27/06/2012

Individuação e E.T.s

Adriana Tanese Nogueira


"Se você expressar o que está dentro de você
O que você expressar irá salvá-lo.
Se você não expressar o que está dentro de você
O que você não expressar irá destruí-lo."
Evangelho de Tomaso

É interessante como muitas verdades psicológicas foram expressas nos tempos passados na forma de ditados religiosos. A frase acima está contida no evangelho apócrifo do apóstolo Tomaso e guiou-me pelo muitos anos da minha formação. Esta mensagem está hoje bem refletida na medicina psicossomatica, mas de uma maneira mais sutil e intrigante é visível nos diversos distúrbios psicológicos e comportamentais considerados "normais"

Esta bela e simples expressão de uma dinâmica psicológica inescapável voltou do passado quando atendi uma garota de 17 anos, a qual me trouxe o seguinte sonho:

"Ela está grávida, mas seu bebê é um E.T. Quando ele nasce, tenta matá-la."

Este pesadêlo ocorreu por volta de seu aniversário, uns poucos meses antes dela vir se consultar comigo. O sonho expressa a visão que ela tem daquilo que traz dentro, ou seja, do que ela é, daquele lado seu que está se desenvolvendo e se diferenciando da família, dos amigos, do social. Todo adolescente passa pelo processo de diferenciação: cabe-lhe se tornar sua própria pessoa e não a copia dos pais.

Em teoria, todos entendem isso, mas na prática esse processo é muito mais complicado do que parece e, muitas vezes, a diferenciação não passa de mera fachada ou da adoção de comportamentos complementares às problemáticas da casa. Por exemplo, conheço um rapaz, primeiro filho, com dois irmãos menores, nascido de um casal perpetuamente em conflito, sem amor na casa, sem cuidados e atenção, que tem como fantasia de adulto abrir um bar onde poder receber todo mundo "em alegria e paz". A verdadeira vocação desse rapaz é ser professor, mas como professor de crianças (não de universitários) não é uma profissão respeitada pelo pai, assim como este não valoriza qualquer profissão humanista, o rapaz desviou do caminho e sobrou-lhe o "sonho" nascido da ferida interior.

Desde criança ele quer ver todo mundo feliz, unido, em paz. E qual criança não sonha com isso? A paz na vida de uma criança tem a precisa função de permitir que ela se desenvolva, descubra seus talentos e seu sentido na vida. Se torne Si Mesma. Sempre mais sugado pela própria carência e pelas problemáticas alheias às quais sua própria ferida o torna vítima, este rapaz sonha que seu braço esquerdo está sendo corroído, derretido como por ácido. Se os braços são os que nos permitem carregar, pegar, fazer, o poder realizador desse rapaz está sendo destruído, começando pela seu lado esquerdo, seu feminino, sua capacidade de sentir, de ouvir a voz interior. 

Voltando à garota mãe do E. T., o fato dela enxergar sua interioridade como um E. T. mostra o quanto ela se sente diferente do ambiente ao seu redor mas, sobretudo, o quanto ela não está do lado de si mesma. Uma mãe ama seu filho, independentemente da cor, do tamanho, do sexo, e etc. Assim, amar a própria evolução, o próprio crescimento como indivíduos significa estar abertos ao que der e vir. Condenar-se por gostar de artes plásticas quando sua família e amigos consideram engenharia ou medicina as únicas profissões que prestam é traír-se. Estar ao próprio lad significa ser fieis a si mesmos - o que é a primeira obrigação de cada um de nós.

Se tenho um filho E. T. quer dizer que estou olhando para ele COMO SE ELE FOSSE UM E.T.! Minha percepção de mim mesma é tão distorcida que me vejo não como uma pessoa diferente, mas como uma pessoa esquisita, feia, deformada, incompreensível, repugnante. Alguém tão distante do que é reconhecível e válido que não chega a ter identidade qualquer. Não é uma questão de hábitos diferentes, de culturas diversas, mas de uma estranhez de fundo que não pertence a esse mundo: o E.T.

É portanto inevitável que o E.T. tente matá-la. Se avaliamos o que temos dentro com tamanha rejeição, se o nosso ser gestado em nós é visto como alienígena não há lugar para ele em nossa vida ordinária. Logo não há lugar para nós. 

Este é o sonho de uma pessoa que vive em cima do muro. Ela se esforça, e muito, para ser como os outros, se estereotipar no meio social (escola e amigos) mas uma parte dela inexoravelmente enxerga mais longe, percebe mais. Parte que ela afaba. Por outro lado, e este é o problema principal, ela também está só dentro de sua família. Segunda filha de um casamento tradicional, ela é preterita quase que oficialmente à irmã mais nova, parecida com o pai, o chefe da família, em fisionomia e em comportamento e, portanto, privilegiada. A mãe, filha de pai alcólatra, vive uma eterna baixa-autoestima e sentimento de vergonha de si. A menina, parecida com a mãe, e como esta mais sensível e potencialmente mais aberta, foi relegada ao segundo plano, assim como a mãe se coloca como cidadã de segunda categoria com relação ao marido. A garota está consciente dos conflitos em casa, mas impotente para tomar atitudes que a protejam.

Picada pela serpente venenosa da baixa-autoestima herdada da mãe, a garota na hora da diferenciação não tem forças para abrir asas e descobrir quem ela realmente é. Teme sua própria diversidade, sua visão, seu potencial. Esmaga seu ser na superficialidade da cultura popular banal. 

É do adolescente viver conflitos parecidos, mas este sonho revela um perigo latente de problemáticas psicológicas de mais amplo espectro. Quando o "ego" é fraco demais e "morre" pela mão dos conteúdos interiores temos surtos psicóticos e esquizofrenia.

Um comentário:

  1. Boa tarde,

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    Alex Chagas
    Juruá Editora

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