27/01/2013

O PROCESSO PSICOLÓGICO DA MORTE



 
Adriana Tanese Nogueira

Se essa é nossa única vida e se pó somos e pó voltamos a ser - pelo menos no que diz respeito ao nosso corpo – que é o que e define a identidade da enorme maioria das pessoas – então a morte é apavorante. Num tempo de cristãos tradicionalistas e atéus/céticos, morrer é em qualquer caso um evento assustador. Enquanto isso, a medicina tenta de todas as formas segurar a vida, postergar seu fim - custe o que custar. A perspectiva de vidas passadas oferece uma nova visão da morte. Que esta seja um desprendimento não há dúvidas, mas ao deslocar, ou talvez melhor, ao ampliar nossa identidade para além do ego - algo bem próximo do que Jung chamava de Self - o desprendimento resulta mais fácil e menos pavoroso.

Na terapia de Deep Memory Process de Roger Woolger, a morte é considerada um momento focal do processo terapêutico de vidas passadas, e por dois bons motivos. Em primeiro lugar porque todos os casos confirmam o que os tibetanos já sabiam desde o século VIII a. C. (vide o Livro Tibetano dos Mortos), ou seja que no momento da morte ocorre o fenômeno da consciência amplificada a qual "imprime com exagerada intensidade os últimos pensamentos, sentimentos ou sensações no veículo - quer o chamemos de alma, espírito, corpo sutil ou akasha - que é transmitido para uma vida futura." (Woolger, As Várias Vidas da Alma. Um psicoterapeuta junguiano descobre as vidas passadas, p. 180). Essas impressões serão reeditadas na vida seguinte pelas novas experiências que a pessoa for viver, sendo que de alguma forma irão limitar o raio de ação da nova vida porque vão funcionar como um centro gravitacional em torno do qual vai rodar a nova vida ou alguns aspectos significativos da mesma. 

Toda sessão de regressão passa pelo momento da morte. É frequente, inclusive, que a pessoa comece a regressão se vendo no momento da morte, porque é de lá que vêm as feridas cujos sintomas estão presentes nessa vida. Em geral, como todos sabemos, são os eventos violentos, indigestos, difíceis de processar que produzem rastros. O mesmo vale em qualquer vida. Portanto, as mortes que mais precisam de cura são aquelas que não gostamos de lembrar. Retornar lá, no aconchego de um consultório com um guia capacitado e confiável, permite curar sintomas que sobreviveram a todo tipo de terapia médica e psicológica. 


O segundo motivo pelo qual vale a pena reviver a morte está relacionado com o ganho produzido pelo desapego. Ao processar e curar uma morte, liberamo-nos do apego ao personagem daquela vida. A personalidade que carregávamos por causa de seus assuntos pendentes é finalmente superada: integrada-curada-superada. E um novo capítulo de nossa vida se abre. Por exemplo, o medo do avião que não tem fundamento nessa vida (ou seja,, nenhuma experiência pessoal ou relacionada a pessoas próximas) está fincado na experiência de outra personalidade - uma das muitas que levamos conosco. A psíque é múltipla. É preciso abadonar o conceito monolítico de uma personalidade só. Como disse Jung, o ego é um complexo suficientemente forte para se manter sólidamente integrado, mas não é o único habitante de nossa vida. Portanto, dar serenidade ao tristonho lá no canto, dar paz ao violento no outro canto e sossego à apavorada no terceiro canto vai fazer bem a todo o conjunto psíquico.


Processar a morte conscientemente, como acontece numa sessão de regressão, permite também que fantásticas revelações aconteçam. Visões arquetípicas, compreensões profundas, iluminações sobre o além, o sentido da vida, da nossa vida produzem na psique de quem passar por isso, clareamento, encontro, centramento e uma nova, mais madura abordagem à vida, a si mesmos e aos outros.

10 comentários:

  1. Drª. Adriana, boa noite! Adorei realmente seu blog. Sou formado em direito, mas psicologia também é uma área incrível que um dia também quero me aprofundar. Faço terapia a um tempo, quase um ano (sendo que com minha psicóloga atual faz relativamente pouco tempo). Vi uma matéria relativamente antiga sua onde você falava sobre a questão da mentira durante a terapia. Confesso a você que, apesar de adorar minha psicóloga (foi a que mais me aproximei e tudo), enfrento resistências ao fazer o processo. O que sinto atualmente, apesar de adorar o espaço que tenho com ela, é que as vezes eu duvido muito do que ela me diz. Não das teorias, das concepções, mas geralmente sinto que ela me diz coisas para me aliviar, me acalmar. Fico com receio de que ela invente até situações enfrentadas por ela ou que ela já lidou, para me deixar tranquilo. Isso, acho, prejudica um pouco no processo. Estou pensando em falar com ela sobre isso. Você acha que isso pode ser uma resistência minha? É algo normal no processo de terapia?

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  2. José, converse abertamente com sua terapeuta. Se não houver essa abertura, a terapia não progrede. Se vc acha que ela está tentando te acalmar, fale isso para ela. Talvez vc sinta que precisa é pegar fogo. Vou escrever um novo post a respeito desse tema que tenho tratado recentemente num outro trabalho.
    Abraço

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  3. Drª Adriana, não sei se quero que pegue fogo, mas a sensação, às vezes, é que ela está muito do meu lado. Não sei bem. As vezes, quando ela fala que já, na vida dela, passou por situações parecidas com as minhas, fico me perguntando se realmente ela viveu aquilo ou não. Por isso eu te perguntei se o terapeuta pode mentir em terapia. Mentir para conduzir o processo. Eu a adoro e quero realmente falar com ela sobre isso. Acho que tenho essa abertura. Quero sentir a terapia como uma oportunidade de crescimento pessoal e algo positivo, construtivo. Mas com esses sentimentos, termino por achar que aquilo é algo artificial, mesmo eu já tendo descoberto que algumas coisas que ela me diz são verdade. Acho que com qualquer profissional eu estaria tendo esse sentimento, não sei.

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  4. José, se o terapeuta mentir, então não vale nada! A questão é que embora o terapeuta possa falar algo de si (alguns sequer fazem isso) devem ser capazes de não transformar a sessão numa conversa de bar entre amigos. O que cada um viveu é o que cada um viveu, diferente para cada um, porque cada um é único.

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  5. Boa noite Adriana,

    descobri hoje o seu blog - num outro post, pesquisando sobre manipulação - e estou a gostar muito. Obrigada pelo seu trabalho esclarecedor.

    L. Almeida

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  6. Oi Adriane...Acredito que a reencarnacao e um fenomeno mal compreendido e Allan Kardec propagou essa crenca...Veja meu eu psicologico e unico nesta vida e vai terminar junto com a morte...Dizem que o eu verdadeiro e eterno sobrevive a morte...Mas como pode algo eterno nascer ou morrer??? bjs

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  7. Seu eu (=ego, sua pessoa, sua personalidade) morre, mas vc não é feito só dela, não é só ele. Seu Eu é maior do que seu eu... A reincarnação é uma crença que existe há muito mais tempo do que Allan Kardec.
    Abraço

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  8. Oi, Adriana. Tenho lido seus livros sobre parto e empoderamento e através do livro "Conte-me seu parto e lhe direi que deusa é" descobri seu site. Eu fiz terapia por um tempo (hipnose ericksoniana e Constelação Familiar) e as experiências que eu tive com regressão foram realmente impressionantes. Eu tinha uma dor do lado direito do meu pescoço que simplesmente acabou depois de recordar uma vida em que morria com uma lesão nessa região. Parabéns!

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    1. Que bom, Clarissa! Obrigada pelo depoimento. :-)

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