20/02/2012

Sabina Spielrein e o filme "Um método perigoso" (2011)

Adriana Tanese Nogueira

O excelente livro de John Kerr podia ter sido melhor aproveitado. É verdade que não dá para condensar mais de 500 páginas com escrita fina num filme de 99 minutos. Porém, um fio condutor mais consistente poderia ter sido encontrado. Sobretudo, os personagens poderiam ter sido melhor definidos. Será que o diretor de Um método perigoso, David Cronenberg, leu a fundo o livro e investigou sobre a vida desses três protagonistas: Sigmund Freud, Karl gustava Jung e Sabina Spielrein?

Freud tem a aparência, os gestos, a atitude de um mafioso, bem longe do homem real que era. De estatura médio-baixa, corpo pequeno, sério e atento, sensível e preocupado, Freud era tendencialmente tímido. Também não vivia com um charuto na boca como fosse uma chupeta, como aparece no filme, sempre com um charuto aceso. Um senhor estilo mafioso não desmaiaria numa reunião sentindo sua autoridade sendo ameaçada, como aconteceu na realidade com Freud.

Jung era forte e robusto, alto, impetuoso, ousado mas cuidadoso, porque jovem e
temeroso de ferir sua promissora carreira. Enquanto Freud mal saia de sua cidade e não tinha um posto universitário (o havia deixado), Jung trabalhava num dos melhores e mais avançados hospitais psiquiátricos da Europa (o que, naquela época, significava do mundo). Mais tarde, ele conseguiu uma catédra na universidade à qual o hospital estava vinculado. Freud contava com Jung na divulgação da psicanálise entre os "arianos" e todo o mundo não-judeu e não-vienese.

As figuras físicas bem representam a personalidade de cada um. Jung era novo, enérgico e culto. Um excelente príncipe herdeiro sob cuja liderança Freud esperava que a psicanálise crescesse e conquistasse reconhecimento acadêmico e científico. O Jung do filme não dá conta da força interior do Jung real. Um ator enxuto, com dieta zero calorias e corpo de modelo não satisfaz a imagem de um suiço robusto e cheio de vitalidade, idéias e paixões.

E o que dizer da pobre Sabina? Spielrein está relegada ao papel de uma moça em constante crise de nervos, tensa e dura (e naturalmente magérrima, o que aumenta a impressão de nervosismo), além de... pasmem! viciada em sexo sadomasoquista. Não existe que eu saiba nenhuma literatura, diario ou texto dela ou de outrem que acene a um desejo masoquista. O mesmo vale para Jung: alguém consegue imaginar Carl Gustav Jung fazendo sexo sadomaso? Se esta foi uma estratégia para ganhar popularidade, o filme perdeu o público inteligente.

A idéia do sexo sadomasochista deve ter surgido a partir da triste experiência de Sabina que, desde os 4 anos de idade e até os 18 (quando finalmente saiu de casa para ser internada num hospital psiquiátrico), foi regularmente espancada pelo pai no traseiro nu, tendo, em seguida, que beijar a mão que a havia batido. O pai de Sabina era um homem depressivo, sujeito a ataques agressivos. Sua mãe era superficial e incapaz de lidar com um marido que não amava. A maior de 5 filhos, Sabina se viu em meio a um casamento infeliz e à ira do pai que descarregava seus problemas sobre os filhos. Após a morte da irmã caçula, Sabina desabou emocionalmente, o que porém não a impediu de tirar boas notas na escola e de ganhar medalhe na formação. Entretanto, as surras foram engrossando a problemática psicológica, tornando-a sempre mais complexa. Sabina começou a não conseguir evacuar, segurando a defecação por dias, associando-se a masturbação.

Diz-se de pessoa com muito medo que "defeca nas calças". Quem experimentou um susto muito grande sabe que se pode, no mínimo, fazer involuntariamente xixi. Não seria possível compreender o choque de uma criança de 4 anos e, ao mesmo tempo, sua vontade de aguentar firme a surra no traseiro nu como provocando prisão de ventre? No lugar de defecar, ou seja de soltar-se e abandonar-se ao medo, uma pessoa com vontade de resistência, se segura, resiste num gesto heróico e tão desequilibrado quanto o é a situação na qual está. No lugar de se entregar, Sabina prende e enrijece. E, ainda por cima, transforma a região agredida num espaço de prazer (a masturbação). Uma vez que tanta energia (surra, atenção e etc.) estava concentrada lá, de lá também nasceu uma experiência positiva. Vejo nos sintomas de Sabina a vontade de resistência de uma criança, a desperada tentativa de não ser destruída pelas forças irracionais e odiosas do pai e de uma família perturbada.

