Adriana Tanese Nogueira
Tem momentos em que morrer é bom. É uma idéia antiga aquela que expressa a verdade que o grão na terra precisa morrer para que o broto apareça. Entretanto, morrer pode não ser nada fácil. Os sonhos mostram a dificuldade dessa passagem contando do medo, da dor, do choque e às vezes do alivio que a morte traz.
A principal razão do medo da morte nos sonhos está na falta de preparo da consciência para superar-se e dar o salto num plano superior. Essa simples frase que parece tão fácil de entender, pode ser muito sofrida na prática porque na vida real da psique, ou seja na nossa própria vida vivida na carne e no sangue, não temos garantias do que vai ser. Um processo de morte que se preze, que não seja mera prestidigitação do ego, inclui sentir a angústia do fim, da despedida, da perda. O que morre leva consigo um pedaço de vida nossa, e estamos vinculados afetivamente a tudo, mesmo aos momentos dramáticos que
aparentemente gostaríamos de esquecer. Não é fácil morrer, nem morrer à vida ruim, porque acabamos por nos identificar com aquele pedaço de vida ou modo de ser. Não conhecemos outro. Abandoná-lo sem mais nem menos seria como andar pelados pelas ruas, aliás, pior do que isso, pois faltariam referências, coordenadas e sentido.
É comum, no processo analítico sonhar com a morte de alguém. Quanto mais próxima for a pessoa que morre mais o fim de algo é sentido profundamente, até o nível em que o próprio sonhador morre. O pânico que esses sonhos podem suscitar revela um conflito agudo interno, um susto e pavor de algo que está acontecendo e que não se compreende plenamente. Se o se compreendesse, a consciência estaria em outro patamar e a percepção da morte daria-se de forma menos dramática.
Por outro lado, sonhos de morte podem revelar uma dor não sentida pela consciência, como é o caso do sonho de B. Ela sonha que um tio morreu, e chora desesperada. Na realidade, esse tio efetivamente morreu e ela não se sentiu particularmente tocada, "não conseguiu chorar". Estaria o sonho querendo dizer que ela suprimiu aquela emoção e ela apareceu no sonho? Poderia ser, os sonhos podem mostrar o que a consciência oculta (essa é a função compensatória dos sonhos. Vide Jung). Porém um sonho nunca é verdadeiramente compreendido sem indagar seus personagens e o momento de vida de quem sonha. No caso, o tio que morre era uma pessoa carrancuda e na dele que usava drogas.
Por que a sonhadora que não chorou na realidade e chora no sonho? Porque ela está num galopante processo de transformação em que de garota esperta mas confusa está passando a mulher que toma as rédea da vida em suas mãos Está acabando o tempo de se arrastar pela vida, que é típico de quem está insatisfeito porque não encontrou seu verdadeiro caminho. Na realidade a sonhadora está muito contente com seu momento. Então porque chora no sonho? Vemos aqui posta de ponta cabeça a intepretação anterior, que agora aparece claramente como simplória e desviante. Ela chora o tempo que se acabou e que, apesar de seu malestar, gerou apego, hábitos, conveniências e zonas de conforto. O choro do sonho, libera a voz interna, agora na minoria, que foi "empurrando a vida com a barriga", não tanto por estupidez, quanto por falta de opção. Por isso é o tio drogado. Drogas são uma forma de aguentar a vida: uma pessoa com alegria de viver (no sentido de A. Lowen, alguém vivo por dentro e agente ativo no mundo) não usa drogas. A droga é o sintoma da infelicidade do viver (daí a expressão carrancuda do tio).
Logo em seguida, B. sonha que seu irmão caçula morre. Ela vê a mãe chorando e no geral todos da família, menos ela que tenta acalmá-los dizendo que era esperado que ele morresse. Na realidade, B. ficaria desesperada se algo assim acontecesse de verdade, pois ela tem um vínculo maternal e de identificação com o irmãozinho. Após a revolta estéril à vida sofrida morrer (o tio), acaba também a menina sofrida que sonhava que fugia a tirotéios e enchentes quando pequena. Essa morte era esperada, porque quem continua a caminhada de individuação acaba por superar identidades do passado. Concluindo: hoje B. não é mais nem uma vítima nem uma viciada em drogas (desde racionalizações e sabotagens a drogas pesadas) para ir levando a vida (PS.: B. não fez e não faz uso de drogas.)
O perfil de B. é diferente daquele de S. que se encontra no, às vezes silencioso e disfarçado mas selvagem conflito para afirmar o próprio ser contra um sistema anulador da individualidade. Esse sistema original para todos é sempre a família. É nela que aprendemos o que podemos ser e o que não temos permissão de ser. São os pais que dão consciente ou inconscientemente a benção para o que somos. No caso da família de S. não há alvará para quem foge da mentalidade de família. Novamente, não porque alguém seja particularmente mau aqui, mas por "física psicológica": não se pode abraçar o mundo quando não se possuem braços.
S. também está abrindo caminho em sua vida, avançando no trabalho e fortalecendo sua consciência, e estruturando-se para os maiores passos que dará um dia. Em seguida, à primeira conquista no âmbito de trabaho, ela sonha que alguém invadia seu quarto à noite e reivindicava que ela fizesse alguma coisa a respeito da pessoa que morreu por sua causa. Há uma caixa, nela a sonhadora vê horrorrizada um corpo mutilado, faltam-lhe pernas e cabeça. A intensidade emocional desse sonho reflete a violência psicológica que ela deve exercer e sofrer para avançar, como um bandeirante da alma rasgando o mato dos "nãos" e das "obrigações", dos preconceitos e dos medos que atravancam o progresso da individuação. Quem morreu é alguém sem cabeça e sem pernas: alguém que não pensava e não andava. Que o Senhor seja louvado! Essa é uma morte mais do que desejável. O problema da sonhadora não é a dor da perda, mas a cobrança do coletivo introjetado que a pregam a um lugar de auto-mutilação. Cobrança essa que pode estar vinculada ao sentimento de culpa: a culpa que todo diferente sente. O sonho, nesse caso, quer também alertar a sonhadora a observar-se mais de perto para que não seja tomada de surpresa pela culpa, acabando por se auto-sabotar.
A morte nos sonhos é boa somente quando acontece no tempo certo, como a natureza ensina: tudo nasce e morre na sua hora. Morrer prematuramente é perigoso do ponto de vista psicológico e está expresso no pânico que o ego (o sonhador) sente. Pode acontecer da consciência estar muito mais atrasada do que o inconsciente. Seria como ter um filho Machado de Assis com pais semi-analfabetas. O conflito é inevitável e o susto dos pais frente a esse filho esquisito levá-los-ia a tentar "acalmá-lo" (isto é a reprimi-lo), com consequências desastrosas para o menino... e para a literatura nacional. Ao acontecer na psique individual, esse conflito gera sofrimento e desbandamento. Poderia compará-lo a um parto com contrações regulares e intensas mas sem dilatação que acaba por pôr em risco a vida de ambos: mãe e filho.
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