22/03/2013

Vencendo o alcoolismo

Adriana Tanese Nogueira

Há um autor americano, Jack Trimpey que escreveu um livro revolucionário sobre o alcoolismo, chamado Rational Recovery ("Recuperação Racional"), o qual deu origem a uma linha de recuperação do alcoolismo que vai na direção oposta àquela proposta pelos Alcóolicos Anônimos.


Trimpey era ele mesmo dependente do álcool por muitos e muitos anos. Havia tentado parar e recorrido ao AA. Aparentemente, muitos alcoolicos não se reconhecem no AA. Nos EUA há a possibilidade da família fazer internação compulsória e da empresa exigir a internação como condição para a manutenção do emprego. O seguro de saúde paga pelas internações, que duram geralmente 30 dias e os hospitais também oferecem programas de desintoxicação e de recuperação para os dependentes químicos. Todos eles estão baseados nos Doze Passos inaugurados pelos AA. Existem hoje em dia adaptações dos Doze Passos para qualquer droga e extendeu-se para muitos distúrbios psicológicos. Tem o Neuróticos Anônimos e até os Emotivos Anônimos.



Conforme o autor do livro, porém, a proposta do AA é indigesta para muita gente, sem contar que as estatísticas confirmam que a taxa de recuperação é baixa. Com frequência quem vai ao AA já parou, ou já está decidido a parar. Em particular, Trimpey se incomodava com dois aspectos dos Doze Passos, interligados entre si: a idéia que alcoolismo é doença e a entrega ao "poder superior".



Que o alcoolismo é uma doença é uma interpretação bastante conhecida. Nos primórdios do surgimento do AA, o que ocorreu foi, na verdade, uma transposição da visão religiosa moralista, segundo a qual um alcoolismo (e toda dependência de droga) é um vício, algo moralmente condenável, resultado de uma alma fraca e pecadora, para a visão médica, segundo a qual o alcoolismo é uma doença. Em ambos os casos, a pessoa é vítima (do diabo ou do vírus/gene). No caso da doença é ainda mais vítima. Quem tem culpa por estar resfriado? Ou por ter uma bronquite, ou o alcoolismo? Diz-se, inclusive, que filhos de alcoólatras têm 50% de chance de se tornar alcoólatras eles mesmos, ou dependentes de outras drogas, enquanto a chance padrão de todos os outros é de 25%.



Entretanto, acontece que nunca foi encontrado o vírus do alcoolismo. Ou seria uma batéria? É um gene? Onde está? O alcoolismo é uma das raras doenças das quais não se sabe de onde vem, "onde está". Revela-se aqui a contradição que desmascara a ignorância geral na qual ainda nos encontramos: se o alcoolismo é doença, há de ser visível no microscópio.



O segundo questionamento de Trimpey é aquele que muitos contestam a respeito do "poder superior". Os AA dizem que não é necessariamente Deus. Cada um nomeia esse poder conforme sua crença. Pode até ser a "energia" de Einstein. O fato é, porém, que as pessoas são o que são e na hora de idealizar o tal poder encolam nele uma imagem do seu Deus, conforme sua educação religiosa. Agora, entregar-se a um Deus no lugar de entregar-se ao álcool parece inapropriado do ponto de vista de quem está já se sentindo um fraco porque não consegue resistir ao álcool. O raciocínio não é tão ruim assim. O que Trimpey quer derrubar é a idéia do coitadinho. Segundo ele, o alcoólico é o que é porque quer. É uma escolha. Que seja uma escolha idiota, diz ele, é verdade. Mas é melhor ser um idiota do que ser um doente. Um doente não tem poder sobre sua doença, mas uma estupidez pode ser mudada. Surge então a pergunta: por que alguém faria uma idiotice dessas? Por que o alcoolismo é tão forte? Por que ele se origina e é nutrido pela busca do prazer imediato. É o que diz Trimpey.



O retrato que Trimpey traça do processo interno do alcoólico é tão realista, ou melhor, é tão intenso e psicologicamente fundamentado que mesmo quem não tem nenhuma experiência com dependência química parece que consegue ver de dentro da psique do alcoólico como funciona a dependência, como se é constantemente seduzidos, como se cede, como se é vencidos. A luta interna é palpável nas linhas do livro, a vontade, o medo, a derrota, o prazer.


A busca de prazer imediato é o motor do alcoolismo. Para superá-la, o alcoólico deve se dar conta que essa busca atende às necessidades de um "monstro" interno, sua "sombra" em termos junguianos. A besta interior não está nem aí com a saúde, com a esposa ou esposo, com os filhos, com o mundo, com nada. É um "monstro" porque quer fazer seu interesse a qualquer custo. Quando o alcoólico se dá conta que está pondo sua vida e aquela daqueles que ele ama a mercê da besta interior do prazer imediato, besta que é burra e gananciosa, então o alcoólico se divorcia dela, reconhece sua loucura e simplesmente se desfaz dela.


Muitos são os casos de recuperação completa e definitiva - nada de recaídas - que o programa do Rational Recovery permitiu. É um trabalho individual no qual a pessoa toma as rédeas de sua vida, é ela consigo mesma. Essa pessoa descobre que está sendo uma idiota e resolve acabar com isso. Simples.