Apesar disso havia aspectos interessantes em sua vida. Sua família era de classe alta, ela e os irmãos possuíam um bom nível cultural e falavam fluentemente quatro línguas. Pelas regras do pai, a família havia de utilizar em casa as línguas estrangeiras em dias precisos, portanto, todos falavam francês, vamos dizer, na segunda, inglês na quarta e alemão na sexta. Nos demais dias falava-se russo, a língua natal. Quando Sabina entrou no Hospital Burgölzly em agosto de 1904 seu alemão era perfeito, inclusive sua "voz interior" lhe falava desde pequenina em alemão. Entre as numerosas falhas do filme, está a falta de qualquer menção ao piano e ao talento de pianista de Sabina. Não só nos momentos de crise Sabina chegou a perguntar-se se não era melhor enveredar na carreira de pianista e compositora deixando a psicanálise de lado, como tocar piano sempre foi uma forma de soltar as tensões e expressar sua profunda sensibilidade.

Sabina era uma mulher inteligente e avançada pela sua época. Aconteceu dela nascer numa família problemática com um pai que quando não batia nos filhos e reclamava da vida, ficava deitado passivamente na cama ou ameaçava o suicídio. O hospital psiquiátrico Burgölzli foi uma benção na vida de Sabina, pois lá ela se viu longe de casa e nas mãos de dois homens formidáveis. O filme não dá o devido espaço ao grande professor Bleuler, diretor do local.

De origem simples, Bleuler inovou a abordagem psiquiátrica (além de ter sido o inventor do termo "esquizofrenia"), tratando os pacientes amigavelmente e colocando-os para participar da adminsitração da "casa" (do hospital). Bleuler confiava em seus pacientes e submetia os médicos, seus funcionários, a uma rotina severa de trabalho e revezamento que porém dava resultados excelentes: todos conheciam todos os casos com precisão. O outro grande homem que irá transformar a vida de Sabina é Jung, naquela época no começo de sua carreira. A união de Sabina com Jung se deu não pelos atrativos sexuais de ambos, mas pela semelhança de alma, tanto é que cinco meses depois de ter sido internada Sabina se tornou sua assistente. Nove meses depois, com carta de recomendação de Bleuler (o qual também apelou aos pais dela para que a deixassem em paz não interferindo com sua nova vida), ela entra na faculdade de medicina para tornar-se psiquiatra. Havia pouquíssimas mulheres inscritas (nenhuma suiça, pois os suiços são muito conservadores). Anos depois, Sabina se tornará a segunda mulher psicanálista do mundo.

Sabina morreu dia 12 de agosto de 1942 (e não em 1941 como o filme diz) metralhada junto a mais de 27 mil judeus pelos nazistas. Ela foi pega de surpreesa pelo povo que ela admirava e que falava a língua que ela mais amava. Conforme John Kerr, é a Sabina Spielrein que Jung deve a "descoberta" da realidade e do conceito de Anima. A relação entre eles contribuiu fortemente para a visão profunda e inovadora que Jung desenvolveu ao longo de sua vida.

Toda descoberta nasce do dialogo. O dialogo pode ser interior ou entre colegas, ou então aquele entre um homem e uma mulher, que se encontram unidos intelectualmente, sentimentalmente e também na cama. Esse tipo de dialogo, em particular, há de ser profundamente transformador para os dois e por isso assustadoramente poderoso. Entretanto, nesse caso, Jung era casado e como ele repete no filme (palavras exatas extraídas de suas cartas) ele era um "filisteu", não teve coragem de romper as regras, deixar Emma e quebrar com a moral burguesa e tradicionalista na qual havia crescido (sem contar o pequeno detalhe que Emma era a maior herdeira suiça). Sabina queria mais do que ser a musa invisível do Dr. Jung. Seu intelecto, intuição e paixão impediam-lhe de ter um lugar inferior. Por isso, o sonho de concretizar o amor intelectual e espiritual entre eles com o nascimento de um filho que simbolizasse a união de dimensões diferentes e complementares fazia total sentido para ela. Mas assustou Jung. Sabina sentia-se em culpa diante do fato de Jung ter filhos e uma esposa, da qual Sabina não pensava mal, pois como ela escreve se esta amava Jung "havia de ser uma boa pessoa". Entretanto, a paixão entre os dois abria portas que não levavam só para os afetos (e a cama) como para os mistérios do inconsciente. E isso era praticamente irresistível.

