08/08/2011

FOME DE MUNDO (BOM). PROBLEMAS DE ALIMENTAÇÃO. QUANDO A COMIDA É MAIS DO QUE COMIDA

Adriana Tanese Nogueira

Comer é pôr para dentro um pedaço de mundo. Pelo alimento absorvemos o mundo à nossa volta, depois o digerimos e expelimos o que não nos serve. Essa troca orgânica nos mantemos vivos, crescemos e nos fortalecemos. Assim como uma pessoa que não lê, que não estuda e/ou vive isolada e sem comunicação será fraca de entendimento e terá vocabulário e raciocínio limitados, da mesma forma aquela que não come terá seu sistema imunitário fragilizado até eventualmente morrer. Alimentar-se, apesar de ser um elemento chave do instinto de sobrevivência, nem sempre parece funcionar tão bem como acontece no mundo animal. A razão disso é que somos animais simbólicos, tudo em nós, inclusive nossa fisiologia e instintos, passa pelo crivo do 'psicológico', do espiritual, do emocional, do sentido, da alma (cada um escolha a palavra que melhor lhe agradar).


O aspecto simbólico da comida condensa significados que vão além de sua função fisiológica para o corpo. Todos sabem que alimentar-se é uma experiência que tem um valor de socialização muito grande. Comida partilhada, experiência enriquecida. O alimento é símbolo de amizade, família, alegria e comunhão. Mas a comida pode ser usada de várias outras formas: aplaca solidão e ansiedade ou irritação e medo. Alguns adultos dão comida às crianças como se dá a chupeta a um bebê, é um cala-boca. E talvez alguns adultos comam para tampar a boca e não usá-la para expresser o que pensam e sentem de verdade.

Uma coisa é certa: a fome ou o medo de mundo ataca muitos pequenos. Uma criança com ‘dificuldade’ para comer pode estar dizendo que tem medo do mundo no qual vive, que não se sente à vontade, que não pode partilhar o tipo de nutrimento psicológico e social que o ambiente lhe oferece. E a comida vira o símbolo desse nutrimento. Todos temos fome de mundo, afinal nascemos para realizar alguma coisa nessa Terra. Mas será que o mundo, ou seja a família, os amigos, o grupo, a sociedade abre caminho, dá suporte ou solapa e puxa o tapete? Comer demais é outra forma de se proteger do mundo: quanto maior a camada externa tanto mais a alma (os sentimentos, a vulnerabilidade) estaria protegida. Ah, se só fosse verdade… No lugar de se tornar grande, a pessoa se torna larga. Um pequeno erro semântico que custa caro e não leva a lugar nenhum.

O nutrimeto adequado não se mede em quantidade mas em qualidade. Possuir inclusive tempo não é obviamente suficiente. Seria como dar balas e chocolates  em quantidade achando que se está alimentando bem um filho. Como sabemos o açúcar dá a sensação de preenchimento mas é um preenchimento superficial e transitório, e estraga o apetite para os alimentos importantes. A ganância de comida pode ter este aspecto: querer muito do ruim achando que vai ficar bom. E se quer o ruim porque é o que se conhece, não necessariamente porque se é estúpidos. Alguém acostumado a McDonald’s não vai saber o que é comida orgânica. Os pais perderam aí uma oportunidade educacional. Alimento bom é aquele que é assimilado pelo corpo mantendo-o saudável, forte e resistente.

O que na nossa vida psicológica tem esse resultado? Amor, no sentido de apoio, suporte, ajuda no processo de crescimento e auto-descoberta. Isso significa que os pais (ou quem ama) se dão o trabalho de compreender a criança, de entender o que está acontecendo com ela, e se não forem capazes disso, procuram um profissional para ajudar, mas certamente não dão “balas” (isto é, Disney, brinquedos, TV, etc.) para a criança parar de “perturbar”. O que nos faz forte é perceber que somos amados de verdade, que alguém está aí com a gente, que quem nos importa torce para que damos certo. O que nos faz psico-social-fisiologicamente saudáveis é conviver com adultos que não eliminam os problemas negando-os e jogando a sujeira por baixo do tapete. Saudáveis são aqueles que assumem seus sentimentos negativos e os trabalham para aprender com eles e superá-los. Saudáveis são aqueles pais e amigos que não precisasm fazer a criança se sentir inferior e e não puxam seu tapete para se sentir mais importantes.

