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Divã (2009): a inutilidade global

Adriana Tanese Nogueira


Uma mulher vai ao analista, diz ela que não tem problemas mas começa a contar sua história. Obviamente, toda vida carrega dores e amores, rotinas e perguntas, problemas e alegrias. Nada de particularmente dramático está na vida de Mercedes, a protagonista, a não ser aquilo que todos nós procuramos: um sentido. Um razão das coisas serem como são, da gente sentir o que sente ou não sentir o que acha que deveria sentir. Sentido para aquilo que não tem nome e para aquilo que se desconhece mas que pulsa dentro, incomoda, empurra. Mercedes busca entender-se e entender sua vida. Mas esse assunto não é jamais tratado. Mercedes fala sozinha para um analista impessoal.

No filme, a análise não passa de um pretexto para contar uma história previsível e banal, cheia de frases prontas que chegam ao espectador até com rima, ditas por personagens e situações estereotipados. Um casamento em crise, uma mulher reconhecendo os sinais da crise e passando por ela, a traição, a separação, a busca de um namorado em boates, a morte da amiga e o final "feliz" no qual se encontra a "verdade"
da vida, ou seja que não há verdades, nem programas nem planos, é viver o momento... Será? Não será talvez esse o motivo que leva às pessoas à análise? Quando vivem a vida sem saber para onde estão indo?

Se viver o momento é uma qualidade que se alcança ao superar a obsessão pelo controle - característica esta que a protagonista desse filme não apresenta nem mesmo quando descobre que o marido a trai -, se é importante saber-se entregar ao presente, nem esse conceito o filme consegue alcançar porque a "mudança" da protagonista não é verossímil e não tem fundamento na própria história. Não há elementos que monstrem verdadeira transformação da vida, tudo é postiço e previsível. O filme, que trai um contexto cinematográfico de novela da Globo, reduz-se à superfície estética, sem consistência. Ele é para ser degustado somente no paladar, porque não dá para engolir.
Esclarecendo alguns conceitos errôneos que o filme apresenta, analistas não ficam mudos, se ficarem podem se levantar e ir embora. Psicanalistas, psicoterapeutas e psicólogos são seres humanos, exatamente como qualquer outro: têm personalidade, preferências, gênero, gostos, etc. Analistas não são sacerdotes misteriosos que se comunicam com um olhar, que ritualizam gestos e poses, que permanecem alheios ao analisando. Se alguém gostar desse jeito, vá em frente, mas esse não passa de um teatro. Jung não fazia isso. Freud não se comportava assim.

A obrigação ética do analista é a de não manipular a vida do outro e não assumir a vida do outro. Entretanto, não é possível evitar de ser seres humanos com tudo o que isso significa. Não tem como o psicoterapeuta esconder-se por trás de uma máscara porque é máscara então a que ele vai ensinar a quem o procura. E de máscaras já está cheio o mundo.

Psicoterapia é relação. De relação adoecemos e pela relação nos curamos. Grande parte de nós é fruto de relações. A forma como fomos tratados e vistos desde recém-nascidos molda nossa personalidade. Nossos males são resultado de relações mal vividas, pobres, mancas, vazias. Relações essas que se perpetuam dentro de nós, na forma como nos tratamos e consideramos. Psicoterapia é moficar um padrão de relação. Ex.: uma garota responde assim à minha pergunta se sonhou: "Ah, sonhei, mas nada a ver..."  Peço que me conte os sonhos e com detalhes. Surge um material onírico importantíssimo. Mostro a ela do que se trata. Ela se sente feliz apesar de ainda não entender direito. Feliz por que? Pergunto. Porque está começando a fazer sentido...  O "nada a ver" é como a interioridade é geralmente considerada pela mentalidade comum, uma bobagem sem muita importância, até que ela bombardeia.

Psicoterapia não é monólogo. Pagar para recitar monólogos na frente de outra pessoa é opção individual, mas cabe-me dizer que isso não é psicoterapia. Monólogos já todo mundo faz, na própria cabeça. Todos conhecem aquele falatório interno que chama-se de "pensar", que muitas vezes é repetir esterilmente a mesma coisa mil e uma vez sem sair do lugar. Monólogos não são interessantes. O motor do movimento é o dialogo, a conversa com o outro. Ao aprender uma nova forma de relação com o outro fora de nós, o psicoterapeuta, aprende-se uma nova forma de relação com o que tem dentro de nós.


Lamentável que ao querer ser charmoso e light o filme, afunda na água parada e morna do banal. Direito de quem faz e direito de quem assiste ter produtos como esse no mercado, mas por favor não vamos incluir conceitos que não se dominam. Análise é coisa boa demais para ser usada no circo do consumismo global.

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