios e distantes. As mulheres se ocupavam do bem estar emocional deles e dos filhos. Ele se abnegava no trabalho externo, sacrificando-se para sustentar a família. Ela se abnegava no trabalho interno, sacrificando-se para manter a família alimentada, limpa e unida.


Homens dessa era não são bons em expressar emoções, seu sentimentos não fluem com facilidade. A eles a família se dirige para a última palavra, neles repousa a autoridade final. A dureza do ganha-pão cotidiano, dos conflitos e desafios que se apresentam diariamente, as árduas vitórias e as muitas derrotas tornam esses homens duros e cansados. A casa é o lugar onde eles esperam encontrar conforto, descanso, renovação das energias. É natural, portanto, que não tenham paciência nem vontade de se desdobrar para entender uma criança berrante, a crise adolescial da filha e os problemas de autoestima do filho. A comunicação familiar é o ponto fraco desse homem.

Quem faz o meio de campo é sua esposa. Ela é a "grande mãe": acode a todos, nutre a todos, compreende a todos. Providencia as diversas necessidades para os diferentes membros da família. Por estar mais com os filhos os entende melhor, a ela eles recorrem para se confidenciar ou pedir mediação na relação com o chefe da família, o pouco compreensível pai. É ela quem ensina aos filhos a respeitar esse homem distante e nem sempre agradável de se ter por perto. Ela induz a obediência a ele, a mesma que ela lhe dá.

Razões econômicas pontuais fizeram emergir esse modelo de relação. A divisão de papeis corresponde à necessária partilha de responsabilidades e trabalho. Se considerarmos que antigamente as famílias tinham um número maior de filhos e que avós e outros parentes viviam juntos numa comunidade familiar, então, é evidente que, assim como em qualquer empresa hoje, uma boa organização do trabalho é indispensável para a sobrevivência e a prosperidade de todos.

Cada função exige diferentes aptidões. Estar com crianças pequenas demanda habilidades distintas que um executivo ou um operário não têm a oportunidade de desenvolver. A necessidade criou a função. Mulheres aprimoraram determinadas características humanas, como afetividade, relacionamento, cuidados práticos e materiais, sentido da casa, preocupação concreta com o outro (não ideal e abstrata), atenção para o bem estar físico, alimentação, limpeza, paciência, generosidade, harmonia material e beleza (na casa, no corpo, nas coisas físicas). Homens apuraram outras qualidades humanas, tais como força física, intelectualidade, estratégia, coragem, ousadia, ideias, frieza emocional, racionalidade, dureza de postura, atenção para o quadro mais amplo, visão de conjunto. Se elas cuidam do particular: corpo físico individual e familiar, casa material, corpo delas e deles, roupas, comida, dentes lavados, banho tomado, lençóis limpos, etc.; eles estão de olho no universal: sociedade, empresa, idéias, política, inflação, mercado, projetos. Mesmo um trabalhador braçal deve ter uma visão maior do que seu quintal para poder se inserir numa empresa ou procurar trabalho numa sociedade complexa e ampla.

Com o tempo, as necessidades econômicas foram revestidas por mantos sociais e culturais. Criaram-se interpretações e justificativas, segundo as quais "homens são assim" e "mulheres são assado". E vieram as religiões, e vieram os interesses políticos. Quem tem o poder escreve a história e determina o que é “real”. Os homens por terem historicamente detido o poder em lares, igrejas e parlamentos (re)produziram sua versão da história e da “verdade”.

A simples e pura repetição dos papeis proporcionou a introjeção dessas funções a qual  produziu uma específica psicologia que, por sua vez, parece dar suporte aos próprios papeis como sendo "natureza" e "essência".

Nada disso é verdade. Não existem essências, fora aquela única, de todos nós, a essência humana (o que será que é? Quem sabe?). Nessa base humana coexistem funções e aptidões diferentes que por causa de uma história milenar se fixaram em nossa psique em duas dimensões básicas do humano: a dimensão do masculino e aquela do feminino. Ambas são indispensáveis para o bom funcionamento do todo, seja ele a família e a sociedade, seja o indivíduo e sua interioridade.

Voltando ao tempo do faz de conta do casamento baseado em estereótipos, naquela era papai e mamãe não eram indivíduos, mas papeis. Como atores, dedicavam-se completamente a assumir sua parte, mergulhando com convicção no mundo que estava prescrito para cada um deles. Porém, como que para demonstrar que essas funções não passam de papeis, que não são essências inatas e fixas da psique individual, as mudanças na economia do mundo e suas consequências sociais (ou vice-versa, as mudanças sociais que produziram aquelas econômicas) trouxeram à tona o descontentamento feminino por estar enclausuradas dentro das quatro paredes domésticas onde já não havia mais uma família ampla, mas um marido que vivia fora de casa, filhos que estudavam e ela com seus eletrodomésticos e uma casa para limpar todos os dias numa eterna repetição. Não sobrou nenhuma tarefa humanamente com sentido. Uma vez que a família diminuiu de tamanho, uma vez que se tem máquina de lavar e todo um conjunto de eletrodomésticos, uma vez que existem escolas onde as crianças passam a maior parte de seu tempo e uma vez que a casas ficou vazia de pessoas, o que restou para a mulher? Fazer-se bonita no espelho da cômoda esperando o marido voltar para casa à noite?

