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AS VIDAS PASSADAS EM TERAPIA

Adriana Tanese Nogueira


Um autor que merece ser conhecido é Roger Woolger, um psicoterapeuta junguiano que, como ele diz no título de seu livro, “descobre as vidas passadas”, ou seja "As Várias Vidas da Alma. O livro é genial em muitos aspectos, tanto teóricos pelas novidades e síntese que traz como pelo casos que apresenta. Não tem como evitar o impacto que os relatos provocam. É chocante e é preciso sacudir-se para analisar a questão com objetividade. Vidas passadas existem?

O objetivo da abordagem terapêutica às vidas passadas não é metafísico ou histórico, e sim curativo. O que significa que, do ponto de vista psicológico, o que importa é o que é verdade para a pessoa, para a vivência íntima e pessoal dela. Se durante a sessão, a pessoa revive o momento em que seu braço foi arrancado por um leão sendo um mártir cristão jogado no Coliseu, essa é sua verdade. E se, depois de ter revivido e compreendido essa história, levando adiante o trabalho terapêutico, a pessoa se sentir melhor e seus problemas, antes incompreensíveis, físicos ou psicológicos, encontrarem arrego, então essa sua verdade psicológica está sendo comprovada sob nossos olhos. Este é o campo da psique, não da história ou da ciência (campos nos quais, de qualquer forma, a verdade em sentido absoluto, pode também ser amplamente questionada).

O que nos remete a um outro conceito fundamental para a psicologia, pelo menos para a psicologia profunda: o poder curativo do inconsciente. Esse é uma idéia tipicamente junguiana. Jung desloca a identidade do inconsciente de ‘desconhecido-do-qual-manter-na-devida-distância” (Freud) para o “desconhecido-com-potencial-de-amigo”, de grande amigo aliás, de guia, deus, mestre. Após superar as provas de discernimento (ou seja, a jornada do auto-conhecimento), o ego pode confiar no inconsciente e acessar assim os tesouros que nele estão.

Nessa conversa com o inconsciente, o método divisado por Jung foi, além da sempre verde via regia dos sonhos (Freud), a imaginação ativa. O objetivo da imaginação ativa é permitir que uma imagem possa emergir do inconsciente e permanecer na consciência para que seu significa possa ser reconhecido. A gente “fica com a imagem” da mesma forma como ficamos em companhia de uma pessoa que apareceu em nossa vida, interessados e curiosos, querendo conhecê-la melhor. 

No método terapêutico idealizado por Roger Woolger, a imaginação ativa é transformada em instrumento dinâmico na condução da regressão. Não só se deixa a "imagem ou personagem desconhecido" se manifestar, mas mergulhamos nele e interagimos a fim de descortinar sua história. Nisso, Roger Woolger é um guerreiro: ele ensina a pegar de frente a questão e a lidar com ela, sem rodeios e até seu final feliz que só se cumpre quando todos os nós em pauta tiverem sido desatados. Sua terapia de vidas passadas chamada de
Deep Memory Process é uma forma de ir direto ao problema.

Essa que parece uma loucura, funciona. Como dizia Jung, real é o que funciona. E eu estou com ele aos mil por cento. A ficção curativa é então uma história psíquica que produz melhoras em quem aceita viver as histórias que carrega dentro. De histórias é feita a psique, esse corpo imaginal tão invisível quando presente.


Em suma, Roger Woolger expande o universo junguiano e diz o que Jung, provavelmente, não teve coragem ou condições de dizer: 1) a psique é plural (isso ele disse); portanto, 2) o que são esses outros eus? Quem são na verdade? Uma vez tirado de campo o tabu que veta o conceito de vidas passadas, encontramos um vasto mundo novo, ou melhor, antigo, muito antigo.

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