09/09/2013

A fraqueza do alcoólico e a força de sua esposa

Adriana Tanese Nogueira



O meu post "O que fazer com um marido alcóolatra?" está tendo sucesso, o que é triste na verdade, porque demonstra o quanto o problema é difuso. Quase todos os comentários ao meu post foram escritos por mulheres desesperadas por estar vivendo com maridos alcoólicos ou profundamente feridas após ter saído de um casamento envenenado pelo álcool.

O álcool envenena. Traz à tona o podre, o que a pessoa normalmente esconde e aproveita o álcool para fazer explodir do lado de fora, machucando e infernizando a vida de todos à sua volta. O alcoólatra em crise agressiva tem feições distorcidas, é feio, diabólico mesmo, escracha com sua família e suja tudo o que te é mais sagrado para você, tenta anular sua auto-estima, a enche de culpas que não são suas e, enfim, vomita tudo o que há de ruim até se esvaziar. Então ele dorme o sono do bebê. Acorda no dia seguinte se sentindo um cocô mas o ego impede que assuma o que fez, assim tenta viver como se nada tivesse acontecido... até a próxima bebedeira, quando o ciclo se repete igual.


Mulheres e filhos que vivem com homens assim têm suas vidas reféns porque o desgaste emocional é tamanho que não sobra energia para levar adiante a vida de forma construtiva. Vive-se numa situação de constante perigo, de insegurança emocional, de dúvida. Não tem como curtir a vida e cuidar de si nesse clima. O alcoólatra monopoliza a atenção e as energias da casa. É dominador, tiranico, egocêntrico.


Para mudar essa situação é preciso começar por si mesmas: agir com força sobrehumana na direção contrária ao que o alcoólatra instituiu, ou seja focar em si. A mulher do alcoólico deve começar a cuidar de si, a recortar um espaço de paz para si, espaço que começa em sua mente e em seu coração. A mente precisa saber como funciona o problema e como agir, somente assim poderá se orientar em meio ao caos do alcoolismo. O coração precisa se desvencilhar de um fictício sentimento de culpa: você não é responsável pela bebedeira dele. Ele bebe porque assim escolheu. Liberte-se desse jogo maléfico. Você é você, ele é ele. Se ele quiser se jogar da ponte, pouco você pode fazer para salvá-lo, sobretudo se estiver bêbado.


Beber dá prazer. Se bebe para ter prazer, um prazer que custa caro, mas o alcoólico é fraco, demora a assumir que o prazer assim obtido não vale a pena porque custa caro demais. Obviamente, quanto mais poder permanecer impune (ou seja, quanto mais as pessoas à sua volta fazerem de conta que está tudo bem) mais ele vai continuar bebendo. Como em tudo na vida, a gente só muda porque não tem outro jeito. O aluno só estuda quando cansar de repetir de ano, que adianta fazê-lo passar ano após ano? Teremos um adulto ignorante e ainda por cima prepotente porque não conhece o esforço para chegar onde chegou. Assim é o alcoólico: prepotente na exata medida em que tem seus cúmplices que lhe permitem fazer o que quer.


Cúmplices são a família em primeiro lugar, a esposa, os filhos, os irmãos, os pais. Depois os amigos. Depois a mídia e o estado que permite a propaganda enganosa e mortal das bebidas alcoólicas como se fossem coisa normal, enquanto por exemplo proíbe a maconha que produz muito menos dano do álcool. É sancionado pela sociedade que beber é legal. De fato, beber é gostoso - MODERADAMENTE. Mas os alcoólicos têm uma tolerância genética ao álcool de modo que se meio copo para uns já é suficiente para sentir algo, para eles precisa de muito mais. A descida ao inferno é lenta e suave, nem parece inferno, mas uma ladeira florida e alegre. De repente, estão bêbados e incontroláveis. Como não querem reconhecer a porcaria que fizeram e sua incapacidade de se auto-controlar, massacram todos que ousam apontar o dedo e mostrar que "o rei está nu", peladão mesmo e feio pra burro.

Alcoolismo é para fracos. Essa é a verdade. Os alcoólatras são crianças enfiando a cabeça na areia. Só que são grandes, não dá mais para dar-lhes uma surra. São eles que surram suas esposas e filhos para dominá-los dentro do padrão viciado no qual vivem. Aproveitam seu tamanho, ou o tamanho de sua agressividade (amplificada pelo álcool, não se esqueçam que é açúcar que vai direto para o sangue) para acuar, fragilizar e convencer os outros (dos quais ele não quer se separar) que os errados são eles, que são eles que não prestam e o vitimizam.


Acordem esposas e filhos de alcoólatras. Despertem dessa mandinga diabólica. Vocês não são os carrascos, vocês são as vítimas. Deixem de ser cúmplices e amem seus alcoólicos de forma lúcida. Se querem ajudá-lo não escondam a verdade, nem de si nem deles. "A verdade vos libertará." Certo? Então tenhamos coragem. CORAGEM para encarar a realidade e não vos iludir mais. É o que é.


Ser alcoólico não é ser mau, é ser fraco.



Convive com um alcoólico? Precisa de ajuda?
Veja o link à sua esquerda: Grupo de suporte a famílias de alcoólicos. Participe!

