10/07/11

Simbiose no casamento

Adriana Tanese Nogueira

A simbiose é um conceito que pertence à biologia, e denota a associação entre dois seres que beneficia a ambos; melhor, ambos seres precisam de tal associação para continuarem vivos e produtivos. Já dá para entender como esse conceito é transportado para as relações de casal: os dois não conseguem viver um sem o outro. 

Vamos começar fazendo algumas distinções. Toda relação se constrói a partir de uma "troca" que pode parecer e, muitas vezes, é simbiótica: pais e filhos, amigos, casais e até empresas, grupos e assim em diante. Se estamos num relacionamento é porque ele nos dá algo de importante. Que esse "algo" nem sempre seja saudável são outros quinhentos. Para o sistema mental da pessoa, para seus hábitos, medos e limites, a vantagem se apresenta de alguma forma como superior aos riscos que uma possível mudança traria.
Na relação entre pais e filhos, onde aparentemente, os filhos são os que ganham mais, é bom lembrar do espaço gigantesco que estes ocupam na vida e no coração de seus pais. Além de responsabilidades e problemas, crianças oportunizam adultos que, talvez nunca teriam essa chance, de se sentirem importantes,  de estar "acima" de alguém - se amor e crescimento recíproco não fossem suficientes.

Uma segunda noção que precisamos esclarecer é a idéia de que quando se ama de verdade se tende a "não poder viver sem a outra pessoa". A atração sexual ou aquela íntima e profunda cria uma tamanha sinergia de forças que duas pessoas podem superar muitos obstáculos para estarem juntas. Por outro lado, porém, faz parte das qualidades do amor dar a força para aguentar a distância, quando ela for necessária. Distanciamento físico ou emocional podem marcar alguns momentos da relação amorosa. Porque ninguém é pronto e resolvido e  porque a vida é imperfeita, amar não equivale a ter sempre momentos agradáveis e cheios de compreensão recíproca. Portanto, o "não posso viver sem você" do pique do amor romântico é um modo de dizer que tem valor num plano simbólico, enquanto que no concreto deve fazer lugar à maduridade de saber lidar com altos e baixos e com as contradições.

O casamento simbiótico é algo diferente. Ele é o resultado, geralmente, da união entre duas pessoas durante sua juventude, quando sua referência à família de origem e, sobretudo, às feridas e faltas que esta lhes deixou estão ainda fortemente gravadas na alma, gerando anseio por preenchimento. Os pombinhos inicialmente tendem a repetir o padrão mamãe-papai, prova é que há casais que chamam uns aos outros "filho" e "filha". Se o padrão de base das relaçãoes entre homens e mulheres é o do pai-filha e o da mãe-filho, nos casais simbióticos esse modelo é levado ao extremo, e literalmente os dois não sabem estar sem o outro. Falta-lhe autonomia e independência.

A ausência de autonomia é a incapacidade de realizar atividades próprias à personalidade de cada um, e tomar escolhas que dizem respeito aos gostos de cada indivíduo. A individualidade lentamente se eclipsa e os dois formam um todo informe no qual não se distingue mais quem é quem. Se a autonmia é a capacidade de fazer coisas sozinhos, independência é aquela de ter iniciativa por si próprios. A pessoa independente não pede permissão para fazer o que sente vontade e é importante para ela. Ela própria se autoriza, seguindo seus instintos e pensamentos. No casal simbiótico, esses dois aspectos essenciais para o desenvolvimento saudável do ser humano se perdem, ou são sufocados.

O casal simbiótico é como um indivíduo com duas cabeças mas um corpo só. Mentalmente, eles continuam se sentindo diferentes um do outro, sabem reconhecer perfeitamente as falhas e qualidades de cada um, os hábitos e preferências. Mas, por baixo dessa camada consciente, existe o emaranhado de sentimentos inconscientes que eles partilham e os amarram.

O nó da meada é que eles sua união é funcional à cada um conseguir ir adiante na vida. Psicologicamente falando, uma série de projeções foi realizada sobre o outro, investindo não só sua função (por ex., trazer dinheiro para casa ou cuidar da casa), mas um nível mais profundo. O outro representa um pedaço de si, ou vários pedaços de si, ocupando um lugar tamanho e de tal relevo na vida psicológica da pessoa que, no bem ou no mal, ela não consegue fazer sem.

O problema dessa situação é que não conta com as mudanças. Apesar de tudo, a força evolutiva do ser humano é fenomenal. Nada permance igual e tudo muda. Mudamos, queiramos ou não. Mesmo numa situação psicologicamente amputada, como a do casal simbiótico, a pressão interna na direção da individuação (que implica necessariamente em maior autonomia e independência) insiste e perturba. Aquele dos dois que está "para trás", aquele no qual este processo está mais sufocado, começa a se sentir inseguro e ansioso. Aquele que está "para frente", no qual a pressão interna tem mais via livre (geralmente de forma totalmente inconsciente), sentir-se-á "sufocado" pelo modelo de relação na qual está.

