11/11/2013

Os homens e o poder feminino não reconhecido

Adriana Tanese Nogueira

Do alto da altivez da racionalidade masculina, daquele senso de vitória sobre a emotividade feminina, daquela crença na liberdade, autonomia, força e carisma que emana do masculino pelo fato de ser masculino, o homem se sente superior mesmo quando não quer ser machista. Eligindo para si o espaço cercado do neo-córtex moldado segundo a conveniente condição de excluir outras áreas do cérebro, este homem seleciona os aspectos da realidade que endossam suas crenças. Crenças ingenuas pois ele não sabe e evita saber o poder gigantesco, glorioso, tenebroso e insuperável do feminino.


O que você não reconhece conscientemente e evita se torna seu destino, sua sina, dizia Jung. O que é escondido nos abismos da psique se faz um dia realidade viva e geralmente dolorosa. É o tapa na cara que vem daquilo que você não quis enxergar por muitos anos. Essa lei vale para tudo e para todos, mas gostaria aqui de focar sobre o tapa na cara que os homens levam pela mão daquele feminino cujo poder não ousaram reconhecer e diante do qual encontram-se inertes, passivos e indefesos.

Esse é o poder da Mãe. A mãe, que é uma mulher como mil outras e que dependendo de seu nível de evolução pessoal possuirá sua dose de insegurança, raiva e ambição recalcadas, tristezas, desejos, medos, ambiguidade e muito mais, irá passar ao filho no leite materno, no abraço, no comportamento, no olhar e nas palavras, sua personalidade e seu mundo de tudo o que está guardado, silencioso e sombrio. A mãe tende a fazer do filho homem seu homenzinho, seu príncipe, seu salvador. No bebê a mãe ansiosa, medrosa e só projeta seu sentimento de ser coitadinha, desprotegida e injustiçada. No menino que se torna garoto, ela projeta seu sonho de resgate, de ter alguém que finalmente tomará conta dela. O filho homem é a promessa de um masculino que não irá trai-la e sobre o qual contar para sempre e sempre.

Eis que o filho está amarrado, empacotado, perú pronto para o jantar de Natal. Alimento simbólico para o suporte emocional da mãe, sua vida é sacrificada ou no mínimo postergada por anos e anos porque ele precisa cuidar da mãe. Um sentimento de culpa insuportável o tomaria caso ele priorizasse suas necessidades. O desespero o sufocaria caso ele se casasse, investisse em seu desenvolvimento profissional, pessoal e amoroso. Seu lugar é ao lado da mãe, daquela mulher ele tem que tutelar, amparar, sustentar afetivamente (se não monetariamente).

Nessa simbiose vivem, mãe e filho. Ambos parados em seu desenvolvimento, ambos impossibilitados a ser feliz. E não adianta dizer ao filho que precisa cortar o cordão umbilical da mãe. Como se faz isso? Essa metáfora significa o que, concretamente? Que ele deveria simplismente virar as costas e se esquecer dela, reprimindo o que sente?  Impossível e estúpida seria essa solução. O que o filho, o masculino precisa é sair do espaço limitado de seu neo-córtex e explorar outras áreas do cérebro, aprendendo sobre as artes do feminino, sobre o poder gigantesco que as mulheres detêm desde sempre e que somente por causa de suas ilusões racionais ele não vê. E quando percebe nega porque não têm instrumentos de defesa. O racional nada pode contra o irracional.

É preciso aprender outra linguagem. É também necessária um pouco de humildade para reconhecer na pele, na carne e no dia-a-dia que assim como por trás de todo grande homem tem uma grande mulher, assim por trás de todo homem atravancado pode ter uma mãe atravancada e atravancadora.

Nem todas as mães fazem isso por querer. O que temos aqui é a realidade de um feminino passivo, matéria largada que se sente incapaz, frágil, incompetente. Inevitável que esse feminino conte com um homem para se sustentar nas próprias pernas: o pai, o marido, o filho. Perdendo pai e marido, o peso recai todo sobre o filho - sobretudo o mais velhos. Aos outros ela delega outras partes de si, dependendo do momento da vida em que os teve e das condições da relação com o pai deles.

Cabe ao filho desatar esse nó, em nome da própria vida. Ao desatar esse nó ele ganha sua verdadeira masculinidade. Estamos aqui diante de um conto de fadas ao contrário: é o jovem tendo que lutar contra o dragão feminino para poder se tornar Homem. Esse dragão feminino é feito de carência, auto-piedade, medo, passividade, depressão. Uma profunda depressão que faz sentir a vida como pesada e difícil demais. Sem entrar no psicológico da relação com a mãe o filho não pode se libertar das garras dela, que se tornam assim poderosíssimas e impiedosas.

A psicologia é uma arte feminina. Obstinar-se a não reconhecer a psicologia da relação entre mãe e filho é entregar a própria cabeça ao bandido numa bandeja de ouro. De nada adianta esse jeito masculino, as saídas, os palavrões, os amigos, as poses e as cervejas que os homens esbanjam se achando bacanas. Seu corações e suas vidas estão com demasiada frequência estagnados no lamaçal feminino dos não-ditos, manipulados por fios invisíveis, enrolados e controlados. 

E não é de se surpreender que apesar de viajar, fazer e desfazer, apesar de suas cabeças e ideias eles estremeçam depois diante das aranhas e de suas teias.

