Guilherme Alves Coelho
Odiário – Portugal
07.Jan.2012
São
muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia
burguesa se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais
importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades,
mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de
gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos.
Um
comentário amargo, e frequente após os períodos eleitorais, é o de que
“cada povo tem o governo que merece”. Trata-se de uma crítica errónea,
que pode levar ao conformismo e à inércia e castiga os menos culpados.
Não existem maus povos. Existem povos iletrados, mal informados,
enganados, manipulados, iludidos por máquinas de propaganda que os
atemorizam e lhes condicionam o pensamento. Todos os povos merecem
sempre governos melhores.
A
mentira e a manipulação são hoje armas de opressão e destruição maciça,
tão eficazes e importantes como as armas de guerra tradicionais. Em
muitas ocasiões são complementares destas. Tanto servem para ganhar
eleições como para invadir e destruir países insubmissos.
São
muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia
capitalista se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais
importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades,
mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de
gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos. Foram
criadas para apresentar o capitalismo de forma credível perante as
massas e obter o seu apoio ou passividade. Os seus veículos mais
importantes são a informação mediática, a educação escolar, as tradições
familiares, a doutrina das igrejas, etc. (*)
Apresentam-se neste texto, sucintamente, alguns dos mitos mais comuns da mitologia capitalista.
• NO CAPITALISMO QUALQUER PESSOA PODE ENRIQUECER À CUSTA DO SEU TRABALHO.
Pretende-se fazer crer que o regime capitalista conduz automaticamente qualquer pessoa a ser rica desde que se esforce muito.
O
objectivo oculto é obter o apoio acrítico dos trabalhadores no sistema e
a sua submissão, na esperança ilusória e culpabilizante em caso de
fracasso, de um dia virem a ser também, patrões de sucesso.
Na
verdade, a probabilidade de sucesso no sistema capitalista para o
cidadão comum é igual à de lhe sair a lotaria. O “sucesso capitalista”
é, com raras excepções, fruto da manipulação e falta de escrúpulos dos
que dispõem de mais poder e influência. As fortunas em geral derivam
directamente de formas fraudulentas de actuação.
Este
mito de que o sucesso é fruto de uma mistura de trabalho afincado,
alguma sorte, uma boa dose de fé e depende apenas da capacidade
empreendedora e competitiva de cada um, é um dos mitos que têm levado
mais gente a acreditar no sistema e a apoiá-lo. Mas também, após as
tentativas falhadas, a resignarem-se pelo aparente falhanço pessoal e a
esconderem a sua credulidade na indiferença. Trata-se dos tão apregoados
empreendedorismo e competitividade.
• O CAPITALISMO GERA RIQUEZA E BEM-ESTAR PARA TODOS
Pretende-se
fazer crer que a fórmula capitalista de acumulação de riqueza por uma
minoria dará lugar, mais tarde ou mais cedo, à redistribuição da mesma.
O
objectivo é permitir que os patrões acumulem indefinidamente sem serem
questionados sobre a forma como o fizeram, nomeadamente sobre a
exploração dos trabalhadores. Ao mesmo tempo mantêm nestes a esperança
de mais tarde serem recompensados pelo seu esforço e dedicação.
Na
verdade, já Marx tinha concluído nos seus estudos que o objectivo final
do capitalismo não é a distribuição da riqueza, mas a sua acumulação e
concentração. O agravamento das diferenças entre ricos e pobres nas
últimas décadas, nomeadamente após o neoliberalismo, provou isso
claramente.
Este
mito foi um dos mais difundidos durante a fase de “bem-estar social”
pós-guerra, para superar os estados socialistas. Com a queda do émulo
soviético, o capitalismo deixou também cair a máscara e perdeu
credibilidade.
• ESTAMOS TODOS NO MESMO BARCO.
Pretende-se
fazer crer que não há classes na sociedade, pelo que as
responsabilidades pelos fracassos e crises são igualmente atribuídas a
todos e, portanto pagas por todos.
