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TER FÉ

Adriana Tanese Nogueira


Essa da fé é um questão complicadíssima. Fácil de falar, fácil de pregar mas dificil de viver na pele, de fato e no meio às dificuldades. A fé como atitude diante da vida está em gritante contraposição àquilo para o qual a sociedade moderna treina e obriga os indivíduos a ser: batalhadores.


Alcançar metas é esforçar-se, lutar. É vencer obstáculos, é ser perseverantes, determinados, indômitos até. Para se tornar uma pessoa de sucesso você precisa vencer a inércia, a indolência e a preguiça. É preciso aprender a confiar em si próprios e ser superiores às armadilhas que se encontram pelo caminho. O modelo imperante na modernidade é o do herói. Tem uma fé indispensável para ser um herói: a fé em si mesmo, no próprio taco e na "proteção dos deuses" (ou "sorte" em linguagem moderna).
Mas existe outra e mais difícil fé. É a fé de quando as coisas estão difíceis. É a fé no que não depende da gente. É aí que a vivência da fé é um desafio. Entre outras, surge a pergunta: quando é fé e quando é desistência? Quando parar é ser moles e fracos e quando parar é deixar outras forças agir e indicarem o caminho melhor?

A sutil distinção entre uma e outra situação será percebida pela intuição honesta e apurada (que é diferente da nossa vontade de que tudo seja como queremos) de cada um. Mas é importante ressaltar que há uma fé que brilha no escuro e que é dificílima de ser apreendida e encarnada sobretudo por aquelas pessoas que tiveram que batalhar muito na vida, que passaram por muitos problemas e sobreviveram a eles. Essas pessoas temem mais do que tudo "deixar cair" (a espada, a armadura, a determinação, o otimismo totalitário) e se abrir ao desconhecido.

Fé é abertura confiante, entrega amorosa ao desconhecido. Por isso o conceito de fé pertence ao universo religioso. Tudo o que não é controlável e cognoscível pelo ego é considerado fazendo parte do "além".

No ato da fé assumimos, tremendo de medo e de insegurança, que algo além de nós está presente e com este algo estabelecemos um dialogo. Como duas pernas que andam: uma sou eu, o meu ego, e a outra é o Outro. O nome para esse outro não importa qual seja, muito menos sua teologia (ou ideologia). O que interessa aqui é a vivência, e ela é importante porque em diversas situações na vida somente se consegue ir adiante – seja literamente, tendo o dinheiro para comprar comida e pagar o aluguel seja sair de uma doença – porque abrimos espaço para alguma outra coisa agir, direcionar, sugerir. Afiemos os ouvidos antes de brandir a arma e achar que se sabe tudo.

É como caminhar de olhos embaçados e com o sentimento de entrega. Não sempre enxrgamos com clareza ou sabemos para onde estamos indo. Entretanto, há de ir e para isso acontecer há de haver abertura, a qual está sempre relacionada a alguma forma de amor. Amor por nós, pela vida, amor pelo sonho. E com a fé vem a humildade de aceitar sugestões “externas” (incluindo aqui a voz interior). Externas ao ego. Egos poderosos e na defensiva são muitas vezes, por dentro, almas virgens e assustadas, encolhidas em si. Temem qualquer contato íntimo porque aquela casca grossa poderia cair de repente revelando a carne delicada que está por baixo. Egos de peito inflado estão fechados ao novo. 

A fé religiosa não corresponde necessariamente à fé descrita acima. Na fé religiosa "controlamos" o outro dando-lhe um nome, acreditamos saber suas vontades e planos para nós. O Deus religioso é um Deus racionalizado. Ao contrário, a fé do se abrir ao desconhecido é um tremor interior que somente quem tem capacidade de se conectar com a própria interioridade, sem passar pela razão moderna e/ou religiosa, consegue acessar. Essa fé leva a transformações que não têm dogmas nem credos. É pura vida, ao vivo e em cores. Live.

Comentários

  1. Adriana parabéns pelo novo visual e pelo texto, como sempre primoroso, e quero saber como marcar um horário com você, não sei se vc lembra de mim mas eu nunca vou esquecer de vc, pois seu blog foi muito importante para chegar onde estou e onde estarei. se sumir é porque estou no meio de uma mudança mas eu vou aparecer. Obrigada, sempre grande abraço.

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  2. Meyre, obrigada pelos depoimentos. Me escreva quando quiser: adrianatnogueira@uol.com.br
    Abraços!

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  3. Perfeito! É exatamente por isso que digo que detesto que me chamem de corajosa por ter tido filho em casa. Não se trata de 'coragem', se trata de FÉ!

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