17/10/2013

Os brasileiros nos EUA, seu dinheiro e o que não pode ser comprado

Adriana Tanese Nogueira

É verdade. Os EUA ainda oferecem a possibilidade de ganhar dinheiro. Brasileiros vem para cá em busca daquela fortuna que seu país natal não permite. E conseguem o que querem. E pagam o preço para isso. O trabalho é duro, contínuo e desgastante, mas dá retorno. "Logo" eles possuem uma casa, depois duas, uma empresa, funcionários. Dinheiro entra na conta bancária, muito dinheiro, impensável no Brasil. E agora, o que fazer? 


Sem uma identidade alternativa, sem projeto de vida, a não ser ter dinheiro, eles entram no esquema americano capitalista e materialista: ter dinheiro para ter mais dinheiro, tirar umas poucas férias nos lugares turísticos tradicionais, o "junk food" do turista alienado, e comprar, gastar. O consumo que alimenta o capital. Capital que cresce na conta corrente e que é logo gasto, muitas vezes desperdiçado.Mas isso só se apercebe quando começam a acontecer os problemas: saúde, casamento, filhos. Ou melhor, quando os problemas se tornam incontornáveis, não dá mais para fazer de conta que não existem. E eis a crise.

Dinheiro é como gasolina. Precisamos dele para fazer a vida andar. Mas para onde a vida vai é o que os valores que temos, o que somos vai decidir. Esse "o que somos" não pode ser comprado, precisa ser desenvolvido de dentro para fora. Desse recurso vêm as soluções para os relacionamentos e as respostas sobre o que fazer de bom com o dinheiro ganho. Infelizmente, essas pessoas só param para começar a pensar no assunto quando o casamento desmorona, o corpo cede e os filhos desandam na escola e no comportamento. E então, obviamente, querem pílulas rápidas para consertar sua vida.

A comunidade brasileira nos EUA (Sul da Flórida) passa boa parte de seu tempo correndo atrás do dinheiro. Vivem em casas de moderamente boas para muito boas, saem de férias e compram um monte de coisas desnecessárias... E o que fazem da vida? Os relacionamentos começam a desgringolar porque não dá para trabalhar como um cão para conseguir todos os bens materiais que a sociedade de consumo preconiza como necessários e cuidar de um relacionamento. Se os filhos chegam, então, é um desastre. Filhos são exigentes! E entra o modelo americano, mais uma vez, indicando berçários desde os primeiros meses, diversões eletrônicas e medicação caso eles "insistam" em "perturbar" em casa e na escola.

Temos assim, essas crianças maleducadas que se vêem em restaurantes e locais públicos, que gritam (porque ninguém -os pais!- as ouvem de verdade) e não sabem se comportar em público apesar de saber tudo sobre os Ipads que carregam para cá e para lá como fosses ursinhos de pelúcia. Temos relacionamentos que poderiam prometer bem mas que degeneram em traições, brigas e malentendidos que mais surgem da imaturidade de duas pessoas de fronte a uma vida maior do que elas conseguem aguentar... mas dá dinheiro! Oba, dá dinheiro - então, o resto... vem depois. 

Enquanto fazem dinheiro, esses brasileiros não tem tempo para gastar esse dinheiro que é então usado às pressas nos lugares e nos produtos que a massificação sugere, ou melhor impõe. Quem não pensa por conta própria vai ter que pegar emprestado os pensamentos dos outros, que no caso são os dos grandes monopólios do capital americano e internacional. E todos vivem felizes. Um tem 6 parafusos na coluna aos 32 anos, a outra tem seus dois amantes virtuais apesar do marido atencioso, o terceiro tem medo da própria sombra e não confia em ninguém, o quarto, muito religioso, tem um filho superinteligente que por falta de estímulos intelectuais adequados perde o rumo nos estudos, e assim vai....



A vida é muito mais do que ter dinheiro. Parece que o brasileiro nos EUA não o sabe.


2 comentários:

  1. Adriana, os brasileiros aqui no Brasil mesmo não sabem. Com o "alavancamento da economia" (que na verdade é apenas alavancamento do consumo), as pessoas têm tido mais oportunidades de realizar sonhos materiais (principalmente aquele velho mito da 'casa própria', que agora pode ser paga em 40 anos), a diferença é que aqui não há dinheiro real, é invisível, hipotético... Mas, o comportamento é igualzinho, as crianças de 6 anos aqui também já tem seus tablets e rapidamente as pessoas compram suas casas de praia e trocam de carro. O problema é que dinheiro não compra bom senso e tudo o que esses brasileiros "têm", na verdade, é irônico... pois "não têm"... é só um acúmulo de coisas passageiras, e nada do que importa de verdade.

    Acompanho seu blog há algum tempo, está na lista de divulgação do meu. Parabéns pelos textos e também por como educa sua filha, sucesso!

    Kelly Phoenix
    http://sempre-o-mai.blogspot.com

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    1. Obrigada, Kelly, e concordo com vc. Estou no Brasil e vejo o mesmo, é que lá o comportamento é mais escancarado, com menos máscaras. E, pelo isolamento que vivem,mais sofrido, talvez. Há menos distrações. O "milagre econômico" de 50 anos atrás produziu uma população de alienados atrás de status, dinheiro e aparências. Mas há muitos na contracorrente também, muita coisa interessante acontecendo por aqui :-) abraço!

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