O
objectivo é criar um complexo de culpa junto dos trabalhadores que
permita aos capitalistas arrecadar os lucros enquanto distribuem as
despesas por todo o povo.
Na
verdade, o pequeno número de multimilionários, porque detém o poder, é
sempre autobeneficiado em relação à imensa maioria do povo, quer em
impostos, quer em tráfico de influências, quer na especulação
financeira, quer em off-shores, quer na corrupção e nepotismo etc. Esse
núcleo, que constitui a classe dominante, pretende assim escamotear que é
o único e exclusivo responsável pela situação de penúria dos povos e
que deve pagar por isso.
Este é um dos mitos mais ideológicos do capitalismo ao negar a existência de classes.
• LIBERDADE É IGUAL A CAPITALISMO.
Pretende-se
fazer crer que a verdadeira liberdade só se atinge com o capitalismo,
através da chamada autorregulação proporcionada pelo mercado.
O
objectivo é tornar o capitalismo uma espécie de religião em que tudo se
organiza em seu redor e assim afastar os povos das grandes decisões
macro-económicas, indiscutíveis. A liberdade de negociar sem peias seria
o máximo da liberdade.
Na
verdade, sabe-se que as estratégias político-económicas, muitas delas
planeadas com grande antecipação, são quase sempre tomadas por um
pequeno número de pessoas poderosas, à revelia dos povos e dos poderes
instituídos, a quem ditam as suas orientações. Nessas reuniões, em
cimeiras restritas e mesmo secretas, são definidas as grandes decisões
financeiras e económicas conjunturais ou estratégicas de longo prazo.
Todas, ou quase todas essas resoluções, são fruto de negociações e
acordos mais ou menos secretos entre os maiores empresas e
multinacionais mundiais. O mercado é, pois, manipulado e não
autorregulado. A liberdade plena no capitalismo existe de facto, mas
apenas para os ricos e poderosos.
Este
mito tem sido utilizado pelos dirigentes capitalistas para justificar,
por exemplo, intervenções em outros países não submissos ao capitalismo,
argumentando não haver neles liberdade, porque há regras.
• CAPITALISMO IGUAL A DEMOCRACIA.
Pretende-se fazer crer que apenas no capitalismo há democracia.
O
objectivo deste mito, que é complementar do anterior, é impedir a
discussão de outros modelos de sociedade, afirmando não haver
alternativas a esse modelo e todos os outros serem ditaduras. Trata-se
mais uma vez da apropriação pelo capitalismo, falseando-lhes o sentido,
de conceitos caros aos povos, tais como liberdade e democracia.
Na
realidade, estando a sociedade dividida em classes, a classe mais rica,
embora seja ultraminoritária, domina sobre todas as outras. Trata-se da
negação da democracia que, por definição, é o governo do povo, logo da
maioria. Esta “democracia” não passa, pois de uma ditadura disfarçada.
As “reformas democráticas” não são mais que retrocessos, reacções ao
progresso. Daí deriva o termo reaccionário, o que anda para trás.
Tal como o anterior, este mito também serve de pretexto para criticar e atacar os regimes de países não-capitalistas.
• ELEIÇÕES IGUAL A DEMOCRACIA.
Pretende-se fazer crer que o acto eleitoral é o sinônimo da democracia e esta se esgota nele.
O
objectivo é denegrir ou diabolizar e impedir a discussão de outros
sistemas político-eleitorais em que os dirigentes são estabelecidos por
formas diversas das eleições burguesas, como por exemplo, pela idade,
experiência, aceitação popular etc.
Na
verdade, é no sistema capitalista, que tudo manipula e corrompe, que o
voto é condicionado e as eleições são actos meramente formais. O simples
facto da classe burguesa minoritária vencer sempre as eleições
demonstra o seu carácter não-representativo.
O mito de que, onde há eleições há democracia, é um dos mais enraizados, mesmo em algumas forças de esquerda.
