10/05/2012

Religião como educadora

Adriana Tanese Nogueira

Saiu na revista Época dessa semana (7 de maio de 2012, n. 729) o artigo “Ele está dizendo a verdade?” no qual é mencionado o livro “Memórias de uma guerra suja” que contém a entrevista com Cláudio Guerra,  ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Social e Política) do Espírito Santo. O homem, hoje com 71 anos, esteve na cadeia pelo assassinato de um bicheiro e lá foi convertido à Assembléia de Deus.  Cláudio Guerra limpou a alma suja ao romper  a cumplicidade com o sistema que serviu durante anos revelando crimes dos quais se tinha a suspeita mas não provas. [Ver também o artigo Ditadura promoveu queima de arquivo em série, diz Guerra]

A ditadura militar foi uma operação podre do começo ao fim, cometeu crimes horrendos e suas responsabilidades ainda não foram reconhecidas por inteiro. Vergonha nacional que só se explica pelo fato da sociedade brasileira ainda estar com um pé nesse pedaço de história que queima na alma nacional. Os partidários da ditadura continuam vivos e ativos, o que contribui a manter a ambiguidade na consciência coletiva, a qual não demonstra a capacidade para unanimamente afirmar que  golpe militar, repressão e matança segundo a lei do mais forte são pura e simplesmente crime contra a humanidade.

Aí chega a Assembléia de Deus que aborda um homem cansado de 71 anos, e na prisão. Há gente que precisa da cadeia para refletir sobre a própria vida, mas a muitos duvido que prisão faça algum bem. No caso de Cláudio Guerra, a segregação do mundo propiciou as condições para ouvir a “palavra de Deus”.  A consciência de Guerra devia lhe estar doendo no peito, lutando para gritar sua verdade. A religião ofereceu um canal e os jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros colheram os frutos de seu desabafo.

Que seja necessário de uma religião para limpar a alma é sintoma de atraso psicológico. Não deveríamos precisar de religião para saber que certas coisas são erradas. Os tempos de Moysés se foram há mais de 2500 anos. Não deveria ser necessário chamar em causa Deus para não matar e não roubar. É hora de ter com Deus outro tipo de relação, que a de e filho pecador diante do pai austero. Enquando isso não acontece, cabe-nos agradecer à Assembléia de Deus que se deu ao trabalho de ir à cadeia onde encontrou um homem que abriu a boca para contar como matou em nome da “Revolução Brasileira”, “modernizadora” do Brasil, salvando a pátria do “comunismo” e alinhando-a aos poderosos EUA.

Enquanto consciência e ética forem artigos de luxo precisaremos de religiões para educar homens e mulheres àquilo que para alguns já é como uma segunda natureza. O problema com as religiões é que com frequência demasiada o crescimento humano nelas é possível até um certo teto, além do qual o dogma impede de ir. Entretanto, estamos no lamentável estágio social em que é melhor um dogma do que um assassino solto.
 

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