A relação com Jung arrastou-se por anos, o que provocou enorme sofrimento em Sabina. Finalmente, uma decisão precisava ser tomada, além do fato dela querer ter sua própria família. O único jeito de acabar com aquela situação era um drástico afastamento, físico e intelectual. Naquele tempo, com quem elaborar poderosas idéias? Se não era com Jung, havia de ser com Freud. E foi assim que Sabina Spielrein voltou-se para Freud e entrou na Associação Psicanalítica Internacional. Jung, por usa vez em conflito, sofreu a separação de Sabina que coincidiu com aquela de Freud, perdendo duas referências significativas em sua vida. Sua longa crise teve início. Pelo caminho encontrou uma nova amante, Toni Wolff. Toni aceitou o papel de suporte intelectual, companheira/doula psicológica que não tem exigências outras a não ser contribuir com o desenvolvimento do pensamento dele. Todo grande pensador precisa de dialogo para avançar e Toni cumpriu essa função.

Sabina permaneceu para Jung a iniciadora e inspiradora, aquela que pôs em movimento o a longa e frutuosa construção do edíficio psicológico à qual Jung iria dedicar o resto de sua vida.

"Em seus últimos anos, Jung passou mais e mais tempo num retiro privado nas beiras da cidade rural de Bollingen. Lá ele viveu simplesmente, numa casa de pedra que ele mesmo havia construído. Seu hobby principal durante aqueles últimos anos era esculpir a pedra, no qual ele se tornou bastante perito. Consequentemente, deixado no retiro de Bollingen há testemunhos simbólicos, executados na pedra, de algumas das preocupações de Jung durante sua velhice. Entre eles há um tríptico em pedra sobre o tema da 'anima'. O painel inicial mostra um urso inclinado para frente, seu nariz empurrando delicadamente um bola na sua frente. A inscripção diz: 'A Russia mantém a bola rolando'.

É um triste último testemunho à Sabina Spielrein que até mesmo num monumento de pedra em sua honra ela não pôde ser nomeada. Entretanto, a amargura havia de ser não menor no homem. A 'anima' de Jung, 'aquela que precisa ser obedecida', terminou sua carreira como freudiana." (Kerr, J. A Most Dangerous Method. New York: A Division of Random House, Inc., 1993, p. 507, trad. minha)


30 comentários:

  1. Gostei demais do seu texto. Se puder escrever mais, agradecemos.

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  2. Ainda não vi o filme, mas concordo com muito do que você escreveu sobre o físico dos atores, Jung, especialmente nessa época, era muito corpulento. Sobre o vício em charutos de Freud, não sei se por essa época já era tão constante, mas perto do fim de sua vida ele fumava mais de uma caixa por dia, logo não seria de se espantar que ele estivesse sempre com um charuto, talvez mesmo nesta época, o que foi responsável pelo câncer de boca que ceifou a sua vida. Em seu texto há uma lacuna fundamental sobre sabina, ou melhor duas, ela foi a primeira a teorizar sobre a pulsão de morte (antes de Freud) e seu caso e suas contribuições teóricas são ambos referidos por Jung em uma de suas obras Fundamentais "Símbolos da Transformação" (wandlungen und symbolen der libido Jung), se não me falha a memória, ela também foi analista de Piaget, mas posso estar enganado. Também jamais vi qualquer menção ao sadomasoquismo de Sabina ou de Jung, mas convém lembrar que o filme é uma obra de ficção, seu compromisso é estético, não histórico, e deve ser um desafio acomodar no mesmo roteiro dois homens de tamanho vulto (Freud e Jung). Sobre sua interpretação acerca das fezes, nesse mesmo livro que citei, Jung discorre longamente sobre sua simbólica e sintomas relacionados a ela, analisando com uma ótica diversa da que você apresentou em seu texto, basta lembrar que, na simbólica alquímica um dos símbolos do lapis filosoforum são as fezes. No geral, seu texto me pareceu lúcido e agradável e uma excelente resenha intelectual do filme, parabéns pela iniciativa.

