02/05/2012

INTELIGENTE, NÃO SIMPLESMENTE ESPERTO

Adriana Tanese Nogueira

Só as pessoas inteligentes procuram,
para auxiliá-las,
pessoas mais inteligentes do que elas.
Baltasar Gracián



A palavra inteligência vem do latim “intelligentia”, que, por sua vez, nasce do verbo “intelligere”, formado por “inter” = “tra” e “legere” = ler, captar, “sacar” e também “ligar”. Então, inteligência é a capacidade de ler por entre as linhas e de interligar idéias não explicitamente relacionadas. 

A pessoa inteligente colhe os pensamentos, é capaz de raciocínios abstratos, sabe planejar e criar estratégias.


É importante estabelecer uma diferença entre esperteza e inteligência. Usa-se muito o termo “esperto” para designar pessoas que encontram soluções e saídas de situações espinhosas, ou que sacam respostas com rapidez. Contudo, sem o mundo maior, sem o conhecimento e a visão das coisas, esse espírito vivo e curioso do esperto se resume à astúcia de “salvar a pele”. Podemos definir o esperto como aquela pessoa que tem inteligência prática e cuja referência é seu ego (ou seu umbigo?).


O esperto busca responder à pergunta: como superar o obstáculo me dando bem? Questões de ordem moral, ética, de civilidade e sociedade, evolução e educação são por princípio excluídas. Na esperteza assim entendida há espaço somente para o “meu interesse”, ou no máximo o “nosso”, da nossa tribu. Será essa a melhor postura na hora de querer mais do que a mera sobrevivência, como quando se quer abrir um negócio, criar uma empresa e crescer profissionalmente? Se na vida diária a esperteza é parte do kit de sobrevivência, no mundo maior ela se transforma facilmente em “malandragem”, pequenez e miopia.


Inteligência também não é simples conhecimento. Pessoas cultas podem não ser inteligentes. Não basta ler livros ou conseguir uma graduação. Ter um diploma hoje mais do que nunca não garante qualidade e muito menos inteligência. Para isso pode bastar ter uma boa memória. Testes que requerem que o aluno ingurgite informações não apelam à esperteza, mas à memorização e determinação para passar a prova. Livros são indispensávies mas não suficientes.


A inteligência é um potencial de capacidade crítica e de raciocínio que como a materialidade de nossos corpos nos é dada de presente e que depende para seu desenvolvimento de: a) boa comida (para o corpo-e-para o espírito); e b) exercício (para o corpo-e-para o espírito).


Nascemos todos com um belo corpo, esbelto e saudável, pronto para o uso. Se, ao invés de exercitá-lo, o deixarmos mofando na frente de uma TV ou de um videogame ou se arrastando pela vida afora, aquela agradável forma física inicial vai simplesmente se deformando, e logo temos as crianças obesas e preguiçosas que se encontram por aí. Com a inteligência acontece o mesmo. A possibilidade está lá, bonita e lustra, só necessitando ser exercitada, treinada e aprimorada para que se obtenha aquela maravilhosa capacidade de se elevar acima da gravidade do dia-a-dia e construir pensamentos que vão além do imediato presente. Quem quer realizar um projeto deve saber sonhar, no sentido de ter visão, enxergar além do horizonte estreito dos limites cotidianos.


Inteligência então é reconhecer quando se precisa de ajuda profissional para abrir as asas e lançar-se em vôo livre. Seja ele pessoal ou de negócios, o processo é o mesmo. De nada adianta trocar idéias com quem está no mesmo barco. O exercício para fortalecer a inteligência consiste em recorrer a quem é mais inteligente e sabe mais. Juntos, refletir, pensar e repensar até burilar o projeto de vida e tornar o sonho realidade.


Conforme as análises feitas por Jung em seu livro “Tipos Psicológicos”, a função pensamento (da qual deriva a inteligência de que estamos falando) pode estar em sua forma desenvolvida ou primitiva, dependendo da personalidade da pessoa e do treino que ela tem. Para reconhecer em que estágio ela está, basta observar seus frutos. Se seus raciocínios terminam sempre no mesmo ponto, se vira e mexe o que ela lê ou supostamente aprende “confirma” o que ela já sabia ou seja a convicção que ela já havia formulado, sua função pensamento é subdesenvolvido – pelo menos no que diz respeito à determinada área. É como uma pessoa que em qualquer coisa que coma encontre sempre o antigo e familiar sabor do arroz com feijão.


Para sair do círculo vicioso é preciso antes reconhecer o limite e sem melindres e perda de tempo pegar o touro pelos cornos e enfrentar o que deve ser dobrado para dar o salto que se almeja. Humildade e auto-autoquestionamento. A esperteza não permite esse salto. Entre a inteligência e a esperteza tem a mesma distância que há entre a águia a galinha. Se a última é rápida em bicar o grão de trigo no chão, a outra agarra uma lebre que ela avistou lá do alto do céu.


Nota: este artigo é uma ampliação de um artigo anterior meu chamado "O que é inteligência" e cujo foco está na elucidação das idéias, enquanto este foca a análise do comportamento.


10 comentários:

  1. Parabéns Adriana
    Percebo esta diferença desde criança, nos diversos lugares e pessoas que conheci. E para mudar o sistema em que a lei do "GERSON" prevalece, tem que ser esclarecido às gerações vindouras a prática da inteligência e não o da esperteza. Pois não devemos ser seres únicos, mas sim coletivos e em harmonia, igualdade, imparcialidade e prosperidade com vida digna a todos...

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    1. Verdade :-) E tem muito trabalho pela frente a este respeito!

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  2. BOA INFORMACAO.QUE TALVEZ NAO SEJA CAPTADA PELOS ESPERTOS

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  3. Acabei de ter uma contenda com um amigo "esperto"... Realmente, pessoas espertas tendem a ser mais dogmáticas, têm grande dificuldade em quebrar paradigmas, têm uma preocupação exagerada com a autoimagem, e, por fim, possuem uma escala de valores bem diferente daquela das pessoas inteligentes. Os tipos de livros que as pessoas leem pode ser um indicativo, primeiro pelo conteúdo, mas, principalmente, pelo entendimento... Muito boa matéria, parabéns. Penso desta forma!

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    1. Excelente comentário, Antonio. Vc sintetizou a questão :-)

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  4. Olá Dra. Adriana! PARABÉNS pela sua iniciativa de externar seus conhecimentos sobre este tema proporcionando espaço para que as pessoas argumentem e desabafem suas experiências. Este tema sobre INTELIGÊNCIA X ESPERTEZA é polêmico e por toda a minha vida (desde a infância até os dias de hoje) sempre fui orientado a ser "o esperto", pois a sociedade sempre marginalizou "O OTÁRIO" ou "o bobo" (que é o significado oposto), como algo negativo. Porém, durante minha vida já conheci muitos "otários-bobos" enriquecidos de valores morais, éticos, bondade, honestidade... Princípios básicos e fundamentais de convivência coletiva que "os espertos" NÃO POSSUEM!

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    1. Na cultura brasileira, ser "esperto" é o almejado, mas quando não há honestidade eis que um cara "esperto" vira também perigoso.

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  5. Gostei do texto. Interessante que só pessoas inteligentes leram e comentaram seu artigo. Os espertos não se questionam... É como acreditam estar certos, acham que são inteligentes por serem 'espertos'. Rachel

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