12/12/2012

Sonho sobre como funciona o casamento patriarcal

Adriana Tanese Nogueira

A sonhadora assiste à seguinte cena:


Há uma moça que tem três pretendentes. O primeiro era jovem como ela, o segundo andava sempre com um amigo com o qual fazia tudo, o terceiro era um homem bem mais velho. Ela se encontra com o primeiro, rapaz legal. Sendo os dois jovens se sintonizam bem. Em seguida, deveria se encontrar com o segundo, que porém estava malhando junto ao amigo e portanto não aparece. Então, irrompe no local o terceiro meio apressado e decidido em ter o que queria. Ele pega as mãos da moça que parecia uma menina perto dele. Ela não ia muito com a cara dele, mas ele assume a liderança e ela, por ser jovem e ingênua, segue. Nada de mal parece acontecer... O homem a pega pelas mãos e inicia uma espécie de dança. Na dança a dois, como se sabe, o homem leva. Ao terminar a dança, surge uma nova mulher. Ela parece mais velha do que a moça e se encontra ao lao do homem, como mulher dele. No chão está uma figura humana escura, como se fosse uma folha grossa de papelão, deitada no chão. O homem diz: Isso não existe mais.

Análise do sonho:



A moça representa a mulher,  jovem porque inexperiente. É ingênua porque se deixa levar pelas aparências, pelo charme da superfície, pelo antigo jogo da sedução.

O primeiro homem representa o novo homem, jovem ainda ou seja ainda imaturo. É o modelo masculino do futuro. Por ser novo ainda não tem força o suficiente para "fincar".

O segundo homem representa o homem narcisista e egocêntrico, aquele cujo interlocutor não é seu feminino interno (e portanto nem o externo) mais outro igual a ele. Este é o homem mentalmente homossexual, que transa com as mulheres mas ama mesmo o mundo masculino (o próprio). Os valores do feminino lhe são estranhos. É um homem que está ocupado consigo mesmo.

O ser mais velho do terceiro homem representa sua força. O experiente "sabe como se faz", funciona segundo um modelo testado e retestado. É o homem que se insere no padrão masculino tradicional e o atua com toda a autoridade que vem de milênios de tradição. 

O homem mais velho que se une à jovem representa o modelo patriarcal de relacionamento onde ele é quem sabe e quem lidera e ela é quem é instruída e é levada. Ela entrega as rédeas de sua vida a ele. Ele é chefe, ela é seguidora. Para que esse modelo funcione, ela precisa ser "mais jovem", o que não significa necessariamente ter menos anos mas manter aquela atitude mental e emocional da jovem ingênua que pouco sabe, muito crê, sonha e confia. Com os anos, esse "ser jovem" significa simplesmente "ser (manter-se) imatura".

Sabendo o que quer, o homem mais velho pega as mãos da moça: as mãos representam o nosso operar. Ao pegar as mãos de alguém você inviabiliza a pessoa de fazer qualquer outra coisa a não ser "estar nas tuas mãos". De fato, quantas mulheres se realizam como pessoas dentro de casamentos patriarcais?

Ele toma as mãos dela e a leva (não a convida) para uma dança: a dança da corte. Ele é mestre, sabe muito bem o que faz. Braços levantados, em volta dos corpos, voltas e meia voltas, passos cruzados. A dança não dura muito (como não dura muito o tempo gostoso do namoro quando "ele era diferente"). No final dela, o casal está criado, a moça de antes não existe mais e no lugar dela tem uma nova mulher.

Não haveria problemas se não houvesse uma sobra. A operação de acasalamento produz uma sobra: a SOMBRA. A sombra da mulher que o homem declara "não existir mais" é a pessoa de antes com tudo o que dela não se encaixa na presente relação. Para que excluiría-se algo se não porque esse algo não cabe no modelo, na situação, nas regras do jogo?

Lembramos que no sonho, a moça não estava muito interessada no homem mais velho, entretanto agora dessa falta de desejo inicial não restou mais nada, assumiu a posição de mulher dele, a mulher que o homem criou (Eva saindo da costela?). Da identidade inicial não nada restou, só uma sombra.

A sombra das mulheres formatadas para caber no casamento patriarcal contém então os resíduos de sua personalidade originária que foram eliminados para que a formatação funcionasse (ou seja o casamento se sustentasse). Entre esses resíduos encontramos: sua independência, seu pensamento e seus desejos.

4 comentários:

  1. que pena que ainda hoje existam mulheres assim, seja por motivos emocionais ou financeiros... :(

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  2. Isto não foi um sonho, foi minha realidade, inclusive em não me interessar no início. Mas, às vezes, de tempos em tempos, tinha forças para encarar minha sombra, e então vinham as brigas. Infelizmente, há pouco tempo cheguei a conclusão que ele era misógino (na minha interpretação), pois a culpa de todos os nossos problemas era minha, chegando até a me culpar por não fazer atividade física. Ele vivia me dizendo pra mudar, então depois de mais de uma década eu mudei, só que não era bem pra o destino que ele esperava, eu me "re-conheci" e me fortaleci. Como ele não pretende mudar (já que ele nunca acha que errou), infelizmente pra ele e pra nós, vamos seguir cada um ao seu modo. Fico torcendo pra que ele consiga lidar com suas dores, trabalhando seu interior, para que enfim consiga ser feliz.

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  3. Eu torço para que vc reencontre a si mesma e se empodere. Boa sorte!

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