O método? Desenvolver o que tradicionalmente se chama de "presença" e que Trimpey chama de AVRT (os americanos adoram uma sigla) que está para "Addicted Voice Recognition Technique", ou seja se trata de uma técnica para reconhecer a voz da "besta" interior, daquele alcoolizado interno endoidado de prazer que clama e grita por mais. Apesar de Trimpey não apelar nem por um segundo à psicologia, esse é uma atividade emininentemente psicológica. Fazemos isso toda vez que queremos mudar-nos subvertendo uma dinâmica compulsória interna que nos leva a repetir os mesmos comportamentos. No caso do alcoolismo, essa dinâmica forçada, esse autômata interno que busca o prazer imediato proporcionado pela droga sem pensar nas consequências precisa de uma mão forte para ser parado. A força dessa mão corresponde à consciência do mal que causa, e causa a você, alcoólico. Essa sua vontade de beber não está nem aí com você, com sua saúde, com seu amor e com as coisas mais sagradas de sua vida.



Gostei do livro, achei-o uma excelente alternativa ao AA. O autor escreve das entranhas e para mim esse é um marco de genuinidade. Gosto da idéia que é melhor ser idiota do que ser doente, dá dignidade à pessoa. Estupidez tem cura. Gosto de ver uma pessoa reconhecer a voz interior da besta embrutecida e resolver não ouvi-la mais. De acordo com vários depoimentos contidos no livro, uma vez que a pessoa reconhece a voz da besta a deixa de lado rapidamente e com facilidade. É como se você descobrisse que seu melhor amigo é na verdade seu pior inimigo. Antes você dava importância a tudo o que ele falava, mas de repente, a máscara cai e você, decepcionado e cansado, simplesmente o deixa falar sozinho. 



Enfim, o ganho que a Rational Recovery oferece é a possibilidade de assumir cada um sua escolha e mudar de cabeça alta. Mudar por escolha, não por derrota. O alcoolismo pode ser vencido. É só você querer.



Os outros podem ajudar? Sim, ajudam quando não querem salvar o alcoólico (isso o AA já falava). Chegar à conclusão que há um idiota interno controlando nossa vida não é agradável, deixem que a pessoa se encontre sozinha. Segundo Trimpey, também, a famosa negação do alcoólico não existe. O alcoólatra simplesmente mente. Mente que vai parar, mente que quer parar, mente que é independente da droga. Mente. Não quer admitir que deixou a besta idiota governar sua vida. Você, mãe, esposa, filha, filho, marido, você não pode fazer nada a não ser cuidar de sua vida e não deixar que o monstro do seu amado pai, marido, filho modele sua vida também. Seria estúpido, não? É cruel mas é assim que funciona. Ninguém salva um alcoólico. Só ele pode salvar a si mesmo.



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9 comentários:

  1. Oi Adriana. Este texto acima colocou-me uma nova perspectiva no tratamento de alcoolismo. Tenho um familiar que é alcóolatra e nunca concordou com a visão do AA. Tem uma postura parecida como que é colocado por este autor.

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  2. Com esta postura parou de beber e recomeçou diversas vezes, sendo que uma das pausas durou mais de 15 anos. Mas sempre achou que tinha controle sobre isto. E admite agora que retornava porque queria. Desta vez admite que quer parar definitivamente,depois de muitos prejuízos causados pela bebida.
    Assim, como esta técnica parece adequada, interessei-me em adquirir o livro, porém só o encontrei disponível nas livrarias no original, ou seja em inglês. Estou tentando traduzí-lo, mas como não tenho fluência no idioma, temo que cometa vários "pecados" que podem comprometer o entendimento do mesmo. Por isto pergunto: é do seu conhecimento se existe em andamento ou concluída, a tradução deste livro?

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  3. Complementando: tradução para o português?

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    1. Infelizmente não creio exista em português. Tente procurar em espanhol, quem sabe... É um atraso a editoria no Brasil! Boa sorte para vcs todos.

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    2. Obrigada pela sua atenção. Vou tentar encontrar em espanhol. Não havia pensado nesta possibilidade. A propósito,todos os seus textos são ótimos. Parabéns.

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  4. Olá, Adriana! Gostaria de informar, a quem se interessar, que o livro (em português) "Tire Proveito dos Seus Impulsos", de Pauline Wallin, um livro de capa amarela, encontrado nas livrarias, utiliza um conceito semelhante ao de "fera interior" para tratar impulsos e vícios e faz referência ao "Rational Recovery", de Jack Trimpey. Acredito que é uma boa opção de leitura em português!

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  5. Oi sou uma sofredora como muitos daqui meu marido não bebe de segunda e terça é uma benção de pessoa um marido maravilhoso,agora chegando quarta meu coração fica sempre em desespero,tenho um filho de 18 e uma filha de 11anos,sofrem muito também com tudo pois o pai qnd bebê vira outra pessoa fica repetindo tudo,irritando a todos xinga as vezes até a quebra coisas se um de nós não concordar com tudo o que fala e ele já disse q não é alcoólatra será q não?

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    1. Ele é. TODOS os alcoólicos negam que o são. Ele é, Dani. Não se iluda. É aqui que você mostra sua co-dependência.

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