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CONSCIÊNCIA DISCRIMINADORA: O QUE É

Adriana Tanese Nogueira

Discriminar é uma idéia discriminada. Ela sofre preconceito porque lembra o ato de separar, distinguir, afastar uma coisa da outra, classificar e criar uma hierarquia de valores, eventualmente tratar algo de maneira preferencial. E é isso mesmo que discriminar significa, mas quando aplicado às relações sociais este conceito ganha um gosto amargo, que por pudor ou convicção se rejeita.

Infelizmente, pelo fato das pessoas adotarem determinadas idéias e comportamentos, ao discriminar um conceito do outro, um valor do outro acabam por discriminar as pessoas que encorporam tais ideias e comportamentos. Entretanto, é importante lembrar que o foco não é o indivíduo mas seu comportamento e, apesar dos dois muitas vezes tristemente se identificarem, uma pessoa é sempre maior de seu comportamento e ideias. Cabe a ela demonstrá-lo e cabe a nós lhes darmos crédito e uma chance da mudança.

O ato da discriminação, quando não é utilizado pelo pensamento preconceituoso, é a principal atividade da consciência. Afinal, o que é consciência se não a capacidade de discernimento? A habilidade de separar o joio do trigo em meio a um marasmo de sementes? E é uma classificação e hierarquização sim, porque o joio não serve, o trigo sim, um pode ser colocado de lado, o outro tem a primazia, é valioso. Para discriminar é preciso da coragem moral de fazer e assumir uma escolha.

O processo de discriminação consciente é parte integral do processo de individuação. Neste uma pessoa vai se distinguindo da massa uniforme (apesar de diferente em detalhes multicoloridos que não mudam a essência) do pensamento coletivo e dos impulsos inconscientes que impedem o emergir da unicidade de cada indivíduo. No pensamento massificado e não discriminado, o eu, em seu trabalho de consciência, abre caminho no matagal das ideias confusas, dos conhecimentos atrofiados e esclerosados, prontos para consumo irrefletido como papinhas homogeneizadas são servidos a todo novo membro da humanidade por mães apressadas. E como os alimentos industrializados contêm inúmeros ingredientes pouco confiáveis e até tóxicos, assim o pensamento já emabalado e pronto para o uso engloba material que precisa ser revisto (se não jogado fora).

O símbolo por excelência da consciência discriminadora é a espada – que aparece nos sonhos. Uma espada para funcionar bem precisa ser afiadíssima, capaz de cortar pela metade um fio de grama. Essa imagem representa a capacidade do pensamento em saber reconhecer diferenças mínimas mas fundamentais entre teorias, atitudes, conversas, comportamentos, ideias, justificativas, explicações... enrolações. Significa saber divisar com precisão, para além do que parece consenso e óbvio, o minúsculo vírus que corrompe todo o programa. A consciência discriminadora deve ser dialética porque somente pela dialética pode-se administrar elementos contraditórios ao mesmo tempo, sem entrar em crise ou criar raciocínios insensatos. A dialética permite a agilidade do pensamento, o que abre a consciência para um horizonte no qual branco e preto convivem, e o sim e o não fazem parte do mesmo cenário, assim como é na vida. Entretanto, a consciência discriminadora garante que não terminemos nunca em pizza.

O uso da espada exige outra condição: a força do braço, representando a determinação e a coragem de dar o corte, de separar e classificar. Reconhecer traços condenáveis, assim como pensamentos falhos (que dão vida à comportamentos falhos) é doloroso para a consciência comum (ou alienada). As convicções são como cantigas de ninar. É gostoso ter certeza, é desagradável usar o microscópio para analisar os componentes do lanchinho que tanto se gosta. E quando vier a dor de barriga, vai ser desagradável discernir sua origem, melhor deixar a coisa vaga e esperar que “passe”.


Para ter consciência discriminadora é preciso ter força moral, que é aquela capacidade de estar de pé sozinho sem necessitar do suporte do coletivo (namorado, família, amigos, igreja, grupo, etc.). Um caminho para o desenvolvimento da consciência discriminadora é o estudo da filosofia e, sobretudo, o aprendizado do ato de filosofar em si (que é diferente do repetir o que os outros disseram). Acredito que somente a filosofia permita discriminação do pensamento num grau de pureza que nenhum outro ramo do conhecimento humano permite. Ao adquirir os instrumentos que a filosofia oferece é possível destrinchar o mundo externo. O outro caminho, é o auto-conhecimento apurado (ou seja, não aproximado, “mais-ou-menos”, e sem receitas psicológicas prontas) que permite a discriminação interna. De nada vale ter uma super cabeça para entender o que está fora, quando o próprio sentimento é escandalosamente manipulado pelos outros. A consciência discriminadora é a chave para a mudar a si, à própria vida e ao mundo.

Comentários

  1. " Um caminho para o desenvolvimento da consciência discriminadora é o estudo da filosofia e, sobretudo, o aprendizado do ato de filosofar em si (que é diferente do repetir o que os outros disseram). Acredito que somente a filosofia permite discriminação do pensamento num grau de pureza que nenhum outro ramo do conhecimento humano permite." Este texto me fez pensar/lembar da quetão do ensino religioso nas escolas. Ensino que sou PROFUNDAMENTE CONTRÁRIO, pois a meu ver vai somente limitar a capacidade de pensar das crianças. Quando leio alguma nota de jornal a respeito sempre penso porque não ensinam FILOSOFIA? Mas isto pode ser perigoso na medida em que as crianças já desde pequenas desenvolvam uma capacidade "discrimindora".

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  2. Concordo, pai. Pensamento crítico é um problema para as religiões constituídas uma vez que estas se fundamental em dogmas inquestionáveis.

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  3. Adriana, meus pais me sabotam. Sempre tive problemas com a balança, mas passei um periodo de minha vida com o peso ideal. Sou bonita e tenho um corpo bonito quando estou com o peso normal. Meu pai me elogiava quando estava magra e acho que minha mãe sentia ciumes disso. Então, tem 3 anos que estou muito acima do peso e tentando voltar ao peso anterior, mas sempre que vou a casa de meus pais eles me oferecem chocolates e coisas que engordam, o que vejo como sabotagem do meu objetivo de ficar bonita novamente. Acredito que há mais coisas "por baixo dos panos", pois penso que meu pai me sabota para que eu não fique atraente para ele (como mulher) e que minha mae me sabota por ciumes da situação (pois eu sendo jovem e bonita atrairia a atenção do marido dela, que é meu pai). Além disso, acho que minha dificuldade de emagrecer hoje acontece justamente por não querer ocupar esse lugar de "desejo" de meu pai e irmão (pois pode parecer doentio, mas já senti os dois me desejando).

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    1. Interessante sua análise da situação. Se assim for, precisa urgente de aliados: uma boa terapeuta (melhor se mulher). Vc precisa sair desse círculo vicioso. Entendê-lo não é suficiente para sair dele, como vc deve estar percebendo. Tem que analisar num plano mais profundo e sutil para se libertar dele. Se quiser, me escreva em pvt: adrianatnogueira@uol.com.br

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