A vontade interna de novas experiências vai crescendo inexoravelmente. É como um cavalo jovem, cheio de vida e relinchando, desejoso de poder galopar livre pelas pradarias. Na falta da liberdade verdadeira, que só viria evoluindo para fora desse modelo de relação, duas coisas podem ocorrer: sufoca-se mais energicamente o espírito de liberdade, inclusive com a ajuda de remédios ansiogênicos e calmantes; ou se encontra essa autonomia de forma escondida e nos espaços mais ilícitos, como traições pelos cantos, mentiras e subterfúgios.

Transformar uma situação dessa para melhor é complicado porque toda e qualquer mudança é percebida pelo casal simbiótico como ameaçadora. É como dividir gêmeos siameses, grudados pelo corpo. Há o risco da morte, que no caso do casal simbiótico é o risco de matar a relação, ou o impulso evolutivo que exige que ela seja renovada e, com ele, aniquiliar a individuação de cada um. Entretanto, adiar o processo de mudança, uma vez que as sementes já foram postas, na forma de insegurança, ansiedade, desconfiança e mentiras, promete um futuro sombrio.

O paradoxo desse tipo de relação é foi justamente graças à simbiose que ambos os indivíduos cresceram como pessoas ao ponto de sentirem agora a necessidade interior de ir além. É por causa da simbiose que hoje cada um têm condições de poder ir adiante sem ela. O tempo está maduro, é hora de virar gente grande.

14 comentários:

  1. Comum, prisão, difícil se livrar, mas extremamente necessário...

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  2. Artigo extraordinario!!!!!
    Muito obrigada por este post. Agora, e possivel um casal sair desta prisao psicologica e ainda preservar seu casamanto?

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  3. Rose, se o casamento for baseado em mais do que a simbiose mútua, muda a forma de se relacionarsem perder a relação.

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  4. Sim, imagino que sim, mas em muitos casos, este "despertar" esta descoberta de que o relacionamento e simbiotico e muito dificil. Cada um lida com isso de forma diferente. Uns mergulham fundo e vao a descoberta de suas correntes, com o intuito de se libertarem e o outro no casamento nao consegue resolver isso dentro do casamento e sai...sai pra resolver sozinho...tavez seja nescessario pra um casal assim se separar por um tempo...

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  5. Boa tarde!
    É possivel dizer que um relacionamento homem-mulher seja uma repetição do relacionamento mãe-filha?
    Sinto estar vivendo isso neste momento e tenho pensado em me separar, para ver se consigo ver meu companheiro como homem de fato... é uma estratégia válida?
    Grata!

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  6. Rose, resolver a simbiose dentro do casamento sem fazer terapia é complicado. Cada caso é um caso, mas relacionamentos simbióticos tem raizes profundas na psique de cada um.

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  7. Carla, com certeza. Tenho um caso assim. Mudanças dessa profundidade demoram para serem realizadas. Acelear o processo é fazer terapia.

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  8. Boa noite Rose, em questão de filhos únicos de casais simbióticos, como é o processo de 'aprisionamento'e busca da liberdade, pelo filho? Obrigado

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  9. Depende de muitas variáveis, mas entre elas: ou o filho repete o modelo materno/paterno com uma namorada que vai conhecer aos 15 anos e se grudar nela por muito tempo, ou o filho pelo o caminho oposto e se afasta dos pais. Mas vai ser complicado, porque após a rebelião, ele vai sempre encontrar um modelo de relação limitante e por isso pode sofrer ou "não dar certo" em seus próprios relacionamentos.

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  10. Meu casamento simbiótico possuía elos devastadores e, estou tendo que lidar com toda essa devastação agora. Meu ex-marido é alcoólatra, temos uma diferença de idade de 22 anos (só aqui um mundo de problemas psicológicos e lapsos de preenchimento afetivo paterno), casei com 22 anos (ele com 44) e permaneci casada durante 14 anos. Agora, aos 36 anos me separei. Os últimos 5 anos foram de muita briga, humilhação, traições, decisões terríveis e unilaterais por parte dele... resultado: Fui ficando doente e, num ato de desespero, saí de casa. Não sei como. Consegui finalizar o processo de separação. Mas agora que ele já está com outra, em lua de mel, me deparei com um sentimento tão forte e tão destrutivo dentro de mim que nem sei explicar. Provavelmente, fruto de milhares de amarrações conscientes, inconscientes, dominação e etc, sofridos ao longo destes anos. Sinto-me (ainda) presa a essa história. Sou Al-Anon e vivo cada 24h como um grande desafio em minha vida! O buraco em meu peito e a dor que sinto parece que vai me matar! Espero que passe rápido! Estou DEVORANDO suas postagens. Adorei seu site. Tem muitas coisas aqui que me abrem os olhos para uma série de armadilhas as quais eu me envolvi. A maior parte por inexperiência e despreparo. Suportei o que suportei durante tanto tempo (talvez) por confundir baixa auto-estima com "amor ao próximo", no caso, meu ex-marido. Enfim... parabéns pelo seu trabalho. Espero arrancar essa dor o mais rápido possível de dentro de mim e retomar o controle da minha vida!

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    1. Parabéns, T. Bom depoimento o seu, muitas mulheres precisam ler. Gostei da "confusão" entre amor ao próximo e baixa auto-estima. Ë por aí mesmo que as mulheres se enroscam - uma das muitas armadilhas. Continue seu trabalho e se possível faça uma terapia, vc tem potencial para crescer!

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