10/10/2012

A faca no abraço: quando uma pessoa querida te machuca inesperadamente

Adriana Tanese Nogueira


Todos devem conhecer a situação na qual de repente, de forma totalmente inesperada e indesejada, uma pessoa querida age de modo a nos prejudicar. Nada em seu comportamento ou na relação entre vocês fazia imaginar que pudesse dar tamanha zebra. Mas deu. E você se encontra sangrando e atônito. É exatamente como se no meio do abraço havia uma faca e esta finalmente penetrou sua carne. E a pessoa o que faz? A pessoa não se faz de entendida. Ela desvia de encarar o golpe emocional que está visível em sua reação, não reconhece o ocorrido, "não o percebe". Nisso, sua dor duplica de 

intensidade. Em linguagem vulgar, fatos assim se chamam de "sacanagem". Mas em sua cabeça não faz sentido, porque você tem uma relação boa com essa pessoa, você acredita que há amor entre vocês, você gosta da pessoa, tem estima por ela. Você não se conforma, briga por dentro com a dor, a raiva e a aparente indiferença do lado de fora, uma indiferença porém mascarada por "normalidade". A pessoa continua se relacionando com você. Você está só em sua dor. Sente-se injustiçado mas não é reconhecido como tal, não há esclarecimento sobre o que aconteceu e muito menos desculpas.

O que é isso? 


Vamos começar com distinguir as situações. Há pessoas problemáticas, visivelmente com  dificuldades, ambiguidades e inseguranças. Podem ser boas, ter lindas qualidades e boas intenções, e inclusive gostar de você. Diante de pessoas assim estamos mais atentos ou a situação por si só é mais transparente e com as cartas na mesa o jogo é limpo, não importando se difícil. Essas pessoas, geralmente,
não possuem uma faca na manga. Não são essas de quem estamos falando.

Quero apontar para aquelas situações exdrúxolas e paradoxais onde uma pessoa com a qual você não brigou e que não manifesta nenhum sentimento explícito negativo para com você adota comportamentos que te prejudicam. O dano é direto e como a pessoa não tem retardo mental só podemos concluir que o dano é intencional. 


A reação primeira da maior parte das pessoas que passam por isso é de se debater, seja chorando, brigando ou falando. Aconteceu algo errado, mas como do outro lado não se reconhece que houve um problema real, a briga acaba ficando interna. Vira um conflito interior que nunca encontra desabafo externo - porque não o permitem. Ficamos assim presos numa teia psicológicas para a qual aparentemente há duas opções somente: ficar de cara fechada e esperar a hora de fazer as contas ou engolir o sapo e aceitar a versão oficial do outro, isto é a falta de qualquer reconhecimento. Mas há uma terceira via, e esta consiste em reconhecer que o que ocorreu é a manifestação do que a pessoa é. Que isso provoque uma deflagração interior de susto e dor:
paciência. É isso mesmo. A pessoa mostrou a você quem ela é. Consegue aguentar esse golpe?

Que a pessoa não seja isso, é uma verdade. Mas a nova verdade, mais difícil às vezes de digerir do que a dor sofrida, é que o que conhecemos da pessoa não é tudo o que ela é. Estamos descobrindo que a pessoa não gosta da gente. Ponto. Tão simples quanto traumatizante. Essa pessoa pode ser teu pai, tua mãe, teu irmão, tua melhor amiga, teu marido, tua esposa. Eles estão te mostrando uma cara que você não conhecia... e que eles não querem também reconhecer! Daí a ambiguidade da situação.

Quando se comete um erro, pedimos desculpas. Se há orgulho demais fica difícil, mas você pode enxergar no conflito que ocorre com a pessoa que ela reconhece que houve um erro. Algo aconteceu. Nos casos, porém, em que não existe esse reconhecimento, ou seja quando te enfiaram a faca e ela voltou escondida na manga da pessoa que você achava amiga como se nada tivesse acontecido, aí a coisa complica. De que lado está essa pessoa? Qual é a dela?
Quem é ela?

