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Brasileiros United

Sempre achei surpreendentes os adesivos que os americanos colocam nos carros com escrito: “United We Stand”. “Só eles mesmos”, penso comigo mesma. Este tipo de mensagem – junto ao “God Bless America” (sabem eles que “Deus é brasileiro”?) – revelam o espírito de uma nação e, nesse caso, este sentimento está embuído em todos os aspectos da sociedade americana, tanto em suas qualidades quanto em seus defeitos.

Com “United We Stand” um país começa sua história com o pé direito. Impossível não reconhecer-lhes o valor dessa postura e os resultados grandiosos que ela permitiu alcançar. A união faz a força. Mas, aqui, não é
simplesmente a união que está sendo aclamada, mas o standing together, o estar juntos e de pé, o que remete à sólida e decidida prontidão coletiva para a ação. Não se trata da união dos deitados na rede, ou daqueles fazendo festa no bar da esquina, mas da postura de uma comunidade que se vê compacta e determinada a encarar o que tiver que ser encarado. Está implícito no “United We Stand” a sintonia de propósitos, valores e objetivos.

A imagem evocada é poderosa: se trata, aqui, de indivíduos vinculados uns aos outros por laços de fraternidade (não de hierarquia), voltados para a mesma direção (que é para frente), de cabeça alta e de peito aberto. Tal representação simbólica da nação ocupa o núcleo do mito fundador desse país. Que os americanos possam ser também individualistas, egoístas e interesseiros como qualquer outro povo não modifica o resultado. O estar juntos desse modo é um símbolo catalizador que move montanhas e eleva a autoestima de um povo.

Como nos três mosqueteiros, a ideia é todos por um e um por todos, o que significa que o social é um assunto individual e que o bem estar do indivíduo é uma preocupação coletiva. O indivíduo, no espírito da cultura americana, considera o social como sua responsabilidade, por isso se sente no direito e na obrigação de adotar ruas, de engajar-se nas escolas, de voluntariar para seu candidato, e de respeitar o pedestre porque amanhã ele próprio ou seu filho podem estar atravessando aquela rua. Por outro lado, a sociedade promove e implementa o respeito ao cidadão, oferece um serviço ao consumidor dos mais avançados, e disponibiliza uma infraestrutura funcional e moderna para quem quer realizar coisas e não ficar perdendo tempo em burocracia e picuinhas pessoais.

Muito diferente é a realidade de origem do brasileiro. Apesar do calor floridiano, o frio do choque cultural arrepia o latino de primeira viagem. Mas o brasileiro quer vida melhor e não desiste, batalha para conseguir trabalho, e sujeita-se a toda ocupação para alcançar o sonhado padrão de vida. E ele consegue. E um dia ele até tem empresa própria. Entretanto, algo fraqueja. Se por um lado o brasileiro imigrante adaptado aprende a entrar no esquema americano, a favorecer-se dele e a apreciá-lo, por outro ele se sente isolado e desenraizado.

Aos brasileiros falta um “United We Stand”. Sua cultura é individualista. Para o brasileiro, “social” é o grupo de amigos próximos e a família. Não existe, ou é extremamente embrionário, o sentido do coletivo não mediato pelos afetos. O brasileiro é pessoa de sentimento. A impessoalidade do sistema americano assusta (apesar desse ser justamente o motivo pelo qual funciona). Sociedade de afetos, porém não se sustenta, porque logo acontece um atrito pessoal, um constraste de preferências e lá se foi a vida comunitária. A comunidade como um todo permanece um mistério para o brasileiro, que nela vive tentando “evitar problemas”, isto é evitando se iminscui em assuntos que não lhes dizem diretamente respeito. E, assim fazendo, ele restringe seu horizonte.

Para compensar as limitações sociais que encontra, o brasileiro utiliza a vida de casal e a família como suporte, correndo o sério risco de inflacionar o lar com suas carências. Muitos relacionamentos, hoje, estão em crise porque a pressão recíproca alcançou limites desumanos e a interdependência sadia se transformou em dependência patológica. Na falta de uma rede social de apoio, formada originariamente por pais, irmãos, primos, amigos e vizinhos, o brasileiro imigrante não sabe a quem apelar e despeja seu vazio interior para dentro de casa.

O brasileiro é povo sociável e alegre, adora uma festa e busca estar rodeado de amigos. Entretanto, a vida de imigrante exige algumas outras mudanças, além das óbvias. Uma delas é aprender com os americanos o “United We Stand” e investir na construção de uma comunidade brasileira funcional, objetiva e prática, acima das vaidades e dos interesses pessoais. Os ganhos serão coletivos, isto é, seus, meus, deles, nossos; de todos.

Esse artigo saiu no Gazeta Brazilian News da Flórida, EUA, na edição de 15 de março de 2012.

Comentários

  1. Amei o texto e concordo com ele, apesar de não estar fora do meu país, estou fora do meu estado sou do Rio de Janeiro e estou morando em Curitiba e entendo o que o texto quer dizer. Abraços Eliane

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