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Quem é o psicoterapeuta

Adriana Tanese Nogueira

Modalidade e efeitos de uma terapia dependem em grande medida da pessoa do terapeuta. Conforme sua personalidade e seu grau de consciência e evolução pessoal ele escolherá a linha de trabalho (orientações teórica), os métodos (técnicas), a abordagem interpessoal (valores), o foco (prioridades), o tipo de relação com o cliente (relacionamento humano). Diferentemente de ser engenheiro, em psicoterapia o trabalho de um profissional está estritamente ligado a quem ele é. Se fórmulas matemáticas não mudam conforme a personalidade do matemático, a qualidade da psicoterapia muda de acordo com a personalidade do psicólogo.


O principal instrumento de trabalho do psicoterapeuta é ele mesmo. Mais do que em qualquer outra profissão, a consistência do trabalho está diretamente ligada a quem o conduz. Um empresário vai deixar sua marca pessoal na condução de uma empresa, em seus requisitos e objetivos, mas um psicterapeuta influencia o trabalho com o que ele é conscientemente e com o que ele é inconscientemente.

Psicoterapia é relação (S. Montefoschi). O que acontece nela é o que acontece em toda relação, com a diferença que esta quer ser uma relação de cura, de promoção do desenvolvimento do outro. Relações existem movidas por vários motivos: para compartilhar, crescer juntos, para gratificar um ao outro, para usar um ao outro... nem sempre motivos nobres. Na psicoterapia, entretanto, a relação há de ser conscientemente administrada pelo psicoterapeuta porque existe para que seja de crescimento para o cliente em primeiro lugar, o que para um bom psicólogo redunda em seu próprio crescimento também. 

O que o aspirante psicoterapeuta deve fazer então para estar a altura da tarefa? Estudar muito. Estudar sobretudo seu principal meio de relação com o cliente, seu maior instrumento de trabalho: estudar a si mesmo. O psicoterapeuta tem a responsabilidade de ter realizado um trabalho interior suficientemente longo e profundo para que ele possa abranger em si o mais possível de humanidade de modo que a humanidade dos outros caiba e possa ser com-preendida. Não se forma um psicoterapeuta pelo intelecto somente. Você pode ser um dono de empresa de sucesso e um sem vergonha no seu lar,  isso não pode acontecer com um psicoterapeuta. Seria um profissional fajuto. Não adianta, portanto, tirar A nas provas e ser bom de conversa e de teoria. É preciso ser uma pessoa consistente, com espessura, com um corpo de conhecimento e auto-conhecimento para dar conta do recado.

O psicoterapeuta não é perfeito, não alcançou tudo, nem sabe tudo. Está como uma obra em constante manutenção e aperfeiçoamento e por isso pode oferece um modelo humano ao seus clientes. Psicoterapeutas não curam doenças, não prescrevem remédios e não resolvem os problemas alheios, apesar de poder ter boas dicas. Psicoterapeutas promovem em seus clientes a capacidade de arcar com a própria vida, de compreender-se, de decidir o que é realmente melhor para si e de tomar as atitudes necessárias. Ou seja, o psicoterapeuta promove auto-conhecimento e auto-consciência. E consciência é algo que faz milagres.

Ninguém pode guiar alguém por terras que ele mesmo não conheça. A fala do psicoterapeuta deve nascer de sua própria carne, não é um script aprendido na faculdade ou em livros. Intelecto e sentir devem estar integrados. Um profissional da psique não pode manter quartos sombrios dentro de si, fechar um olho e achar que pode "fazer de conta". O que não quer dizer que ele seja todo "claro" e "realizado". Significa que ele é honesto, transparente e verdadeiro consigo mesmo. Entre sua consciência e inconsciente não existe uma parede de cimento mas uma divisória porosa, flexível e móvil.

Um psicoterapeuta também não é um vidente, mas uma pessoa que aprendeu a refletir sobre sua própria realidade de forma crítica, séria e profunda, o que inevitavelmente faz enxergar muita coisa que para quem não reflete passa desapercebida. Refletir é o movimento de se olhar no espelho: ao conhecer-se em profundidade, o psicoterapeuta pode entender ao outro. Isso implica que ele deve saber enxergar em si uma vasta gama de dimensões humanas, das mais bonitas às mais feias!

Esta concepção da psicoterapia tem como pressuposto (Jung e Montefoschi) que somos todos feitos da mesma matéria, possuimos todos a mesma bagagem humana, a única diferença entre as pessoas sendo seu nível de consciência. Portanto, o psicoterapeuta não se relaciona com o outro dentro do paradigma médico objetivista que vê corpos (e não pessoas), nesse caso psiques (e não pessoas), a serem "tratadas", objetos externos à realidade do profissional e que ele "manipula" (nas melhores das intenções) para obter determinados resultados. Na psicoterapia (de matriz junguiana e montefoschiana) a relação é o processador dos problemas e é dela nasce a renovação. Uma relação honesta, generosa, aguçada, séria e verdadeira representa o alambique onde a transmutação da consciência ocorre. O psicoterapeuta é nada mais nada mesmo que a vanguarda da evolução humana. Dê o bom exemplo!

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