• PARTIDOS ALTERNANTES IGUAL A ALTERNATIVOS.
Pretende-se fazer crer que os partidos burgueses que se alternam periodicamente no poder têm políticas alternativas.
O
objectivo deste mito é perpetuar o sistema dentro dos limites da classe
dominante, alimentando o mito de que a democracia está reduzida ao acto
eleitoral.
Na
verdade, este aparente sistema pluri ou bipartidário é um sistema
monopartidário. Duas ou mais facções da mesma organização política,
partilhando políticas capitalistas idênticas e complementares,
alternam-se no poder, simulando partidos independentes, com políticas
alternativas. O que é dado escolher aos povos não é o sistema que é
sempre o capitalismo, mas apenas os agentes partidários que estão de
turno como seus guardiões e continuadores.
O
mito de que os partidos burgueses têm políticas independentes da classe
dominante, chegando até a ser opostas, é um dos mais propagandeados e
importantes para manter o sistema a funcionar.
• O ELEITO REPRESENTA O POVO E POR ISSO PODE DECIDIR TUDO POR ELE.
Pretende-se fazer crer que o político, uma vez eleito, adquire plenos poderes e pode governar como quiser.
O objectivo deste mito é iludir o povo com promessas vãs e escamotear as verdadeiras medidas que serão levadas à prática.
Na
verdade, uma vez no poder, o eleito autoassume novos poderes. Não
cumpre o que prometeu e, o que é ainda mais grave, põe em prática
medidas não enunciadas antes, muitas vezes em sentido oposto e até
inconstitucionais. Frequentemente, são eleitos por minorias de votantes.
A meio dos mandatos já atingiram índices de popularidade mínimos.
Nestes casos de ausência ou perda progressiva de representatividade, o
sistema não contempla quaisquer formas constitucionais de destituição.
Esta perda de representatividade é uma das razões que impede as
“democracias” capitalistas de serem verdadeiras democracias, tornando-se
ditaduras disfarçadas.
A
prática sistemática deste processo de falsificação da democracia tornou
este mito um dos mais desacreditados, sendo uma das causas principais
da crescente abstenção eleitoral.
• NÃO HÁ ALTERNATIVAS À POLÍTICA CAPITALISTA.
Pretende-se
fazer crer que o capitalismo, embora não sendo perfeito, é o único
regime político-económico possível e, portanto, o mais adequado.
O
objectivo é impedir que outros sistemas sejam conhecidos e comparados,
usando todos os meios, incluindo a força, para afastar a competição.
Na
realidade, existem outros sistemas político-económicos, sendo o mais
conhecido o socialismo cientifico. Mesmo dentro do capitalismo, há
modalidades que vão desde o actual neoliberalismo aos reformistas do
“socialismo democrático” ou socialdemocrata.
Este
mito faz parte da tentativa de intimidação dos povos de impedir a
discussão de alternativas ao capitalismo, a que se convencionou chamar o
pensamento único.
• A AUSTERIDADE GERA RIQUEZA
Pretende-se
fazer crer que a culpa das crises económicas é originada pelo excesso
de regalias dos trabalhadores. Se estas forem retiradas, o Estado poupa e
o país enriquece.
O
objectivo é fundamentalmente transferir para o sector público, para o
povo em geral e para os trabalhadores, a responsabilidade do pagamento
das dividas dos capitalistas. Fazer o povo aceitar a pilhagem dos seus
bens na crença de que dias melhores virão mais tarde. Destina-se também a
facilitar a privatização dos bens públicos, “emagrecendo” o Estado,
logo “poupando”, sem referir que esses sectores eram os mais rentáveis
do Estado, cujos lucros futuros se perdem desta forma.
Na
verdade, constata-se que estas políticas conduzem, ano após ano, a um
empobrecimento das receitas do Estado e a uma diminuição das regalias,
direitos e do nível de vida dos povos, que antes estavam assegurados por
elas.
