08/12/2012

Brasil e EUA: diferentes concepções diferentes resultados




Adriana Tanese Nogueira

Países são como pessoas. A forma como foram concebidos e gestados, como nasceram e foram criados faz toda a diferença. Há, como para as pessoas, características inatas da personalidade, as quais porém, como diz hoje a epigenética, podem ou não ser ativadas pelo ambiente. Portanto, dizer que uma doença ou um traço é hereditário não significa que o inevitável aconteceu, significa que o ambiente e o estilo de vida trouxeram à tona aquela doença ou aquele traço do caráter.


Brasil e EUA começam diferentes desde suas concepções. O Brasil foi concebido como supermercado gratuito para a nobreza portuguesa extrair riquezas e levar para casa. Os EUA foi gerado como a nova casa dos sem-casa e sem-lugar. O Brasil veio à existência para ser a fonte de recursos para que os ricos mantivessem suas riquezas; os EUA é inventado como o país dos rejeitados e pobres que buscavam comunidade e qualidade de vida.

Consequentemente, a gestação dos dois países seguiu trajetórias diversas. O Brasil passou por uma gestação de baixo risco, significando a convivência dentro do possível com os indígenas locais, sua manipulação e conversão para conseguir ajuda ou evitar estorvos no caminho para o ouro e tudo o que brilhasse. A gestação dos EUA foi de alto risco, equivalendo a luta a ferro e fogo com os nativos pela ocupação de suas terras. Os colonos americanos não tinham para onde voltar, se tratava de ganhar as terras ou morrer. Ambos, portugueses e ingleses irmanaram-se em sua visão européia dos nativos, vistos como selvagens subdesenvolvidos, aliviando a consciência de quem os matava.

O cristianismo em ambos os países foi a mãe fiel ao pai colonizador, cumprindo seu papel na submissão dos rebeldes. Mas, enquanto no Brasil, o catolicismo com sua moral do pecado e da confissão, deu mão forte ao controle da coroa portuguesa sobre os indígenas e a nova classe de mestiços e pobres que vinha surgindo, nos futuros Estados Unidos, o protestantismo trouxe a ética do trabalho que estabelece que a relação com Deus não acontece via oração e caridade mas está visível no resultado do trabalho. Você tem sucesso profissional e portanto dinheiro? Entao Deus está com você. No catolicismo, ao contrário, ser amado por Deus não equivale a ter uma boa conta bancária. Se a confissão católica oferece as bases religiosas para o fenômeno da impunidade e o padre que absolve vira uma metáfora para o suborno que dissolve obstáculos, o protestantismo calvinista que chegou nos EUA não tem nada disso. Para ele, Deus está presente na consciência individual, não há desculpas e não há mediatores. Você errou, você paga. Ponto. E é o que o imigrante vive a toda hora: uma regra violada é uma punição na certa.

O nascimento de ambos os paises também foi bem diferente: um nasceu de cesárea eletiva, outro de parto natural. No Brasil, a decisão de separar-se de Portugal veio da coroa brasileira, sendo  uma decisão tomada do alto e aplicada sobre uma população que pouca participação ativa teve. Nos EUA, o que hoje chamaríamos de classe média deu um pontapé no traseiro dos poderosos do antigo mundo. Foram pessoas comuns que lutaram para liberar-se do jugo (econômico) que impedia seu crescimento (econômico).
No tempo que se seguiu, observam-se as repercussões desse início. Se um povo utilizou os indígenas para fazê-los trabalhar em seu lugar, o outro lutou contra os indígenas para pegar suas terras e nessa luta atroz a cultura nativa chegou a ser respeitada e a penetrar a sociedade americana, tanto é que é uma águia que a representa, é sob os auspícios do Grande Espírito que os EUA surgem como nação. Negros escravos foram trazidos para que os novos americanos pudessesm prosperar e lucrar, e iniciou-se o capitalismos. Negros escravos foram introduzidos no Brasil para que a coroa portuguesa e  os latifundiários seus aliados pudessem lucrar. O resultado disso é que “cidadania” é no Brasil um conceito ainda em estruturação, mal se conhece seu significado. Nos EUA, cidadania é a base das relações entre cidadãos e instituições.

Nasce assim, no hemisfério sul, um povo passivo que segue a liderança de ricos e poderosos; enquanto no norte deselvove uma população ativa que briga pelo que quer. Um mamou da baixa autoestima, o outro mamou da super autoestima, produzindo o ego inflado que hoje o mundo inteiro conhece (e lamenta). Como reverter esse processo? Não é possível mudar a história, mas conhecendo-a podemos endireitar o presente e construir um futuro melhor. 

(Continua num próximo artigo: “Eu brasileiro, tu americano: aprendendo e trocando”)

Adriana Tanese Nogueira
ATN Humanize.com – Desenvolvimento humano
561-3055321

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