10/09/2011

Saber agir

Adriana Tanese Nogueira

Os que, para agir,
esperam sempre que tudo seja perfeito,
jamais realizarão alguma coisa.


A insistência na busca pelo momento certo para tomar uma decisão necessária perde aquele momento em que a brisa chega e enche as velas, permitindo o início de uma nova jornada. A teimosia na idéia de que hão de haver determinadas circunstâncias antes de fazer o que se sabe tem que ser feito, é uma forma indireta de declarar não só a própria insegurança, quando efetivar a auto-sabotagem. Indecisão é uma experiência comum, alguns são mais outros menos indecisos. A única certeza da indecisão é que quanto mais ela persiste menores as chances de algo realmente vir a acontecer.

A indecisão alimenta a inércia. Na física, para mover um objeto é preciso de uma força
igual ou superior à sua massa, que é energia inerte. O mesmo vale em psicologia, o hábito produz "massa", quanto mais arraigado o hábito maior a força necessária para tomar a atitude que leva à mudança. Quando é preciso um evento traumático para que a pessoa decida algo é porque ela está há muito tempo vacilando na indecisão. Esse vacilo provocou o aprofundamento do problema, levando à gravidade de suas consequências.

A inércia engorda a covardia. Quanto menos se age mais se teme dar o primeiro passo. Menor é o hábito a tomar decisões, maior é o medo de fazer algo diferente. O movimento que parece pequeno para o atleta é vivenciado como avassalador para quem vive sentado no sofá vendo TV. Indecisos crônicos são como obesos. O potencial para a mudança está estocado em gordura solidificada, prejudicial à saúde psíquica. Movimento é vida, tudo o que vive se mexe. Quanto menos nos mexemos mais estamos próximos à morte. Somente o morto está parado. Movimento psíquico é tão necessário quanto o físico e significa: entender, perguntar-se, mudar de idéia, clarear, discernir, duvidar, sacudir costumes, rever medos e limites... A covardia fortalecida pela falta de atitudes produz um círculo vicioso, até que um evento grave, sério e, muitas vezes, irreversível obrigue a fazer algo, geralmente quando é tarde demais para que o final seja realmente feliz.

O medo do novo e do diferente é inerente aos seres vivos. Animais e humanos sofrem o mesmo temor. Ter medo do estranho não é o problema, mas ficar no medo sim. Permanecer paralizado na insegurança e, ainda por cima, encobrir a verdade com argumentos fictícios é problemático.

Duas armas são usadas para a auto-sabotagem na hora de agir. Há as racionalizações que pessoas que se prezam lógicas e racionais gostam de usar. E há os limites circunstanciais que as demais consomem com desenvolutra. Racionalizações são raciocínios mascarados de lógica cuja função é esconder a realidade. Confundem com sua aparente verdade, parecem convencer e convencem os miopes de intelecto. Os limites circunstanciais são diversos. Uma pessoa não decide fazer algo porque "não tem dinheiro", o que quer dizer que não quer parar de gastar dinheiro em outras coisas para canalizar os recursos financeiros segundo um novo projeto. Ou então, pode ser que "não seja o momento certo", porque agora tem antes que terminar isso ou iniciar aquilo, esperar a esposa ou o marido fazer isso ou aquilo, os filhos cresceram, a promoção chegar, o Natal passar e assim em diante. 
O resultado é o mesmo. Perder o momento de agir enfraquece a vontade. O momento certo de agir se sente não se pensa. A partir da elaboração intelectual de uma série de condições, uma pessoa chega à conclusão que tem que tomar determinada atitude. Em seguida, ela vai começar a sentir crescer dentro de si essa necessidade (por sua vez, a elaboração também surgiu de um sentir) até chegar a um ponto em que deveria entrar a ação. Se a ação for postergada demais, todo o projeto murcha, como um balão que espera por subir ao céu mas é bicado pela ave negra da indecisão. 

Quando se sabe que se está adiando demais? Quando se percebe que a força está cedendo lugar à covardia. Quando dúvidas tomam a dianteira, quando a pessoa se torna "perfeccionista" demais, detalhista demais, quando enfim, ela se enrola e faz de conta que está sendo "responsável", e "cuidadosa" então a verdade derradeira é que ela está perdendo o vigor daquela vontade original que a levou a pensar em agir, a querer agir. Falta-lhe caráter para assumir os passos que sua evolução interior lhe requer. Falta coragem de viver.

12 comentários:

  1. Menina, menina, menina! Maravilhoso!!!!

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  2. Muito, muito bom. Vai me ajudar a desenvolver uma consulta com um paciente. Obrigada!!!!
    Leila

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  3. E como se faz para sair da inércia?
    Para mudar de atitude?
    Para adquirir o carater que falta para assumir os passos que a evolução interior requer?

    Seria ótimo saber mais sobre isso.

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  4. Obrigada Jacqueline! :-)
    Bom trabalho, Leila.
    Como se faz para sair da inércia, Ana? Começando uma boa terapia! Esse texto é genérico, mas no SEU caso o que está acontecendo que leva à inércia? Só conhecendo-a, só entrando nos detalhes. Pessoas humanas são únicas, é preciso olhá-las de perto e analisar o que está acontecendo para poder saber exatamente o que fazer. Sem o "exatamente" e o engajamento pessoal não há mudanças.

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  5. No meu caso, nao sou indecisa pelo medo de me deparar com o novo, com o que eu desconheco, pelo contrario, busco caminhos que me levam e encontro a experiencias novas, ( e como se minhas escolhfas fossem baseadas nisso) a sair da ''rotina'' a todo momento. tenho vivido em funcao disso, e sinto que, quando nao consigo, me sinto extremamente frustrada.

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  6. Tanto que já tenho tentado e até conseguido, mas ainda falta, não descobri qual meu problema,que nao consigo alavancar, o que preciso fazer, me sinto às vezes querendo vacilar, os pensamentos negativos ganharem, e eu me entregar ao cansaço e parar de procurar a solução! Quando parece que td está dando certo, acontece algo, tento ser flexível, mas às vezes acabo caindo na inércia.

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  7. Leidimara, continue se buscando entender o que acontece com vc. Busque ajuda. Não desista.

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  8. Prezada Adriana Tanese, gostei de sua mateia a respeito da inercia mental que muitas pessoas se queixão, passo por esse problema já faz muitos anos, começou na infância, já tenho quarenta e seis anos e continua;
    Essa indecisão tomar conta de mim, que devo fazer, pois está prejudicando várias áreas da minha vida, principalmente a de relacionamento e financeiro.

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    1. Prezado, há uma única solução para todos nossos problemas: terapia. Por que? Porque para resolver seu problema, qualquer que seja, você precisa ENTENDER o que está acontecendo e isso significa AUTO-CONHECIMENTO. E onde pode conseguir o auto-conhecimento? Só em terapia. Não num livro porque é escrito para milhões de pessoas, nào pra você, mas no trabalho individual com outra pessoa que possa guiá-lo através do processo de autoconhecimento.

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