A fome de mundo bom da criança, quando não satisfeita leva à ganância que é a carência endêmica de algo essencial que falta há muito tempo, possivelmente atenção, provavelmente houve um vazio de atenção, reconhecimento e legitimação da existência daquela criança com todas suas características individuais. O buraco que se tenta preencher com alimento físico é para outro tipo de alimento, que não se sabe onde buscar. Para desatar uma situação dessas é preciso reconstruir a experiência de família e modo de viver da criança para identificar onde foi que deu o(s) nó(s). A criança não sabe nomear o que lhe falta, porque ela cresceu num ambiente que desconhece até mesmo o vocabulário para dizer certas coisas. Por isso é preciso de alguém de fora para observar a realidade com outros olhos e oferecer uma nova interpretação dos fatos. E, com ela, novos caminhos e soluções.

No caso da criança difícil para comer, ela está dizendo algo parecido mas em outra linguagem. Enquanto aquela engole comida afoita para aplacar a angústia, esta tenta desesperadamente se proteger do que não presta hiperselecionando o que introduzir em seu sistema. Desta forma, ela tenta controlar seu mundo, e sua dor. O que ela evita representa o que a machuca. Essa forma de domínio sobre o mundo é o reflexo de uma profunda tristeza porque a verdade é que crianças não têm opção: não podem mudar de pais, escola e amigos. Elas tem de “engolir”. “Então, se tenho que engolir toda essa porcaria, vu me dar o direito de não engolir aquilo sobre o qual tenho poder. Minha boca ficará fechada na hora do almoço!”

Relaciona-se os problemas alimentares com o materno. A comida é a matéria, a base física, o que sustenta, assim como as mães ofereceram, através de seus corpos e de seu leite, a base física e o sustento inicial para a sobrevivência da criança. Problemáticas com a mãe real são reais e frequentes, mas nem por isso exaurem o significado do problema alimentar. muitos problemas de relacionamento com a comida podem ser lidos como problemáticas com a mãe real, até porque a própria mãe pode ser um elemento do ambiente que atropela a criança e não lhe dá suporte. Mãe é todo o mundo externo, a sociedade é mãe, o grupo é mãe, a família é mãe. Mãe é a base material de onde emergimos. O inconsciente é mãe porque dele emerge a consciência.  

A criança que sai de casa e ingenuamente se aproxima do mundo externo utiliza os recursos relacionais que conheceu em sua casa. Se eles forem muito diferentes daqueles do mundo, ela irá se sentir confusa. Se em sua casa ela não havia experimentado chantagem, falsidade e engano e no seu contato com o mundo ela se depara com esse outro lado da humanidade, assustada e machucada ela poderá começar a desenvolver lentamente uma problemática com relação à comida. Ela não tem consciência do que está lhe acontecendo, além do fato que geralmente os eventos do mundo externo repercutem tão poderosamente na alma infantil que ela demora muito tempo para dar sentido ao que viveu. Os adultos que convivem com a criança notam lentas mudanças em seus hábitos sem compreender a relação, apesar de poder ter conhecimento das situações que ocorrem, por exemplo, na escola. Entretanto, crianças não contam muita coisa para os pais, não porque elas querem esconder, mas porque não sabem o que contar, mas porque não sabem como expresser em palavras e conceitos o que estão sentindo. De sua problemática só se percebem os sintomas. Nesse caso, querer resolver a questão focando no sintoma não vai ajudar, mas pode, isso sim. Um emaranhado de fios necessitam de mão delicada e paciente para ser desenrolado. Puxões apressados e incomodados só apertam o nó.

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