09/09/2012

A inteligência emocional e o jeitinho brasileiro



Adriana Tanese Nogueira

Poucos povos têm a sutileza do brasileiro quando se trata de lidar com as relações socias. Apesar da violência e da falta de educação, o brasileiro está na lista dos povos que andam com graça na corda bamba das relações interpessoais em sociedade. Como podem ler, escrevi “falta de educação” e não “ignorância” que é o sentido real do que está implicito na minha frase. Mas “falta de educação” soa afetivamente muito mais “correto”, não? Apesar de “ignorância” não ser uma ofensa mas um fato, ou seja uma carência de conhecimento, não é uma palavra que “pega bem”, mesmo podendo estar escancarada. Assim, os tomam um instintivo cuidado em não esbarrar na susceptibilidade alheia, em agradar o outro e estar “de bem” com todo mundo.


Há razões históricas por trás disso, não é só porque “Deus é brasileiro” e abençou seu povo com tamanha delicadeza afetiva. Não, o Brasil foi um país quase que ininterruptamente dominado por poderes autoritários. Os resquícios dessa tirania constante exercida pelos que possuem armas e/ou dinheiro está claramente visível ainda hoje nas ruas e edifícios públicos. Um pequeno exemplo: quantos confiam na polícia? Portanto, num país onde quem detém o poder não só não é confiável quanto é altamente perigoso e egocêntrico, atrair sua atenção pode custar-lhe a vida ou o trabalho, ou as duas coisas e ainda por cima atingir um membro de sua família. Surge assim, por motivos mais do que fundamentados a necessidade para quem não tem armas ou poder social de agraciar-se os que têm. E como quem agrada também não é bobo, agrada tentando obter algo em troca. Nasce o “jeitinho brasileiro”. 

Jeitinho brasileiro é um manual mudo e sem palavras, inscrito na cultura brasileira e transmitido já no leite materno sobre como navegar são e salvo em águas turbulentas, sem ser comido pelos tubarões e ainda por cima levando para casa uma cesta de peixe, mesmo sem ter vara ou anzol. Como já dizia Jean Baptiste Lamark (1809), a função cria o órgão, e assim o “órgão da sensibilidade afetiva” é altamente desenvolvido nos brasileiros. Não estou falando em simpatia, generosidade, calor humano (os italianos também são bons nisso, sobretudo os do sul); estou falando naquela espécie de faro que faz sacar quais são os melhores caminhos para seguir andando sem encontrar obstáculos. Caminhos esses que não se encontram no plano das idéias, nem daquele do comportamento politicamente correto (nisso os americanos ganham tem o prêmio nobel), mas nas oscilações afetivas. O x da questão é: nunca perturbar o ego alheio, a susceptibilidade alheia. A máquina das relações sociais está sempre bem oleada com sorrisos, “sims”, gentilezas, abraços e aberturas que permitem ou buscam que ninguém fique “ofendido”.

O resultado positivo desse “órgão brasileiro” é que muitos acham que não há lugar no mundo como o Brasil, que só no Brasil é possível viver “à vontade”. Fala-se também que o brasileiro é mais aberto e amigo e que a vida no Brasil é mais “flexível”, “solta”; enfim, literalmente: à vontade.

Há um efeito colateral porém e este se chama hipocrisia. Não é humanamente possível dizer sempre sim, nem agradar a todos, nem ser sempre “simpatico”. Duas coisas, então, podem acontecer: ou o indivíduo se foca em encontrar uma vantagem pessoal tanto maior quanto o número de sapos que engole , e nasce o malandro; ou a pessoa suprime o que realmente pensa e sente e se torna a rainha (ou o rei) da hipocrisia. Num mar de sorrisos e disponibilidade escondem o hipócrita.

Se em casa e entre amigos essa realidade é complicada, no âmbito do trabalho a situação se faz altamente problemática. No trabalho, os colegas hão de conviver se e precisam inclusive melhorar a qualidade de seu trabalho, ou assim seria desejável. O jeitinho brasileiro não é particularmente efetivo nesse campo. Se ajuda a lidar com o colega e o chefe, não dá conta da capacidade de se posicionar, de fazer e aceitar críticas construtivas, de propor e estabelecer parcerias de egual para egual e sólidas.
É aqui que entra a inteligência emocional. Ela parece algo inútil para o brasileiro, mas na verdade seria uma de suas maiores aliadas, já que o Brasil é um país emotivo. Inteligência emocional é a abilidade de perceber o que se sente, identificá-lo, compreendê-lo e aprender a administrá-lo.

Nem sempre uma pessoa se dá conta de estar sentindo algo. Um animal, por exemplo, um cão, ao encontrar outro cão sente/sabe se este para se brincar, evitar ou se precaver. Nós humanos temos esses mesmos instintos, amplificados com mais informações e ainda por cima podemos nos perceber. Mas todas essas informações permanecem no escuro da inconsciência e não são usadas porque a pessoa não se dá conta de tê-las. Só após ter reconhecido o que se sente é que se pode usá-lo.

A inteligência emocional insere o sujeito (quem tem emoções) no jogo. Se o jeitinho brasileiro é o radar que percebe o outro, a inteligência emocional é a capacidade de se perceber e nisso reconhecer nosso verdadeiro eu e o do outro, podendo, dessa forma, encontrar soluções inovadoras e criativas – win-win – para ambos. No jeitinho brasileiro há sempre alguém que perde, que seja seu chefe, seu vizinho ou a comunidade. Na inteligência emocional há sempre um ganho que beneficia o coletivo, porque esta pressupõe aquele salto quântico para além do egocentrismo, gerando relações humanas sustentáveis e enriquecedoras. Assim como o jeitinho brasileiro nasceu em tempos de opressão, adquirir inteligência emocional abre as portas para os novos tempos de libertação.

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