Há duas explicações interligadas. O que você viu da pessoa é sua sombra (Jung). Em geral, essas são pessoas que se fazem de mais boazinhas daquilo que conseguem assumir ou que de fato são. Os nãos que não disseram (para você) se acumularam e de repente explodiram. Não souberam se posicionar, dizer o que pensam, disfarçando tão bem que você não percebeu que havia algo por baixo. Esse tipo de pessoa pode temer o conflito ou temer ferir (até porque pode gostar mesmo de você), mas sobretudo elas tem baixa auto-estima, por isso não se posicionaram.

Essa explicação se sustenta até um certo ponto porém (sinto muito, Jung). Uma sombra que se convém é aquela que não só uma hora aparece como uma hora é assumida, é vista ou pelo se torna pública, algo sobre o qual os outros falam. E somos descobertos. Existem esses casos também, e são muito positivos, porque sombra reconhecida é sombra integrada. Sombra integrada = empoderamento individual.


Há porém casos que são mais insidiosos, mais sutis e asquerosos. Há uma sombra, sem dúvida. Mas essa sombra parece estar sendo alimentada por outra coisa. Vamos chamá-la de personalidade n. 2. Há outra pessoa na pessoa que você conhece. Uma pessoa que vive na sombra e que nela se mantém escondida. Essa pessoa pode ter a natureza de um sacana incapaz de amar ou empatizar ou pode ser que tenha algo contra você te dando o troco na primeira ocasião. Mas o troco do que?


A personalidade n. 1 que você sempre achou que foi a pessoa legal com a qual tem uma boa relação, pode muito bem ser sincera. Mas se a personalidade n. 2 estiver com outra agenda na cabeça e for forte o suficiente ela vai intervir uma hora ou outra. A personalidade n. 2 é tão verdadeira e real quanto a n. 1, a oficial.


A personalidade n. 1 pode não gostar da n. 2, que percebe intuitivamente em si, e ter  vergonha dela. Mas essa relação, visto os resultados, não é transparente. Aí que entra a sombra da personalidade n. 1, que é por onde entra em ação a personalidade n. 2, com a cumplicidade tácita da n. 1.

Caso 1. Um rapaz com complexo de inferioridade que sacaneia o irmão mais velho na hora da fraqueza desse. Ele está pegando dois coelhos com uma só cajada: descarrega um possível ciúmes latente (apesar de nunca ter sido notado) e dá voz à personalidade n. 2. Se não houvesse cumplicidade o erro seria mais cedo ou mais tarde abertamente reconhecido e o irmão mais novo desabafaria ou diria algo em sua defesa. Mas como ele se faz de sonso, é evidente que há mais debaixo do tapete.

Nascemos para nos aprimorar. Carregamos muitas pessoas em nós. A psique, como disse James Hillman recuperando Jung, é um conjunto de elementos e não uma coisa compacta e única como se pensava cem anos atrás. Temos um povo interno. Se ficarmos na psicologia junguiana, diremos que essas personalidades são componentes da psique, que por isso é coletiva. Se formos para as terapia de vidas passadas diremos que essas são nossas personalidades passadas. Acho essa abordagem muito mais simples e prática.


Portanto, vamos imaginar um cara que foi um mercenário, um bandido, um tirano, etc., alguém com muitas vidas onde experimentou insensibilidade e egoismo. Ele vai evoluindo e ama mas enquanto as personalidades anteriores marcadas por insensibilidade e egoísmos estiverem ainda fortes, ele amará mas de forma ambígua. A personalidade n. 2, o mercenário egoista, uma hora vai tomar o controle e isso aconteçará quando a personalidade n. 1 não terá forças para ser o cara bom que quer ser mas também não terá forças para legitimar seus limites e sobretudo seu sentimentos negativos (a sombra). Essa fraqueza abre as portas ao mercenário interno, com a faca na manga.


