27/04/15

O CASAMENTO SIMBIÓTICO

Adriana Tanese Nogueira

A simbiose é um conceito da biologia e significa “uma inter-relação de tal forma íntima entre os organismos envolvidos que se torna obrigatória.Ou seja se começa por escolha e se termina por obrigação: “Estou com você porque tenho, e tenho porque preciso.” O querer livre já se foi...

Vamos fazer duas distinções. Primeiro, toda relação se constrói a partir de uma "troca”: se estamos num relacionamento é porque ele nos dá algo de importante para nós. Mas na simbiose a “troca” toma o lugar do oxigênio: não se vive sem. Segundo, quando se ama de verdade se tende a "não poder viver sem a outra pessoa", mas este é um modo de dizer que tem valor num plano simbólico, enquanto que no concreto se faz lugar à maduridade de lidar com os inevitáveis altos e baixos e a distância física e emocional às vezes necessária.

O casamento simbiótico é algo diferente. Ele geralmente tem início no começo da juventude, quando a família de origem e, sobretudo, as feridas e falhas que esta deixou estão ainda fortemente gravadas na alma dos dois amantes, que anseiam por preenchimento. Os pombinhos inicialmente tendem a repetir o padrão mamãe-papai, prova é que há casais que se chamam de "filho" e "filha", ou “mãe” e “pai”. Falta-lhes autonomia e independência.

Autonomia é a capacidade de realizar atividades por conta prória e independência é poder ter iniciativa por conta própria. Sem elas, a individualidade lentamente se eclipsa e os dois viram um todo informe no qual não se distingue mais quem é quem. O casal simbiótico é como um indivíduo com duas cabeças e um corpo só. Mentalmente, eles se percebem diferentes, reconhecem falhas e qualidades de cada um. Mas, por baixo dessa camada consciente, existe o emaranhado de sentimentos inconscientes que eles partilham e que os amarram.

O nó da meada é que sua união não é em prol do desenvolvimento de ambos mas da sobrevivência de ambos. Por isso, cada um tem que permanecer igual porque se mudar vai desestruturar a relação, e se a relação mudar ambos vão afogar. Ou seja, a relação simbiótica é uma relação neurótica.

Mas como a vida não pode ser freada, sintomas e malestares vão surgir. A pressão interna para a mudança (= mais autonomia e independência) vai perturbar. Então, geralmente, um vai se sentir “sufocado” e o outro vai se sentir “inseguro”. Papeis esses que podem variar, dependendo do momento, porque na verdade ambos se sente assim. Quando em um bate a insegurança, devida à percepção da própria dependência, tende a sufocar mais o outro que recua produzindo no primeiro mais insegurança. Mas se o primeiro adotar a postura oposta, de recuo, eis que o segundo irá se sentir inseguro.

O fato é que a vontade interna por novas experiências cresce inexoravelmente. Nesse caso, há somente duas opções: romper a simbiose para transformar a relação, ou romper a relação. Em ambos os casos, é preciso romper com alguma coisas e aguentar a angústia da morte e do desconhecido. Somente coragem, honestidade e boa comunicação permitem fazer a transição. Caso contrário, ambos estreitarão o laço simbiótico, sufocando mais energicamente o espírito de liberdade, inclusive com a ajuda de remédios ansiogênicos e calmantes. Alternativamente, um ou ambos encontram sua “autonomia” através de mentiras, traições e subterfúgios.


O paradoxo desse tipo de relação é que foi justamente graças à simbiose que ambos os indivíduos cresceram ao ponto de sentirem agora a necessidade interior de ir além: o tempo está maduro, é hora de virar gente grande.

14 comentários:

  1. Comum, prisão, difícil se livrar, mas extremamente necessário...

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  2. Artigo extraordinario!!!!!
    Muito obrigada por este post. Agora, e possivel um casal sair desta prisao psicologica e ainda preservar seu casamanto?

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  3. Rose, se o casamento for baseado em mais do que a simbiose mútua, muda a forma de se relacionarsem perder a relação.

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  4. Sim, imagino que sim, mas em muitos casos, este "despertar" esta descoberta de que o relacionamento e simbiotico e muito dificil. Cada um lida com isso de forma diferente. Uns mergulham fundo e vao a descoberta de suas correntes, com o intuito de se libertarem e o outro no casamento nao consegue resolver isso dentro do casamento e sai...sai pra resolver sozinho...tavez seja nescessario pra um casal assim se separar por um tempo...

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  5. Boa tarde!
    É possivel dizer que um relacionamento homem-mulher seja uma repetição do relacionamento mãe-filha?
    Sinto estar vivendo isso neste momento e tenho pensado em me separar, para ver se consigo ver meu companheiro como homem de fato... é uma estratégia válida?
    Grata!

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  6. Rose, resolver a simbiose dentro do casamento sem fazer terapia é complicado. Cada caso é um caso, mas relacionamentos simbióticos tem raizes profundas na psique de cada um.

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  7. Carla, com certeza. Tenho um caso assim. Mudanças dessa profundidade demoram para serem realizadas. Acelear o processo é fazer terapia.

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  8. Boa noite Rose, em questão de filhos únicos de casais simbióticos, como é o processo de 'aprisionamento'e busca da liberdade, pelo filho? Obrigado

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  9. Depende de muitas variáveis, mas entre elas: ou o filho repete o modelo materno/paterno com uma namorada que vai conhecer aos 15 anos e se grudar nela por muito tempo, ou o filho pelo o caminho oposto e se afasta dos pais. Mas vai ser complicado, porque após a rebelião, ele vai sempre encontrar um modelo de relação limitante e por isso pode sofrer ou "não dar certo" em seus próprios relacionamentos.

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  10. Meu casamento simbiótico possuía elos devastadores e, estou tendo que lidar com toda essa devastação agora. Meu ex-marido é alcoólatra, temos uma diferença de idade de 22 anos (só aqui um mundo de problemas psicológicos e lapsos de preenchimento afetivo paterno), casei com 22 anos (ele com 44) e permaneci casada durante 14 anos. Agora, aos 36 anos me separei. Os últimos 5 anos foram de muita briga, humilhação, traições, decisões terríveis e unilaterais por parte dele... resultado: Fui ficando doente e, num ato de desespero, saí de casa. Não sei como. Consegui finalizar o processo de separação. Mas agora que ele já está com outra, em lua de mel, me deparei com um sentimento tão forte e tão destrutivo dentro de mim que nem sei explicar. Provavelmente, fruto de milhares de amarrações conscientes, inconscientes, dominação e etc, sofridos ao longo destes anos. Sinto-me (ainda) presa a essa história. Sou Al-Anon e vivo cada 24h como um grande desafio em minha vida! O buraco em meu peito e a dor que sinto parece que vai me matar! Espero que passe rápido! Estou DEVORANDO suas postagens. Adorei seu site. Tem muitas coisas aqui que me abrem os olhos para uma série de armadilhas as quais eu me envolvi. A maior parte por inexperiência e despreparo. Suportei o que suportei durante tanto tempo (talvez) por confundir baixa auto-estima com "amor ao próximo", no caso, meu ex-marido. Enfim... parabéns pelo seu trabalho. Espero arrancar essa dor o mais rápido possível de dentro de mim e retomar o controle da minha vida!

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    1. Parabéns, T. Bom depoimento o seu, muitas mulheres precisam ler. Gostei da "confusão" entre amor ao próximo e baixa auto-estima. Ë por aí mesmo que as mulheres se enroscam - uma das muitas armadilhas. Continue seu trabalho e se possível faça uma terapia, vc tem potencial para crescer!

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