7 comentários:

  1. Aiii me arrepiei quando li esse post! Estou namorando um homem de 31 anos extremamente traumatizado pela mãe. As lembrancas da infância que ele me relata são um pesadelo. Muitas histórias de rejeição, drama, ameaças, chantagens emocionais... dominacao. O pai era 30 anos mais velho e depois que ficou "inválido" passou a ser tratado como um peso. A família se esfacelou, os pais se separaram e o peso "masculino" recaiu sobre os dois filhos. O mais velho nao tem tantas impressoes ruins, mas meu namorado traz a infância como uma fase assustadora. Nao fala com a mãe, nem com o irmao, o pai ja faleceu e ele se sente sozinho no mundo.
    O que sobra pra mim? Bem, eu vivo um relacionamento conturbado. Ouço que ele "nao confia em ninguém" e me trata como se eu fosse invisível às vezes. Outras vezes somos um casal feliz e apaixonado. Ele é inseguro e entre declaracoes de amor entoa um mantra "jura que vc nunca vai me abandonar". Dias depois diz que quer ficar sozinho e some. Depois volta como se nada tivesse acontecido.. eu tento ajudar de todas as formas mas já estou sem saber o que fazer. No momento ele ne pediu pra ficar sozinho e ele está.
    Além da mãe, foi abandonado por uma mulher depois de 4 ou 5 anos de relacionamento porque ia perder o emprego. Já foi traído tb. Sou a terceira namorada séria da vida dele e ele tem quase 32 anos. . Tem uma vida permeada por sexo casual e mini relacionamentos.. acho qur justamente por essa inseguranca ou dificuldade de confiar numa relação, sei la. Não nos falta amor.. mas acho que só amor não está sendo o suficiente.
    Qualquer contrariedade vira um imenso chilique. Sao reações desproporcionais aos acontecimentos. Ele termina comigo de 15 em 15 dias pelos motivos mais esdruxulos.... depois volta atrás como se nada tivesse acontecido. Ja achei que fosse sem-vergonhice, mas agora tenho certeza que ele nao sabe a real proporção dos seus atos. Tenho certeza que ele não tem casos.. nem usa drogas. Nao bebe, é um funcionario exemplar, esforçado e inteligente. Cumpre religiosamente o que se propoe no trabalho. Mas no relacionamento é um verdadeiro desastre.. ele nao consegue cumprir uma promessa. . Se diz que vai almocar comigo amanhã a chance de isso nao acontecer é imensa. E assim se vai quase 1 ano de promessas nao cumpridas. Casamento, estar sempre do meu lado, etc etc etc.. nenhuma promessa sai do papel no campo pessoal. Mas quando está "leve" é a melhor pessoa do mundo, o mais apaixonado dos homens. Estou ficando louca.
    Me ajuda.. o que fazer?

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  2. Com certeza vocês dois estão com um problema. Ele tem traumas e complexos e você tem o problema de estar com ele. Continuar assim aonde vai levar? Vocês precisam de ajuda profissional, cada um individualmente e como casal.

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  3. acho q meu marido ta passando por isso
    como faço pra falar mais sobre isso com voce?
    ele ja esta fazendo terapia com uma profssional que eu acredito ser competente, porem eu estou precisando de suporte pr aenfrentar isso

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    1. Para marcar uma sessão comigo, entre em contato: atnhumanize@gmail.com

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    2. Meu marido foi criado praticamente sozinho pela minha sogra, ela teve muitos namorados, mas ele sempre foi tudo pra ela
      Nosso casamento sempre foi com ela muito próxima, ligando, fazendo visitas, se intrometendo
      Meu marido sempre foi extremante tranquilo, alegre, amigo de todo mundo
      Ano passado ele descobriu que minha sogra mentiu pra ele a vida inteira sobre a paternidade, ele ficou triste mas não fez nada,continuou agindo normalmente
      Esse ano tivemos nossa filha, tive todos aqueles sintomas malucos de uma recém mãe, minha sogra arrumou um namorado que ele simplesmente odeia, ela voltou a beber e fumar
      Tem uns 2 meses que ele começou ficar estranho, ele passou a ir muito pra casa dela, depois que ela arrumou esse namorado, ficou distante num ponto que até eu estranho
      Então ele só fala mal do namorado, arruma motivos pra ir na mãe, inclusive saiu de casa pra ficar uns dias lá
      E eu?Não ganho um carinho nem um gesto de amor
      Ele chegou até a dizer que acha que não me ama mais por isso
      Quando li esse texto tive certeza que é isso
      E confesso que tem sido insuportável

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  4. olá, acabo de ler seu post e tenho certeza de todas as verdades nele publicado, mas como fazer o homem enxergar que o amor de mãe não é o único e nem sempre é o mais saudável. As mães de homens acabam criando personagem que elas manipulam. Uma mãe de 5 homens, todos castrados... O que fazer?

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    1. Através da relação deles com OUTRAS mulheres, suas mulheres. É somente outra mulher que pode levar um homem a reconhecer a influência de sua mãe na formação dele. Mas essa mudança NÃO vai acontecer por meio de uma fala direta. É um trabalho que requer toda uma outra abordagem que irá passar pela mudança na própria mulher... Análise.

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