Adriana Tanese Nogueira
Os povos "primitivos" reconheciam no animal e nas plantas que comiam um poder. De fato, o alimento tem poder: minerais, proteínas, vitaminas, líquidos e fibras são poder. Secularizamos esses matérias mas quem já experimentou a mágica da "ressurreição" após comer algo quando se está famintos e parece que estamos perdendo todas as forças, vai entender porque a comida já teve historicamente numinoso (e tem ainda em certos países). Ela de fato tem, ingerimos vida para manter a vida.
Contudo, os nutrientes, que hoje chamamos de "químicos" ,não constituem o único poder que a comida traz. Apesar do desconcerto dos materialistas de mente estreita, é do ser humano a dimensão da profundidade, que acessamos pelo símbolo. Vivemos de símbolos: dinheiro é símbolo, corpo perfeito, namorado/a, cabelo, sapato, carro, etc., são símbolos e não somente o que parecem. A comida também é símbolo mas não é na simbologia moderna que quero entrar, onde comer se tornou um vício e um passatempo. Estou pensando na linha do poder, a comida como acquisição de poder. O poder da coragem da onça, o poder da força do urso, o poder da liberdade da ave. Animais podiam ser comidos honrando o valor que eles simbolicamente traziam para dentro do ser humano. Comer certos animais significava absorver seu poder, torná-lo nosso.
Dando um salto além, o canibalismo ritual também surgiu (em alguns casos) como uma forma de pegar para um povo o valor de um guerreiro. Não se comem os covardes, os preguiçosos e os vagabundos. Só se introjeta gente que se admira. No famoso parricídio elaborado por Freud como fundação da civilização, o que é comida não é a carne macia e temperada do velho chefe, mas o poder e a autoridade do patriarca, para que essa função passe então a seus descendentes e herdeiros.
Hoje não se come com os dentes mais ninguém, pelo menos aqui entre nós. Comemos galinhas e porcos e bois, verduras e frutas sem qualquer sentimento do numinoso, sem qualquer agradecimento. Jogamos fora o que sobra e cozinhamos demais, sem qualquer consideração pelo valor simbólico e até mesmo nutricional da comida. E passamos a comer gente em outro plano.
Há encontros entre duas pessoas que são "mágicos", porque carregados de algo especial, de um pózinho misterioso que funciona como um imã. Nos sentimos atraídos por aquela pessoa e a queremos para nós. Muitas vezes, não se sabe quem é aquela pessoa, o que faz, o que vale realmente, mas algo em nós foi despertado, como uma sede violenta que exige ser satisfeita. Precisamos "trazer para dentro", nos "apossar" do outro, ou melhor daquilo que o outro representa. E o que fazemos? Vamos pra cama com ele/a. Mergulhamos no sexo. É como alguém que está com carência de ferro e de repente lhe dá uma ganância enorme de comer feijão. Comerá feijão porque é o que conhece talvez, ou porque está na mesa. Mas poderia comer fígado no lugar, ou outro alimento que contenha o ingrediente que justifica o desejo. Assim, muita gente tem sexo com fulano ou siclana porque eles pintaram no momento e no lugar certo contendo o elemento que buscamos no nosso caminho do auto-equilíbrio (físico ou psíquico, que diferença faz?).
Se a sede perdurar, se por assim dizer a anemia for muito grande ou, então, numa situação mais produtiva, se o outro condensar em si não só um mais vários elementos que são importantes para nosso organismo (psicológico), então o sexo vira "amor" e sobrevive ao "ficar". Estaremos amarrados à relação até a carência do nutriente não for saciada, quando finalmente um dia os laços que nos amarram e não mais o nutrimento que recebemos. Saciados e reconfortados teremos agora que forçar a saída, ou morrer por intoxicação de ferro.
O único problema com esse sistema é que para obter o alimento (psicológico e simbólico) necessário podemos cair em tantas complicações e causar tantos transtornos que pode ser melhor comprar o pote de vitamina na farmácia do que se enfiar em confusões que podem durar anos para serem resolvidas. Há relações que prosperam com um pouco mais de troca consciente e menos sexo automático. Há encontros que promovem o desenvolvimento individual sem ter que passar pelas consequências pegajosas de relacionamentos que não têm raízes mas são o resultados de carências nutritivas agudas e circunstanciais.
Sempre desconfio de quem não sabe ficar sozinho/a, mas corre de namorado/a em namorado/a como aqueles cães subnutridos que revistam qualquer canto em busca de alimento. Pode ser o único jeito de sobrevivência para quem está muito faminto mas certamente não é a condição para criar relacionamentos não de canibalismo mas de troca criativa e desenvolvimento recíproco.
Ave Maria, Adriana! Fantástico!
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