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Repensando o tempo psíquico

Adriana Tanese Nogueira


Em seu livro As Várias Vidas da Alma. Um psicoterapeuta junguiano descobre as vidas passadas, Roger Woolger questiona (capítulo 5) a concepção do tempo que a linguagem culta e popular carrega inquestionada. De fato, "concebemos ou imaginamos o tempo espacialmente" (p. 75), o que significa que um evento está distante, que o tempo é longo e que voltamos a uma vida passada como se volta caminha para trás para uma localidade que ficou longe.

No lugar dessa concepção do tempo que é linear e causal, Roger Woolger propõe outra baseada na experiência do aqui e agora. A síntese de
Roger recorre a diversos autores, entre eles o escritor argentino Jorge Luis Borges que, em sua história The Aleph, fala de um lugar que os místicos alcançam onde "a energia é tamanha que a pessoa ali situada é capaz de ver toda a história humana num instante." (p. 75) À inspiração literaria, Roger une a perspectiva gestaltista de Fritz Pearls que enfatiza a importância suprema do "agora" e das histórias inacabadas impregnadas no momento presente, se somente soubermos lê-lo e estar nele. O "aleph" é o "agora" da psique.

Outros pesquisador de extrema importância na psicologia transpessoal, Stanislau Grof discute a psique como entidade "multidimensional" e elabora um conceito de complexo mais preciso, segundo Woolger, daquele junguiano. Para Jung, um complexo é um conjunto de imagens e ideias conglomeradas em torno de um núcleo com forte carga emocional. A essa definição, Grof, em Beyond the Brain, apresenta o conceito de "sistema de experiência condensada" (COEX): 

"Um sistema COEX é uma constelação dinâmica de memórias (e material de fantasias a ela associado) de diferentes períodos da vida individual, tendo como denominador comum uma grande carga emocional de mesma qualidade, intensa sensação física do mesmo tipo, ou o fato de compartilharem alguns outros elementos comuns."

E continua:

"Não é raro uma constelação dinâmica compreender material de diversos períodos biográficos, do nascimento biológico e de certas áreas do reino transpessoal, tais como recordações de uma encarnação passada, identificação animal e sequências mitológicas."

Por sua vez, um dos maiores nomes da hipnoterapia, Milton Erickson, frisa como alterações mínimas no fluxo da consciência levam a novos e inesperados caminhos, histórias, portanto, com novas experiências; emoções, portanto, emergindo. O panorâma interno da psíque é extremamente sensível e flutuante, dinâmico e em movimento, não sólido e em sequência causal.

Como entender então o tempo psiquico e como funciona? Wolger, se libertando da herança positivista do pensamento causal ainda presente na psicanálise de Freud e Jung (a famosa metáfora do analista como arqueologista que cava camadas sempre mais profundas da psique é exemplo dessa visão cumulativa, espacial e causal do tempo), elabora um esquema totalmente diferente do tempo que ele representa como uma flor de lotus com seis pétalas que se sobrepõem. Segue uma versão imperfeita do esquema do Woolger.


Nesse modelo do tempo, todas as áreas da vida psíquica estão presentes ao mesmo tempo e aparecem à chamada conforme a ressonância simbólica que um evento externo ou interno põe em ação. Pelo menos motivo pelo qual sonhamos à noite com um elemento do filme que acabamos de ver (e não com um dos outros milhares de estímulos do próprio filme ou do dia) assim as memórias, ou melhor, as imagens na psique se seguem uma à outra, ou se aglutinam ou se repelem conforme a ressonância que partilham.

Um sintoma físico portanto é a manifestação corpórea de um sentimento, que está se reflete por sua vez num evento dessa vida, que recorda (dejá vu) algo muito familiar (já vivido), que pode estar condensado num trauma de nascimento e que pode carregar um significado mais transcendente e espiritual. 

Tudo está em tudo. Não importa por onde comecemos, podemos chegar ao complexo original, o sentimento nuclear (abandono, traição, medo, etc.) por muitas portas se prestarmos atenção e estivermos mergulhados no momento presente. É o que Silvia Montefoschi chama de presenza, sendo o objetivo da análise não a reconstrução histórica dos fatos mas o desenvolvimento e o treinamento do exercício da presença. Somente este liberta, e liberta do que ela chama de "pensados", as histórias fixas que se repentem compulsivamente, sem intenção consciente e sem fim. Como se diz na Deep Memory Process de Roger Woolger, "aquela história já acabou".  Acordemos.

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