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  3. Heráclito, minha intenção nesse artigo foi comentar o filme, não escrever sobre as contribuições teóricas de Sabina Spielrein. Ela não teorizou a pulsão de morte. Aliás, há uma lacuna sim no meu texto: o filme conseguiu apresentar muito bem e em poucas palavras a idéia dela, que é muito diferente daquela de Freud. Para ela na sexualidade há uma dimensão destrutiva que coincide com a experiência fisiológica do orgasmo que é um abandonar-se, um perder-se, um diluir-se no outro; mas também tem um significado simbólico: ao criar um terceiro, os dois "morrem" enquanto indivíduos distintos e vivem no terceiro que os reune. Freud na época não compreendeu nada disso (está no livro do J. Kerr) e quando a citou, no pé de página também não a compreendeu e deu-lhe uma referência meio altiva e distante. Jung faz uma citação parecida no seu A psicologia do inconsciente, capítulo 3. Ele também não apresenta corretamente a idéia de Sabina.

    Piaget foi sim, seu analizando, mas ela o dispensou após pouco tempo porque conforme ela disse "ele só queria teorizar no lugar de se analisar" (Kerr).

    Sadomasochismo não pode ser considerado um recurso estético ou não inócuo. De forma alguma. Ainda mais se tratando de psicanálise onde a sexualidade é central!

    Quanto a interpretação de Jung das fezes, acho interessante conhecer, mas gosto mais por enquanto e nesse caso específico da minha :)

    Obrigada pelo seu comentário. Após escrever este artigo pensei em várias outras coisas que haveria de dizer sobre ela, mas não cabiam numa simples resenha de filme. Retomarei porém e lhe pedirei a referência na simbólica alquímica.

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    1. Além de não ter visto ainda o filme, também não li o livro no qual ele se baseia, quem afirma que Sabina teorizou sobre a pulsão de morte é o próprio Jung em nota de rodapé no "símbolos da transformação" (creio que o mesmo que vc cita, mas com o título em inglês), nessa nota ele se refere a ela como "minha aluna", e minhas fontes sobre ela são outras publicações e o interesse me foi suscitado pelo já referido livro (símbolos da transformação) pois nele Jung utiliza o caso dela como exemplo, apesar de não citar o nome dela ou qualquer referência, essas coisas acabam por vir a tona. No mesmo livro ele se utiliza das teorizações de Sabina, mas elas entram como uma ocntribuição entre tantas, não são centrais.

      Por mais que a sexualidade seja central na psicanálise, não o é em psicologia analítica e eu duvido que os roteiristas tenham se importado muito com esses fatos. de qualquer sorte, pretendo ver o filme, não sei se o livro me interessaria tanto, mas mesmo assim vou dar uma olhada.

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  4. A sexualidade, Heráclito, é um aspecto importante da personalidade. Sem ofensa, vou fazer um exemplo que vai esclarecer, eu acho: eu acredito que Heráclit heterosexual, Heráclico homossexual, Heráclito sadomaso e Heráclito com sexualidade Tantra espiritualizada seriam pessoas diferentes. Não podemos dizer que tanto faz, uma vale a outra. Semelhante raciocínio a mídia faz: o que chama mais a atenção? Uma sexualidade tranquila ou uma violenta? Na qual o público vai ficar mais ligado? A escolha foi marketeira, só que no caso estamos falando de personalidades históricas e sua sexualidade significa muito.

    Quanto à Jung, ele estava enganado. Só isso. Sabina Spielrein não teorizou uma pulsão de morte, nem antecipou o que Freud iria dizer.

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  5. Eu lamento tanto que quase nunca se consegue alcançar uma grande mulher, sempre se deixa de fazer jus a ela, quase sempre ela tem que ser encaixada na fantasia machista de alguém. Não é nem uma fantasia masculina, mas machista... sua imagem tem que satisfazer o desejo de um homem. E ela quase nunca pode ser amada, sendo grande... não há um homem grande o suficiente para amar uma grande mulher???

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    1. Nem sei o que dizer.... faço a mesma pergunta há anos. Muito grata por colocar em palavras o que eu sinto.

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  6. O texto é muito bom. Cuidado só com os errinhos..."estrangeiras", "revezamento">..

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  7. Adriana, vi o filme e como você escreveu, realmente não há como condensar o livro em tão pouco tempo. Claro, deixa muito a desejar. O texto está excelente e após a leitura , tive o desejo de ler o livro,mas por opção, porque na sua síntese já "adiantou" bastante. Vemos que tudo o que acontece hoje já acontecia naquela época. Hoje é apenas continuação... Observei alguns "errinhos", e entendo a necessidade de uma correção. Parabéns!

