15/11/2011

QUANDO O PASSADO É PASSADO?


Adriana Tanese Nogueira

Das pessoas que não "superaram" o passado se diz que não sabem perdoar, ou que estão presas, que não são capazes de compreender e ir adiante. São olhadas com superioridade por quem “deixou pra lá”, “se esqueceu" e aparentemente não se identifica mais com o que aconteceu. Pessoas que trazem à tona eventos passados geralmente recebem olhares de reprovação e cansaço. Parecem ter problemas que as outras, mais “positivas” não têm mais.


Este quadro é porém simplista. Simplista é quem quer simplificar algo mais complexo, é racionalizar com “verdades” rapidinhas e superificias, de fácil digestão mas com valor nutritivo zero. E de fato não explicar absolutamente nada. Quem quiser entender deve olhar bem de perto a realidade para evitar julgamentos apressados, opiniões maqueadas.
Todo evento gera consequências. Algumas delas prejudicam vidas alheias por anos a fio, criam situações que por sua vez dão vida a novas situações, obrigam a escolhas e a caminhos que podem inclusive afetar outras pessoas que nada tem a ver originariamente com o fato. É o efeito dominó. O que se chama de "passado" é, frequentemente a pedra lançada no lago de nossa psique, de nossa vida, da sociedade na qual vivemos. O presente se encontra no círculo maior de ondas provocado por aquela primeira pedrinha. Como sustentar então que o passado ficou para trás quando suas consequências movimentam, direcionam e perturbam nossa vida até hoje? 

Quando o passado está imbuído e ativo no presente ele não é passado, é atualidade, verdade do instante. Compreender isso permite aquele entendimento das coisas que abre o caminho para a mudança. Ter conhecimento do desenvolvimento dos fatos, do por que chegamos aqui e somos o que somos leva à verdadeira compreensão do presente. Não existe presente sem passado. É entendendo o desencadeamento dos eventos, reações, escolhas e etc. que adquirimos instrumentos para transformar o presente. Caso contrário, como a história demonstra estaremos condenados a repetir o passado.

E não é isso mesmo que acontece? Quantos pais repetem com os filhos os abusos ou a desatenção sofridas na própria infância? Eles podem melhorar em alguns aspectos, como por exemplo dar aos filhos a estabilidade econômica e a possibilidade de estudar que eles não tiveram. Por outro lado, podem continuar massacrando a auto-estima dos mesmos assim como foi feito com a deles, e isso, não por maldade, mas simplesmente porque não trabalharam essa questão em si mesmos, nào a superaram. O ponto mais dolorido foi omitido e por este motivo seu poder de ação amplificou-se poderosamente.

Não tem como voltar atrás e desfazer o que foi feito, mas para o passado se tornar de fato passado e poder ser finalmente enterrado, deve-se fazer a ele justiça. Justiça aqui significa reconhecer erros e tentativas, limites e razões. Fazer justiça significa trazer à tona a verdade, de fatos e sentimentos. Quem erro precisa reconhecer o erro. Quem sofreu precisa expressar seu sofrimento e ser ouvido. É muito comum que a pessoa que tem ressentimento não expressou sua mágoa ou não completamente, e aí essa mágoa fica guardada, envenenando a alma. Ela não a manifestou porque teve que sorrir amarelo diante de uma situação de injustiça descarada ou porque não está consciente do que sente, ou porque ninguém quer ouvi-la para não ter que encarar as próprias responsabilidades. Errar é humano. Muitas pessoas ressentidas e magoadas sentiriam-se aliviadas e prontas para o perdão se somente seus sentimentos fossem levados em consideração e respeitados.

Há passados que se repercutem tão fortemente no presente que na verdade o matam ou prejudicaram as possibilidades de beleza, amor, harmonia, paz, desenvolvimento, comunhão do presente. Inibiram ou até impediram as possibilidades que o presente tem a oferecer, assassinando as aberturas atuais e latentes que porém não conseguem ser aproveitadas porque o passado interfere, está alí, não somente na psicologia da pessoa mas na realidade que esse passado criou. Isso vale para para muitas situações que permanecem travadas anos a fio porque não foram destrinchadas e limpadas dos resquicios do lixo antigo.