12 comentários:

  1. CONVITE
    Passei por aqui lendo, e, em visita ao seu blog.
    Eu também tenho um, só que muito simples.
    Estou lhe convidando a visitar-me, e, se possível seguirmos juntos por eles, e, com eles. Sempre gostei de escrever, expor as minhas idéias e compartilhar com as pessoas, independente da classe Social, do Credo Religioso, da Opção Sexual, ou, da Etnia.
    Para mim, o que vai interessar é o nosso intercâmbio de idéias, e, de pensamentos.
    Estou lá, no meu Espaço Simplório, esperando por você.
    E, eu, já estou Seguindo o seu blog.
    Força, Paz, Amizade e Alegria
    Para você, um abraço do Brasil.
    www.josemariacosta.com

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    1. O mesmo para vc, José Maria. Cada um em seu espaço, fazendo sua parte.
      Abraço

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  2. Saudades das suas postagens, Adriana. Sempre acompanho, e fico muito feliz por vc dividir suas ideias e ajudar as pessoas a realizar o trabalho interno de autoconhecimento.
    ASS: Junior Bulhoes

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    1. Estou escrevendo menos, né? :-) Falta de tempo, não falta de assunto... Já volto!

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  3. Amei sei blog... estou numa fase assustadora...era casada com um alcoolico de fim de semana que nunca assumiu, ai depois de muito , muito sofrer, decidir me separar.... são dois meses já, mas a culpa é imensa, terrivel, acho que sou responsavel por ele estar sozinho, me culpo por nao deixa-lo conviver com a filha que tivemos tem 1 ano, esses tempos atras me pediu pra voltar e apesar de doer muito nao aceitei...... pois vejo que ele só me procura quando precisa..... mesmo assim me culpo..... esses dias me ligou falando que nao queria mais contato, que nem a filha iria mais ver...... mas ai posta que esta se sentindo abanadonado e a culpa volta... nao quero ele mais, mas me sinto culpada por ver ele numa situação dificil...... como agir......

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    1. Como agir? Mantenha-se firme. Não ceda ao canto das seréias da culpa. Vc não é responsável pelas escolhas dela, por aquilo que ele escolhe ser. Acredite em vc mesma. Fique firme.

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  4. O meu marido é alcoolico e fica muito agressivo quando bebe, nunca me tocou mas quase aconteceu 3 vezes. Para ser sincera eu estou muito desesperada porque o alcool tem sido o motivo de todos os nossos problemas e quando eu digo a ele pra ele deixar, ele fica enervado comigo. Nao sei o que fazer, eu sei que preciso de ajuda de especialistas na Area mas gostava de ter uma resposta sua a aconselharme de alguma forma. Tenho medo que a nossa relacao acabe por esse motivo e por ele me vir a bater, seria de facto um desgosto e nao sei como iria reagir depois de ele me agredir mas tenho muito medo. Me responda por favor

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    1. Moça portuguesa, a realidade é essa. O álcool torna a maior parte de seus consumidores dependentes agressivos. Vc é a principal vítima dessa realidade. Se aceitá-la irá só endossá-la. Se o agressor permanece impune de seus crimes ele não tem motivo para parar. Infelizmente, é assim que funciona. Vc precisa se fortalecer para reagir, ter atitudes pró-ativas e não passivas, e a partir daí ver como pode se proteger e mudar, dentro do possível a situação.

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  5. Isso ocorre em muitos lares, infelizmente a bebida alcoolica é considerada um hábito normal, e se a mulher reclama é por que ela é chata e mandona. No entanto, nem sempre é assim, fazer uso de bebidas alcoolicas moderadamente é aceitável, o problema é o excesso, o descontrole e mesmo que não haja agressões físicas contra a mulher ou contra a família, leva o homem a se afastar de sua família. Vem o abandono emocional, o material nem se fala. Depois de anos, vivendo assim, repenso muito o que nos faz viver uma vida tão cheia de dúvidas e incertezas. A resposta é a Codependencia. Triste mas alcoolatras tem junto deles as famílias em pedaços e o pior se negam a reconhecer a necessidade de um tratamento sério e recuperar a própria dignidade. Conseguem que suas mulheres se sintam culpadas pelo seu vício, são acusadas disso geralmente por familiares dele, não é mesmo? E se déssemos no pé, como ficariam? Temos é medo de recomeçar, o novo nos assusta, o velho já sabemos, nos acomodamos nesse inferno chamado família perfeita porque geralmente poucos sabem como funcionam um lar por dentro. Achei esse trabalho ótimo. Tenho 32 anos de casada e muita incerteza quanto ao futuro. Embora nunca seja tarde para se mudar, acredito que o antes só do que mal acompanhada deveria ser ensinada na pré escola, por que mulher é ensinada a ser a mártir, a mulher sábia edifica a casa e por aí vai.... A mulher sábia se manda... vai cuidar do seu emocional... vai conviver de maneira saudável e se o marido resolveu arrumar o álcool como amante que fique com ele. No final a gente descobre que a vida é muito curta para se importar com que os outros pensam e acham. Palpites vem aos montes. Não sei como será minha vida daqui para frente, mas gostaria de dizer você que esta começando agora pense nisso porque com o passar do tempo a situação só piora.

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    1. Excelente comentário e postura, moça de 32 anos! Levante-se e se mande. Vá se cuidar. Tome coragem. Se ame! Você merece. Enfrente a vida. Aceite que é assim, que você não é dona dele, não pode controlá-lo, que o amor não basta, que cada um tem seu tempo, que enfim viver dói.
      Mas assumindo isso tudo poderá transformar a dor em oportunidade, encontrar esperança e tantos momentos de felicidade e descoberta que poderá ter orgulho de si.
      Ame-se. Acima de tudo: ame-se e só faça o que servir para seu desenvolvimento como pessoa e mulher.

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  6. Adriana, obrigada por suas palavras tão sábias. Deus a conserve sempre assim, corajosa, e verdadeira

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    1. Obrigada pelo comentário. Luz e sabedoria a você.

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