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  8. Estou realmente espantada em saber que Sabina não era sadomasoquista. Nesse aspecto o filme foi um verdadeiro desserviço pra mim, pois resolvi assisti-lo com a intençao de conhecer um pouco a vida de Jung e Sabina. Acho que mesmo com um pé na ficção o cineasta não pode alterar uma coisa tão significativa na biografia do retratado, é uma irresponsabilidade. Sinceramente, fique estupefata ao ler seu texto, pois estava realmente acreditando que Sabina era sadomasoquista. Repito: um desserviço ao público leigo!

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  9. Prezada Adriana,

    Como vai? Sou autor do livro "Universo Psíquico e Reprodução do Capital" (São Paulo: Escuta, 2008) e "Inconsciente coletivo e materialismo Histórico" (Goiânia, Edições Germinal, 2002), bem como sobre cinema. Ontem, por acaso, pois cheguei da universidade depois de ministrar aula e fui verificar algo na TV para ver e assiti ao filme que você cita e logo fiquei curioso sobre Sabina, já que não me lembrava, nos diversos livros de psicanálise, de referência à ela, inclusive devido a questão que aparece no filme sobre "pulsão de morte" (e a relação entre sexualidade e destruição/autodestruição). Daí, ontem mesmo, pesquisei na internet para descobrir algo sobre ela e encontrei esse texto seu.
    Contudo, também olhei outros sites e coletei mais informações, mesmo porque suas críticas ao filme (numa comparação com a realidade) ampliava as dúvidas. O filme é uma ficção e possui dificuldades em sua produção (achar o ator ideal, por exemplo, e nesse caso pode se optar pelo melhor ator ou pelo tipo físico mais adequado, etc.). Sem dúvida, em relação aos atores, talvez existissem escolhas melhores. O ano da morte de Sabina também está errado. Mas acredito que o diretor e a equipe de produção do filme tenham feita uma pesquisa e não inventaram algo do "nada". Devido a isso, sobre a questão de pulsão de morte, tem um autora de uma tese de doutorado sobre Sabina aqui no Brasil, pela USP, que afirma isso e utiliza uma ampla bibliografia, com textos dela e de diversos autores sobre ela (um resumo de sua tese pode ser visto neste link: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0103-58352012000100007&script=sci_arttext Sobre o masoquismo, realmente há pouca coisa, mas pode ser visto uma afirmação desse tipo (segundo a qual a classificação é de Jung): http://historiaenfemenino.wordpress.com/2011/06/29/sabina-spielrein/ A fonte dessa afirmação parece ter sido o livro de Covington e Wharton sobre Sabina como "pioneira da psicanálise" (veja resumo: http://www.apadivisions.org/division-39/publications/reviews/spielrein.aspx).

    Abraços,

    Nildo.

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  10. Obrigada, Nildo, pelos links. Estou pensando em fazer minha tese de doutorado sobre ela e portanto esses links serão úteis, sobretudo o trabalho em português que não conhecia.

    A questão do masoquismo, mesmo mencionada, não cola com a situação que o filme apresenta que é de sado-masoquismo sexual. Uma coisa é o masoquismo que dada sua infância pode ser compreensível, outra é o sado-maso, outra é o sado-maso sexual e por fim tudo isso com Jung - o que está ha anos luz de Jung!
    Sabina teve uma vida muito difícil e sofrida, sua autoestima já estava massacrada pela família quando chegou até Jung. Ele a ajudou a se reerguer e emergiu o lado teorético de Sabina, mas isso no contexto de uma relação desigual de mestre-aluna, o que acabou por sacudir a precária auto-estima dela ao mesmo tempo em que a suportava.

    Quanto à data da morte, o livro sobre o qual o filme foi baseado dá essa aí que eu citei: 12 agosto 1942!

    A sensação que eu tenho é que o filme foi feito às pressas, sem pensar muito, sem aprofundar o sentimento impregnado nessa história.

    Abraços
    Adriana

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  11. Vi o filme hoje e como sempre me perngunto ao ver filmes que falam sobre pessoas tão importantes me questionei o que de fato era verdade. Achei muito exagerado o papel de Sabina e sentia que algo não condizia. Como uma mulher que abriu novos horizontes para Jung poderia ser retratada como alguém que a qualquer momento poderia ter um ataque?
    Não conheço o trabalho e CG Jung, salvo uma revista a que li aos 17 e não entendi nada, sobre Freud sei o que já ouvi falar. Mas sou fascinada pelo assunto e gostaria de uma indicação de livro que seja de fácil entendimento para alguém leigo como eu. Meu nome é Julianne, tenho 26 anos, acadêmica em Educação Física (Licenciatura); adorei seu texto e os esclarecimentos sobre cada personagem.