O passado que permanece incomodando a vida atual é aquele passado que não foi digerido e continua sendo arrotado como uma feijoada estragada comida no dia anterior. É verdade que para enterrar o passado uma pessoa deve fazer as contas consigo mesma, tem de se analisar, compreender, acolher, falar primeiramente as verdades para si mesma. Isso é psicoterapia. Mas não basta. Vivemos em comunidade e somos seres sociais. Nossa vida acontece no meio dos outros e é com os outros que precisamos também fazer as contas. Não existe psicologia que se resolva toda dentro da cabeça isolada de um indivíduo.

Se existem situações que só podem ser resolvidas na subjetividade, há outras necessitam de uma reunião coletiva onde todas as cartas são postas sobre a mesa. Transparência, honestidade. Isso é amor. Quanto mais trabalho interior tiver sido realizado antes dessa suposta "reunião" mais fácil ela será, e portanto não necessariamente tão dolorosa. O resultado dependerá em igual medida de todos e cada um dos membros. Somente assim, o passado pode de fato ser levado embora pelas águas novas do presente.

9 comentários:

  1. Que post maravilhoso!Esclareceu muitas coisas para mim!
    Sou uma pessoa muito ressentida com o passado, com os erros que cometi, que cometeram comigo...E vc tocou num ponto muito verdadeiro: O que falta pra mim é perceber que a pessoa que me feriu tomou conhecimento disso, se arrependeu, considerou meus sentimentos. Eu era muito magoada com a minha mãe por atitudes que ela tomou comigo ao longo da vida , sempre me ressenti com isso, nunca conseguia "deixar pra lá" pelo simples fato de notar que ela não ligava para os meus sentimentos, não demonstrar respeito. mas o dia em que ouvi ela me pedindo desculpas, dizendo que só tentava acertar, que faria tudo diferente, chorei tanto que foi como de jogasse fora anos e anos de mágoas e tralhas!Hj ainda sei que ela erra, mas já consigo perdoar.
    Beijo grande,
    Dayane.

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  2. Lindod, Dayane. É assim mesmo. Somos pessoas muito mais boas do que imaginamos. Quando estamos magoados precisamos ser reconhecidos, e quando erramos precisamos aceitar nossos erros sem nos condenar. Muias vezes somos tão duros conosco que não somos capazes de conversar sobre o assunto porque não NOS perdoamos! Nisso complicamos a vida de todo mundo. Podemos sobreviver às feridas, mas precisamos partilhar nossos sentimentos e recebemos respeito por isso.

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  3. Gostei muito do texto Adriana. E quanto a história da Dayane fico feliz porque ela tem uma mãe que em algum momento foi capaz de se despir diante dela e reconhecer seus erros, pedir descupalas ...isso é muito importantes. Perdoar e pedir perdão é uma grande dificuldade que nem todos conseguem superar.
    Abraço e obrigada por mais um texto muito bom.
    Leila

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  4. Olá Adriana...
    Estou em débito contigo!
    Leio com frequência seus posts, compartilho com outras pessoas e sou capaz de lembrar nominalmente vários por nome.
    Conciliar informação técnica (no teu caso profissional), fluidez de escrita e clareza na exposição são méritos a ser destacados. E qdo tudo isso é exposto de forma assertiva fica ainda melhor!
    Por isso, deixo aqui registrado meu elogio.
    As palavras e a forma como nominam o mundo e explicam existências são poderosas e por isso, tão importantes.
    Que vc encontre sempre interlocutores atentos!
    Abraços e sucesso!
    Eliana

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  5. Obrigada, Eliana! Bom ouvir isso :-)
    Grande abraço!
    Adriana

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  6. Você tem o dom da palavra, seu artigo está perfeito, eu por falar de mais é que meu passado só serve de exemplo para não ser repetido e de lembrete ao outro do por que eu o estou largando. Mas ainda quero fazer análise com vc rsrs.

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  7. Muito bom,isso me fez ver que tudo o que eu passei tenho que analisar tudo o que aconteceu,reconhecer o que eu fiz,reconhecer tudo o que houve.
    Muito obrigada!

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