Foi assim que as mulheres começaram a sentir aquela saudável vontade de ser novamente útil e de ter alguma satisfação na vida. Só podiam encontrar isso fora de casa, já que o lar havia se encolhido a um dormitório para quatro pessoas. Às duras lutas e desafios e entre gritos e dores, elas consegueriam sair de casa, estudar, trabalhar, ganhar independência. No mundo de fora, elas desabrocharam mas também "se complicaram". Já não são mais aquelas mulheres dóceis e amorosas, disponíveis, charmosas, apaziguadoras. No mundo de fora, ser isso equivale a ser massacradas em poucos minutos. Na selva há de por as garras de fora ou então sucumbir. É viver ou morrer. Assim, aquelas doce mulheres tiveram que aprender a vestir a couraça que muitas vezes grudou na pele...

Há mais de setenta anos, vivemos uma fase de transição nos relacionamentos entre homens e mulheres e, por consequência, naqueles familiares. Essa fase se iniciou com a saída das mulheres de casa – e ainda não terminou. Um novo equilíbrio não acontece de uma hora para outra, inclusive porque ele requer a participação do outro sujeito em questão, o homem.

O maridão de antigamente trabalhava o dia inteiro fora, voltava para casa e encontrava um lar limpo e organizado, cheirinho gostoso de comida chegando da cozinha, crianças alegres, já de banho tomado e prontas para dar-lhe um beijinho e irem para cama, uma esposa sorridente lhe dando as boas vindas, e lá ele se sentava em sua poltrona favorita, dava um profundo respiro e sabia que agora sim, podia, finalmente, repor as energias do dia de trabalho. Se é verdade que esse quadro nem sempre se realizava, ele era porém a referência para todos, portanto, também, a causa de brigas quando não cumprido. Mas um dia, a fadinha desse lar foi pro mundo onde enfrentou desafios e derrotas mas sobretudo recebeu muitos tapas na cara, bofetões por sua inexperiência, docilidade, amabilidade, gentileza, sinceridade, inocência. Ela teve que “acordar”. Teve que mudar. E assim, quando a fadinha que criava esse mundo de sonhos chegava ela própria em casa à noite, cansada, desejando crianças perfumadas, tranquilas e lavadas prontas para irem para cama, um marido sorridente e atencioso, um lar acolhedor e comida pronta e gostosa na mesa... a crise das relações de gênero deflagrou.

Devemos concordar que ser inteiros é mais difícil do que ser uma simples metade. Ser um expert em trabalhar num escritório ou na construção, num centro de pesquisa ou num consultório médico e ser também um expert em entender a linguagem de uma criança, atender reuniões de escola, conferir boletins, comprar roupas, fazer comida, limpar a casa e lembrar-se das comemorações familiares é enormemente difícil. Qual homem está a fim disso? E vice-versa, além de passar horas escolhendo roupinhas de bebê, fazer bolos, trocar idéias com outras mães, andar por supermercados e cuidar de ter uma casa gostosa e bonita acrescentar prazos de trabalho, trânsito, transações econômicas, preocupações com contas para pagar, chefes abusivos, colegas prontos a puxar o tapete e etc... qual mulher quer isso?

Por este motivo muitos casais mantém-se atados de unhas e dentes a esse modelo do passado na busca de uma vida em comum fácil, que flua sem transtornos e na qual cada um possa encontrar sua parte de satisfação. 

Infelizmente, porém (ou felizmente), não dá para enganar a evolução humana. Ocorre que por mais esforço que cada um coloque na fidelidade a esse modelo, ele está radicalmente rachado e bichado. Somente um casal parado no tempo e vivendo isolado do mundo dinâmico de hoje poderia (talvez) conseguir viver feliz nesse esquema rígido de papeis. Um tal casal precida viver isolado e ter mentalidade simples e antiquada porque na hora em que entrarem em contato com o mundo de hoje não terão como não confrontar-se com estímulos, idéias e oportunidades. 

O tempo desse modelo acabou. Está bichado porque quem o mantém paga um preço alto. Inúmeras mulheres com problemas psicossomáticos, sobretudo em cabeça, seios e úteros, para não falar das dores no corpo. Cabeça, porque não é usada o suficiente (há coisa demais reprimida que não "sobe" para a cabeça, ou seja para a consciência) e porque ela está cheia de raiva (a raiva reprimida dá muita dor de cabeça); seios e úteros porque são usados demais, no sentido que neles essas mulheres depositam seu sentido existencial (fazer filhos e dar a teta a crianças e maridos no sentido de atender prontamente a todas suas necessidades como faz uma mãe com o bebê); corpo porque nele fica tudo o que não foi dito. Muitos são os casais com vida sexual insatisfatória, há traições, hipocrisia e brigas. Não é o anel de brilhante ou a comidinha gostosa que segura ou dá sentido a uma relação.

A estabilidade de um relacionamento se baseia no companheirismo e na cumplicidade entre duas pessoas, ou seja: no entender-se, trocar, sentir-se, tocar-se na alma. Reconhecer-se. Poder conversar de verdade, sem um ser o papai explicando e maneirando para ela entender e ela a mamãe moderando e tomando cuidado para ele não ficar bravo. Mas o que o executivo tem a conversar que o nutra, que lhe dê satisfação verdadeira, com uma mulher cujo mundo é casa, cozinha e crianças? E o que uma mulher de sentimento apurado tem a trocar com um homem travado emocionalmente?

Mundos opostos, distantes, incompreensíveis impossibilitam relações de amor. Amamos quem compreendemos, com o coração e com a mente. Amamos quando encontramos o outro dentro de nós. 

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