01/09/2011

Purificando as figuras paterna e materna em nós

Adriana Tanese Nogueira

Quando era uma adolescente me dei conta que eu amava a Mulher, mas não as mulheres. E amava os homens, mas não o Homem. Com essa, aparentemente, misteriosa frase queria dizer algo bem simples.

As mulheres que eu conhecia não constituíam modelos para mim. Podiam ser mulheres muito queridas e amadas, como minha mãe, por exemplo, mas o papel delas não era algo que eu queria para mim (papel que inclusive minha mãe já superou fazem muitos anos). Para uma adolescente em via de crescimento, que precisa desabrochar como mulher, encontrar modelos femininos nos quais se identificar é essencial (e o mesmo, obviamente, vale para os
homens com relação ao modelo masculino). Apesar da minha rejição instintiva dos estereótipos sociais femininos, eu sentia um grande amor pelo feminino em si, pelo Ser Mulher. Tanto é que sempre tive muito orgulho de ser Mulher.

Lembro que via minhas colegas que, por terem mães infelizes, sufocantes, ignorantes, preconceituosas e inseguras acabavam por se vincular ao pai, e idealizá-lo. Geralmente, ele era melhor do que ela, mais seguro, mais dono de si. Claro. A razão é óbvia, a mesma pela qual o mundo ocidental é ainda liderado por brancos (e possivelmente homens) e não por negros (e poucas mulheres). Eu tive a sorte de ter uma ótima mãe a qual, através de seu exemplo de vida, fortaleceu meu amor pela Mulher, pela outra face de Deus, a Deusa.

Meu amor pelos homens mas não pelo Homem devia-se ao fato de eu amar os homens como pessoas, amava meu pai, meus dois irmãos, meu tio... Sempre apreciei as qualidades masculinas. Entretanto, o Homem como modelo era problemático, pela simples razão que nele eu entrevia a raiz do sistema de injustiça de gênero que eu presenciava em todos os momentos da minha vida, familiar e social. É uma injustiça sutil, "normal", até "óbvia" e inevitável. Não significa necessariamente ódio e discordia. É simplesmente a forma como as coisas eram, mas que não queria que fossem para mim porque era injusto, não havia paridade, equidade, igualdade de respeito e liberdade de expressão.

Senti-me assim como que segurando duas pontas de uma corda invisível. De um lado estava a Mãe, do outro o Pai, de um lado a Mulher, do outro o Homem. Não queria abrir mão de nenhum dos dois. Mas ambos precisavam de um bom trabalho de transformação interior. Diferentemente de tantas amigas minhas, não escolhi nem a identificação com o pai, nem aquela com a mãe. Queria ambos, amava ambos. Minha escolha foi a terceira via: fui fazer análise, aliás já fazia quando me dei conta disso tudo. Continuei meu caminho de auto-conhecimento e de purificação e intergração das figuras parentais. Não é a caso que sou hoje a filha que melhor se dá com ambos meus pais, com os quais tenho uma relação de amizade, confiança e transparência. Além de muito amor.

A purificação das figuras parentais consiste em reconhecer em si os aspectos de cada genitor, gravados dentro por hábito e repetidos inconscientemente. Precisa-se separar o joio do trigo e distinguir entre idiosincrasias pessoias e valores universais. Cada genitor encarna o Masculino ou e Feminino a seu modo. Se trata de transcender o que é pessoal para enxergar o universal. Mas não em abstrato. Uma coisa é entender que seu pai é assim e assado por conta dessa e daquela experiência de vida. Isso é bom, ajuda a compreender seu pai, mas não a trabalhar seu pai interior. Seu pai interior está em suas próprias posturas, pontos de vista, preconceitos, medo, projetos, modo de pensar. Discernir esse emaranhado de elementos libera o aspecto paterno simbólico para que ele cumpra sua função, não em geral mas no concreto de sua vida e personalidade, e dentro de sua particular história de vida. Este é decididamente um trabalho individual, preciso e atento, não algo que se desenvolve ouvindo uma palestra ou lendo um livro.

Mesmo os mais humildes e ignorantes dos genitores possuem qualidades das quais ser orgulhosos. Não em abstrato, repito, mas porque, no processo interior de sofisticação, descobrimos em nossa vida de que forma esses pais, avós e bisavós nos ajudaram a viver de uma certa maneira, a alcançar objetivos ou até a tê-los. A vida ensina, não precisa ter dinheiro nem ter estudado. Aliás, meus  avós maternos semi-analfabetas teriam muito a ensinar hoje em dia a muita gente pós-graduada.

O mesmo processo vale para o aspecto materno. Toda família tem seu "chefe", ou aquela pessoa considerada a melhor entre os genitores. Pode ser a mãe ou o pai. Ela é considerada a pessoa "boa", e é aquela com a qual uma criança geralmente se identifica, ingenuamente assumindo seu ponto de vista e suas dores. Geralmente, é a mãe. Muitas vezes, são os filhos homens que se identificam com ela, colocando-se contra o pai "mau". Mas tudo tem seu outro lado. Uma relação é feita de duas pessoas, ou melhor e mais frequentemente de dois estereótipos que aprisionam duas pessoas. A vontade de comer se junta sempre à fome, assim os papeis se encaixam e, se é verdade que existem responsabilidades individuais, é também verdade que não há bodes expiatórios em absoluto. Faz parte do se tornar adulto, ajustar a própria lente interna e enxergar as coisas com mais claridade e objetivida.

Questionar a própria forma de entender os pais coincide com pôr em discussão nossa própria forma de escolher, agir, pensar e sentir. Nesse processo de reavaliação, processamos as interpretações do passado à luz de suas consequências e das necessidades do presente. Podem ocorrer grandes iluminações.

Uma vez transformado o material bruto interior em conhecimento, temos à disposição uma nova paternidade e uma nova maternidade. Um novo Homem e uma nova Mulher - dentro de nós. Sem os rancores do passado, mas serenos. E bonitos.

Bonitos porque o Masculino em si, expurgado dos elementos que o caracterizam no patriarcado machista é admirável, poderoso, intenso, essencial. O Feminino despoluído do que o bloqueia e sufoca desperta reverência, admiração e respeito. Ambos são as duas faces do mesmo Deus, do qual nós somos expressões multicoloridas em versão individual. Microcosmos que refletem o Macrocosmo.

O caminho para o masculino e o feminino passa pelos nossos pais. Eles são nossa primeira experiência do que é ser homem e mulher. Mesmo a melhor das relações pais-filhos necessita de uma revisão por parte do filho/a porque não queremos filhos que sejam uma réplica de seus pais, e sim indivíduos que graças a seus pais ganham asas.

Entretanto, a luta para sair do casulo das projeções sobre homens e mulheres é por conta de cada um, não vem numa bandeja de ouro, não é resultado de iluminação e muito menos acontece por geração espontânea. Ocorre porque alguém agarraça as mangas e enfrenta a jornada.

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