01/08/2012

Competência profissional

Adriana Tanese Nogueira

Antigamente, para se tornar advogado, carpinteiro, médico, parteira ou pintor os interessados haviam de encontrar um mestre que os tomasse como aprendizes. Quanto mais experiente o mestre, mais competente se tornaria o aprendiz - sempre que se esforçasse e permanecesse com o mestre o tempo necessário para aprender a profissão. Quanto será que demoraria esse tempo? Certamente, anos.

Eram bons tempos aqueles, quando teoria e prática andavam de mãos dadas. Com frequência um bom mestre ensinava também ética e inteligência social (saber lidar com os outros). Até um mestre ladrão podia ter seu lado suave que ensina algo na convivência diária, no mínimo a solidariedade entre os membros do grupo. O mestre era como um pai, que fosse bom ou duro, exigente ou compreensivo, ele deixava uma marca na alma do discípulo, uma marca humana, viva. Deixava lembranças, dicas, olhares, gestos e sobretudo a sabedoria de anos de experiência, que nenhuma teoria abstrata pode transmitir.

O limite daquele sistema era, entre outros, que um mestre só podia pegar um ou dois aprendizes por vez, além do fato que mestres de verdade, outrora como no presente, são tristemente raros.

Hoje temos escolas, universidades e cursos de todo tipo e tamanho. Temos livros, DVDs, apostilas. Temos milhares de interessados de uma vez, muitos deles na busca por uma profissão que dê sustento, melhor se for dinheiro mesmo, espesso e verde, junto à fama e glória, status e olhares invejosos.

Se uma profissão, antigamente, muito antigamente, para ser reconhecida era o resultado do laborioso suor de cada dia, da degustação lenta e da prática continua, do confronto incansável entre pensamento e realidade, ideais e materialidade, hoje uma profissão, em primeiro lugar, se compra. Dependendo de onde você vive, do que quer e de quanto dinheiro tem no bolso, você obtém este ou aquele diploma. O nome da escola reverbera no mercado e a aplicação dedicada das noções de marketing aprendidas fazem o resto. O diploma pendurado na parede é tanto mais valioso quanto mais atrelado estiver ao status que representa ou que se acredita representar.

Hoje se aprende via livros. Estágios são curtos, a competição acirrada desde o princípio. Encontrar um mestre, alguém generoso e sábio o suficiente para passar adiante o que ele mesmo aprendeu em sua alquimia pessoal e profissinal, é mais difícil do que encontrar uma carteira no chão com um milhão dólares dentro. Moral e ética habitam manuais caros e leis anônimas se preocupam em implementar as regras. Tudo funciona segundo o sistema, como o mecanismo de um relógio… E convenientemente se confunde diploma com competência.

A competência, que, conforme o Michaelis online tem como segundo significado (o primeiro é legal), o de “aptidão e idoneidade” não é algo que vem dos livros ou, sinto dizê-lo, de uma escola. Aptidão tem a ver com talento, e idoneidade com capacidade. Nenhuma das duas coisas depende de dinheiro e de mercado, e nenhuma delas está garantida pela posse de um certificado. O que se tende a jogar de lado com um gesto calculado de descuido é que estudar e ir à faculdade não forma uma pessoa, é a vida que a forma uma pessoa e ela própria que se molda através de suas escolhas.

O estofo humano de cada indivíduo é o que rege sua competência profissional, assim como o esqueleto mantém de pé nosso corpo. É a qualidade humana, baseada em ética, generosidade, visão, abertura mental e emocional que representa a coluna dorsal de toda a estrutura, pessoal e profissional de um indivíduo. Competência profissional não é, portanto, saber as teorias e tendências, ou ter tirado A na escola, mas vive na combinação única de conhecimento técnico (específico de cada profissão), profundidade de visão, esperteza, inteligência social e emocional, talento, ousadia, valores e objetivos.
Num mundo sempre mais monitorado por valores exteriores e fachadas marketeiras, é importante acordar do transe e começar a olhar aos outros e a si mesmos pelo que realmente se é, e não pelas vestes coloridas desse carnival ao inverso onde só quem tem poder se diverte. Para quem não está satisfeito com o jeito como as coisas andam e reclama pela falta de humanidade e de valores, pelo aproveitamento e malandragem, vale lembrar que o mundo é do jeito que cada um o cria em sua ação diária.

Seria bom que o brasileiro não perdesse aquela famosa cordialidade da qual falava Sérgio Buarque de Hollanda, o pai do glorioso Chico. Que dos americanos os brasileiros aprendessem um pouco de regramento, objetividade e praticidade, mas que não se esquecessem que em seu coração não habita o espírito puritano e que tempo nem sempre é dinheiro. Há também o tempo para amar e aquele para sorrir.

Nota: Artigo escrito para o jornal Gazeta Brazilian News do Sul da Flórida.

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