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  12. Bacana sua intuição, Julianne! Parabéns :-)
    Um livro sobre o quê, exatamente, vc queria?

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  13. Obrigada. Algo que me introduzisse sobre Jung e seus estudos. Como já disse li uma revista que falava sobre ele e suas pesquisas e não entendi nada, mas sinto que agora tenho um pouco de maturidade para entender. Quantos livros ele publicou?
    Minha intenção é aplicar algo na minha área usar futuramente com os meus alunos.

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  14. Julianne, Jung escreveu muitíssimo. Poderia ler sua autobiografia mas talvez seria demais para vc. Tem um livrinho introdutório a Jung, que eu achei bem simples, até demais, mas talvez para quem não tem nenhum conhecimento possa ser bom. É um livrinho da Nise da Silveira, procure na internet. Vc vai encontrar os vários temas. Eu estava dando um curso online sobre Jung. Se vc se interessar posso relançá-lo mais para frente e ver se alguém quer participar.

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  15. Oi, Adriana, como todos os outros adorei sua resenha e fiquei interessada no seu curso online sobre Jung. Meu nome é Rejane, meu mail rejaneprevot@uol.com.br, caso vc retome o curso por favor entre em contato comigo.

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  16. Vou entrar, Rejane. Veja se não lhe interessa o curso Psicologia do Feminino que trata dos conceitos junguianos de persona e sombra. Está aqui: http://www.psicologiadialetica.com/p/cursos-sobre-o-feminino-tenda-vermelha.html

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  17. É impressionante como os freudianos fazem questão absoluta de desmerecer a todos os demais expoentes da psicologia. O próprio Freud citou o trabalho de Spilreim que foi sim, quem lançou a idéia básica da pulsão de morte. Conceito este aliás, que não é nada mais que um dos aspectos do "problema dos opostos", largamente estudado por Jung.

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  18. Anônimo, O conceito de morte em Spielrein não é o mesmo que em Freud. É possível que este tenha se inspirado nela, já que ela o apresentou no círculo de Viena muito antes dele conceber essa idéia. Mas em Spierleirn o conceito de morte é inerente à própria pulsão sexual. Segundo ela, no ato sexual há uma pequena morte (do ego) em prol de uma união superior (do casal). Para Freud, o instinto de morte é separado do de prazer e no final é o que vence. Em Spierlrein o que vence é a vida (numa nova criatura).

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  19. Suas observações são interessantes, todavia, eu não condenaria esse filme, até por que, estamos falando de bons atores, exímios interpretes, mesmo q a premissa esteja equivocada em alguns pontos. Mas meu depoimento é de ordem meramente subjetiva, tendo em conta q eu tenho uma admiração confessa pelo trio de atores principais (Viggo Mortensen, Keira Knightley, e Fassbender).

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    1. Então é isso :-) vc gosta dos atores. Seu comentário é válido, do ponto de vista estético. É um ponto de vista que também deve ser levado em consideração.

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  20. Adriana, seu blog é uma riqueza! Obrigada por compartilhar suas vivências e aprendizados.
    Você poderia, por gentileza explicar pra mim que sou leiga , sua frase:
    A 'anima' de Jung, 'aquela que precisa ser obedecida', terminou sua carreira como freudiana."

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    1. Olá Carmen Lúcia! Jung encontrou em Sabina a primeira representação do conceito de "Anima" que ele iria teorizar anos depois. A Anima é uma função psicológica que segura, por assim dizer, as chaves da personalidade e da missão de vida do indivíduo - por isso, "precisa ser obedecida". Agora, no caso de Sabina, ela acabou se aproximando de Freud e acompanhando o círculo dele de Vienna, e em seguida levando o pensamento de Freud para a Rússia.

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    2. Obrigada uma vez mais, Adriana. Ao ler tua explicação é que percebi que o texto deixa isso claro; eu é que não enxerguei o contexto.
      Sabes? Ler-te é uma experiência de profundo acolhimento.
      Já posso dizer que te amo?

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  21. Um filme onde a psicologia e hipnose está presente em seu apogeu. Definitivamente uma produção recomendado para entender alguns aspectos desta ciência. Esta série O Hipnotizador são dois produção em um tema semelhante encontrada em meu favorito. Eu recomendo.

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