Caso 2. Você teve várias vidas de amizade com um cara, nessas vidas ocorreram várias rixas, algumas bobas outras sérias. Há um padrão de inveja. Você, geralmente, foi quem se deu bem. Agora esse seu amigo é seu irmão, irmão que você ama e aparentemente ele também te ama. De repente, num momento seu de fraqueza, por exemplo seu casamento fracassou, você perdeu o trabalho e espera o suporte emocional de seu irmão, ele lhe dá as costas. Ainda por cima, ele fecha um olho sobre as fofocas que a esposa dele espalha sobre você e que envenenam o ambiente social no qual você vive. Se supomos que seu irmão tem algo contra você, sua reação faz sentido. Mas como não houve nada nessa vida, nem uma briga sequer que possa justificar tamanho prejuízo ou temos que supor que seu irmão é uma pessoa psicologicamente perturbada ou aqui que se trata de uma resolução de contas de outra vida. Para admitir que umaa pessoa é altamente perturbada em termos psicológicos temos que conferir os mesmos sintomas em diversas situações e não somente com uma pessoa em particular, você.


Caso 3. Um homem nasce de uma mulher que de uma forma ou de outra interfere negativamente na vida dele. Com a intenção de querer ajudar, ela regularmente complica sua vida familiar. A postura dela é de vítima, de boa pessoa que quer fazer o bem, que ama o filho e quer ajudar. O comportamento é invadente, o resultado é um desastre. O homem aguenta a mãe, briga com ela mas tem carinho por ela, o que o mantém preso na teia de aranha dela. Assim, ele continua se deixando envolver pelo que ela diz e sugere. Até que um dia o homem, desesperando diante de mais um golpe da mãe, e tendo bebido até não aguentar mais lhe pergunta: "Mãe, você me f. a vida inteira! Por que, mãe? Por que?" Não pode haver pergunta mais sincera.



Temos, aqui também duas personalidades. A n. 1 quer ser boa, inclusive muito religiosa e temente a Deus; a n. 2 age na surdida, e neste caso é bem poderosa já que sua ação é constante e não episôdica. Da personalidade n. 2, a n. 1 nunca assumiu a paternidade. A n. 2 continuou fazendo terra queimada de qualquer chance do filho ser feliz, até quando não havia mais nada para prejudicar. O que está por trás desse drama? Numa regressão você descobre uma história triste. Mãe e filho haviam eram inimigos em outra vida. A mãe, em particular era o inimigo ativo, um indivíduo extremamente raivoso que causou a briga final e sua própria morte cheio de ódio e desprezo por aquele que é hoje seu atual filho. Por que os dois estão juntos hoje? Suponho que seja para curar uma ferida porque ela tentou amar e ele amou apesar de tudo. Mas a personalidade n.1 da mãe era fraca demais diante da n. 2 que ainda carregava muita negatividade. Esse ódio apareceu nas entrelinhas, pingando dia após dia, desde o momento em que deu de mamar ao filho.

Resumindo uma conversa que poderia se extender por muitas págínas, quando receber uma facada no peito durante um abraço saiba que está descobrindo mais uma personalidade de seu/sua amada. Alguém com quem você tem algo a resolver, se a faca for encontrada e sua propriedade assumida.

6 comentários:

  1. eu sou uma "sombra integrada".
    sério! já me expus muito, levando outras pessoas comigo. eu até faço que não vejo, mas aguento muita coisa.quando tô saturada de "subentendidos", eu explodo e dou a cara a tapa.a pessoa que eu exponho geralmente vem com um "se quiser me procure e vamos conversar", quando na verdade ela já sabe que eu descobri qual é a dela, e que eu não tenho porque procurá-la, "nem a pau". tenho desconfiômetro dessas pessoas que de cara dizem que querem ser sua amiga, e por trás ficam criando manobras pra te excluir das coisas...uma pena.
    obrigada pelo post, Ana, sei exatamente como é viver isso..posso publicar no meu blog?

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  2. Já tem algum tempo que sigo seu blog...E por mais que eu leia sempre encontro um texto que ainda não havia lido (ou talvez lido, porem reinterpretado - dando a sensação de ser novo).
    Esse, particularmente, parecia estar reservado, escondidinho em um canto pra eu achar na hora certa. Obrigada.

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  3. Estou passando por isso e estou sofrendo muito

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  4. Reconheci no texto a minha vida com meus pais e irmão. Marila

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