02/08/2011

O objetivo da análise junguiana

Adriana Tanese Nogueira

"Considero como a mais excelente tarefa  da psicoterapia hoje perseguir com determinação de propósito o objetivo do desenvolvimento individual. Assim fazendo, nosso esforço irá seguir a própria batalha da natureza para levar a vida à sua mais plena possível florescência em cada indivíduo, pois somente no indivíduo a vida pode realizar seu sentido - não no pássaro que está numa gaiola dourada." Jung, CW 16:229

Ao observar a natureza, notemos que há animais considerados biologicamente mais evoluídos do que outros. A escala biológica vai dos animais mais simples, os que possuem sistema cerebral simples aos mais complexos, culminando em nós. Em cada nível da evoluçào biológica, podemos observar encantados as maravilhas que todo animal é capaz de desempenhar. Entretanto, a formigas é um animal inferior ao cachorro, assim como a abelha é inferior ao macaco. A diferença entre uns e outros é que formigas e abelhas são animais coletivos. Macacos e cães, animais individualizados. Estes sabe reconhecer o dono, seu nome, sabem descobrir utensílios para o próprio uso, entender comandos.

Um cachorro não é igual a outro, ter Boby não é a mesma coisa que ter Ruby, enquanto que uma abelha é igual à outra, uma formiga à outra. Animais coletivos são substituíveis. Animais mais evoluídos exibem os traços da personalidade, de uma presença que é impossível encontrar nos primeiros.

Individualidade é isso: é ser único, diferente, singular. E, também, original. Fazer o que todos fazem é ser um sujeito coletivo. Se por um lado, esta atitude garante a pertença ao grupo, qualquer que este seja (família, amigos, trabalho, partido), por outro se torna facilmente aquela gaiola dourada da qual fala Jung.

A pessoa em processo de individuação busca se conhecer, reconhecer em si o que a faz diferente das expectativas que os outros têm dela, o que lhe destrói ilusões de comunhão, o que a impulsiona a querer de um jeito e não de outro, o que sonha e por que sonha o que sonha.

Individuação é o caminho na busca do sentido individual do estar sobre esta Terra, ter nascido dessa família, ter vivido o que foi vivido, ter feito escolhas certas e erradas, ter determinadas ambições, medos e dúvidas. Individualização é rejeitar respostas prontas, etiquetas que são grudadas na pessoa desde cedo, é renovar, perguntar, questionar, não se contentar. Individualizar-se é querer mais: querer ser mais.

O objetivo da análise junguiana é proteger o indivíduo contra tudo que o sufoque, é ajudá-lo a libertar-se das teias de aranha que o prendem, é iluminar seu caminho com um ponto de vista potencializador, e alimentar sua alma de conteúdos que de fato a nutram. 

Em paralelo, a análise junguiana realiza uma revisão dos conteúdos mentais e afetivos que prejudicam a saúde psicológica (e, frequentemente, também física) do indivíduo, perguntando e indagando a respeito do que é realmente verdadeiro e importante e do que não é necessário, do que faz bem e daquilo que parece um bem mas tem consequências negativas.

Ao fazer isso, a análise junguiana anda em sintonia com a própria natureza, a qual tem demonstrado durante milhões de anos de evolução terrestre que o ponteiro de sua bússola está direcionado para o indivíduo. A natureza fomenta a individuação. É essencialmente natural buscar a individualização, querer ser Uno e Um, Especial e Original.

Mas no mundo humano essa charada só pode ser resolvida através do trabalho responsável e contínuo do indivíduo sobre si mesmo. Não é por um passe de mágica ou graças a uma roupa de marca que se ganha individualidade. Por isso, as massas representam o oposto do individuação. Massa corresponde ao conjunto de pessoas que vivem seguindo ondas, modas, mandamentos coletivos, independemente de quanto dinheiro tenham no bolso, de seu nível de escolaridade e de sua aparência física. Massa é quem vive como indivíduo coletivo, coisa que nenhuma pessoa individualizada conseguiria fazer.

8 comentários:

  1. Gostei do texto.
    Porque ele me ajudou a entender um pouco uma análise junguiana que fiz. Há muito tempo. Virei professora particular depois da análise. Fiquei confusa, pq não era esse meu plano.
    ....
    Fiquei pensando se as formigas não se reconhecem. E os carneiros?

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  2. Os carneiros fazem béééééé todos juntos. Carneiros precisam de um pastor. Pastor de alma, guru, mestre, pai, mãe... Adultos superaram a minoridade que consiste em se apoiar em outros para tomar suas próprias decisões (ou melhor, delegar ao grupo suas próprias e responsabilidades).

    Abraço
    Adriana

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  3. Parabéns pelo blog, estou adorando! Adicionei nos favoritos já!! rs

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  4. Adriana, sou biologa evolucionista e este conceito de que existem organismos mais evoluidos do que outros é simplesmente inexistente

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  5. Maria Betânia, evoluídos aqui é igual a mais complexos.

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  6. Texto muito interessante, realmente nosso interior é um universo sem fim. Que bom que Deus não escolhe religião para escolher os seus. Parabéns!!

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