• MENOS ESTADO, MELHOR ESTADO.
Pretende-se fazer crer que o sector privado administra melhor o Estado que o sector público.
O
objectivo dos capitalistas é “dourar a pílula” para facilitar a
apropriação do património, das funções e dos bens rentáveis dos estados.
É complementar do anterior.
Na
verdade o que acontece em geral é o contrário: os serviços públicos
privatizados não só se tornam piores, como as tributações e as
prestações são agravadas. O balanço dos resultados dos serviços
prestados após passarem a privados é quase sempre pior que o anterior.
Na óptica capitalista, a prestação de serviços públicos não passa de
mera oportunidade de negócio. Este mito é um dos mais “ideológicos” do
capitalismo neoliberal. Nele está subjacente a filosofia de que quem
deve governar são os privados e o Estado apenas dá apoio.
• A ACTUAL CRISE É PASSAGEIRA E SERÁ RESOLVIDA PARA O BEM DOS POVOS.
Pretende-se
fazer crer que a actual crise económico-financeira é mais uma crise
cíclica habitual do capitalismo e não uma crise sistémica ou final.
O
objectivo dos capitalistas, com destaque para os financeiros, é
continuarem a pilhagem dos Estados e a exploração dos povos enquanto
puderem. Tem servido ainda para alguns políticos se manterem no poder,
alimentando a esperança junto dos povos de que melhores dias virão se
continuarem a votar neles.
Na
verdade, tal como previu Marx, do que se trata é da crise final do
sistema capitalista, com o crescente aumento da contradição entre o
carácter social da produção e o lucro privado até se tornar insolúvel.
Alguns,
entre os quais os “socialistas” e sociais-democratas, que afirmam poder
manter o capitalismo, embora de forma mitigada, afirmam que a crise
deriva apenas de erros dos políticos, da ganância dos banqueiros e
especuladores ou da falta de ideias dos dirigentes ou mecanismos que
ainda falta resolver. No entanto, aquilo a que assistimos é ao
agravamento permanente do nível de vida dos povos sem que esteja à vista
qualquer esperança de melhoria. Dentro do sistema capitalista já nada
mais há a esperar de bom.
NOTA FINAL:
O
capitalismo há de acabar, mas só por si tal decorrerá muito lentamente e
com imensos sacrifícios dos povos. Terá que ser empurrado. Devem ser
combatidas as ilusões, quer daqueles que julgam o capitalismo
reformável, quer daqueles que acham que quanto pior melhor, para o
capitalismo cair de podre. O capitalismo tudo fará para vender cara a
derrota. Por isso, quanto mais rápido os povos se libertarem desse
sistema injusto e cruel, mais sacrifícios inúteis se poderão evitar.
Hoje,
mais do que nunca, é necessário criar barreiras ao assalto final da
barbárie capitalista, e inverter a situação, quer apresentando
claramente outras soluções políticas, quer combatendo o obscurantismo
pelo esclarecimento, quer mobilizando e organizando os povos.
(*)
Os mitos criados pelas religiões cristãs têm muito peso no pensamento
único capitalista e são avidamente apropriados por ele para facilitar a
aceitação do sistema pelos mais crédulos.
Exemplos:
“A pobreza é uma situação passageira da vida terrena.” “Sempre houve
ricos e pobres.” “O rico será castigado no juízo final.” “Deve-se
aguentar o sofrimento sem revolta para mais tarde ser recompensado."
Adorei este texto, especialmente por estar em seu blog, um blog sobre psicologia, que antes fora tida como uma ciência e um método elitistas! Por mais que possa ter havido alguma razão para a crítica, hoje sabemos que a psicologia, a psicanálise, visam à liberação da mente e das emoções humanas, que muitas vezes sofrem de males produzidos pelo sistema capitalista. Muito bom!
ResponderExcluirObrigada pelo comentário, Juliana. Concordo com vc.
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