29/02/2016

AMOR, SEXO E CANIBALISMO


Os povos chamados "primitivos" reconheciam no animal e nas plantas que comiam um poder. De fato, o alimento tem poder: possui minerais, proteínas, vitaminas, etc. Tudo isso é poder, o poder de nos manter em vida.

Hoje em dia não vemos mágica na comida, pelo menos nós que não passamos fome, mas quem já ficou de jejum tempo suficiente para sentir verdadeira fraqueza advinda da falta de alimento conhece aquela sensação física que é também emocional de "ressuscitar" após ingerir algo comestível. Essa experiência de “voltar à vida” é considerada sagrada porque é essencial para nossa sobrevivência. Tudo que permite a continuidade da vida é mitologicamente sagrado. Ao ingerir alimento, ingerimos vida. Mais vida = mais poder (poder de viver).

Contudo, não só de pão vive o Homem, certo? Pecisamos de outros nutrientes, além daqueles químicos que a comida traz. Nutrientes que não sendo materiais são simbólicos. Antigamente, comia-se um certo animal para obter sua força, sua astúcia, sua rapidez, etc. E o canibalismo ritual surgiu (entre alguns povos) da mesma maneira: como forma da comunidade ingerir o valor de um guerreiro. Não se comiam os covardes, se comiam os fortes e corajosos para ingerir sua força e coragem.

Agora, todo mundo já ouviu falar de quando duas pessoas se encontram e sentem que há algo "mágico" entre elas. Isso ocorre quando a pessoa A tem algo muito especial para a pessoa B, e vice-versa. Cada uma parece “mágica” aos olhos da outra. Sentimos uma forte atração, queremos aquela pessoa para nós. Podemos nem saber direito o porquê, mas a queremos. Queremos de alguma forma "ser um com ela”. E o que fazemos? Sexo.

Sem querer tirar o encanto, a situação é muito parecida àquela de alguém com anemia diante de um prato de feijão. Assim como nosso corpo se sente atraído pelo alimento do qual precisa, a alma também se sente atraída por aquilo que irá fazê-la evoluir - se o alimento/relação for bem abordada.

O anêmico comerá feijão porque é o que encontra na mesa, mas se houver fígado, comerá figado. O que for. O importante é resolver a carência interna. Não é assim também que tanta gente faz ao se relacionar com os outros?

Agora, na medida da profudidade da fome ou da complexidade da personalidade, a coisa complica. Seria como se, de um ponto de vista psicológico, mesmo se enchendo de feijão, a anemia continua. Não adianta variar de alimento (ou de pessoa), a carência não está resolvida. É assim que muita gente se sente mesmo com tantos relacionamento.

Isso porque a carência é múltipla. Saciada a primeira, aparecem as outras. Se a pessoa ficar na superfície, terá que variar seu menu constantemente ao mesmo tempo em que irá se sentir sempre mais carente (vazia). Se permanecer na relação é geralmente porque encontrou mais de um nutriente, e poderá até achar que o sexo virou “amor”. A atração inicial continua então até o momento em que, nutridos de tudo o que o outro pode dar, começamos a nos sentir “sufocados”. De fato, nos fartamos de ferro, agora estamos intoxicados!

Este jeito meio maluco de se relacionar está baseado na falta de consciência do que se faz, quando impulsionados por carências que mal compreendemos perambulamos pelo mundo na tentativa de preencher um vazio interior que não entendemos. Inevitavelmente, caimos numa série de complicações. A fim de evitar transtornos seria melhor parar e pensar, assumir a carência e ir à farmaçia comprar um pote de vitamina, ou em outras palavras: aprender a  cuidar de nós mesmos antes de nos jogar numa orgia alimentar ou melhor canibal.



Adriana Tanese Nogueira


Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente – Presencial, Skype, por telefone e por escrito. Boca Raton, FL +15613055321. www.adrianatanesenogueira.org.

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