10/01/2014

Empregadas domésticas e a perpetuação do machismo

Adriana Tanese Nogueira

Apesar de ser um recurso muitas vezes indispensável na vida corrida de hoje, é oportuno fazer algumas reflexões críticas acerca do que significa ter uma empregada* e as implicações no campo do comportamento e do desenvolvimento psico-social, individual e coletivo.

Em primeiro lugar, a figura da empregada surgiu na classe média para permitir que a mulher trabalhasse fora de casa. Em síntese, ela substitui a esposa e dona-de-casa, que se transformou então em dona-da-casa. Entretanto, o baixo salário que a empregada recebe - motivo pelo qual é tão difusa - confirma a falta de valorização do trabalho doméstico que as esposas antigamente (e muitas ainda no presente) faziam em suas casas. Em segundo lugar, a presença de uma empregada permite e mantém o
descuido e o descaso com a casa e os próprios objetos pessoais que promove não só a preguiça e a incompetência em se cuidar mas aquele mesmo modelo de privilégio que a revolução feminista quis interromper. Em suma, o que mudou com a saída da mulher para o trabalho fora de casa e a entrada da empregada para o trabalho dentro de casa é que agora as mulhers que podem pagar usufruem dos mesmos privilégios e mimo que antes elas ofereciam a seus maridos e filhos. Será isso um ganho?

A importância de saber cuidar da própria base material

Todos temos um corpo, graças ao qual estamos vivos nessa Terra. Uma das principais tarefas do desenvolvimento infantil consiste em aprender a cuidar de si, a administrar o próprio corpo, suas funções fisiológicas, seus limites e suas necessidades. Isso é indispensável à sobrevivência do indivíduo. Agora, o ambiente físico em torno do organismo fisiológico é uma extensão do corpo humano. Cuidar da própria casa deveria ser uma extensão dos cuidados que se usa para com o próprio corpo e, em definitiva, com a própria pessoa. Ter familiaridade e intimidade com o espaço físico no qual se vive, moldá-lo conforme nossa personalidade, decorá-lo, modificá-lo, limpá-lo, enfim, cuidar desse local em todos os sentidos confere segurança e conforto psico-físicos. Quem cuida do espaço é o dono do espaço. Talvez por isso que muita gente não cuida de sua casa: por não se sentirem em casa e por não se sentirem em casa na própria pele.

A casa onde moramos ou é o nosso lar ou não passa de um hotel. Para ser um lar quem nela vive deve saber por as mãos na massa e não se intimidar diante do trabalho braçal que custa mantê-la em funcionamento. A casa, assim como o corpo, constitui a base material sobre a qual se sustenta nossa vida. Uma casa em ordem, harmoniosa, limpa, perfumada, acolhedora é o espaço sagrado do nosso reabastecimento, dá o abrigo e a renovação que precisamos para ir adiante, para voltar para o mundo a cada dia e levar nossa vida à frente. A casa haveria de ser o abraço físico que se recebe ao final de um dia de trabalho. Mas esse abraço só funciona quando espelha quem e como somos. As mãos anônimas de uma empregada contratada que mexe nas nossas coisas pode trazer limpeza física mas não aquela energia renovadora, aquele aconchego invisível, aquela amorosidade no ar que somente nós, como o nosso carinho e a nossa personalidade, podemos infundir no nosso espaço.

A casa é o espelho da nossa personalidade. Não basta escolher móveis, tecidos e cores. Seria como escolher um bebê e deixá-lo aos cuidados de uma babá. Cria-se uma relação com os filhos não somente nos momentos de lazer, mas sobretudo na hora de trocar fraldas, amamentar, dar de comer, por para dormir, lavar suas roupas, limpar seus narizes, trocar seus lençóis, sair com eles... enfim, é o trabalho braçal que constrói verdadeiramente a relação. O mesmo vale para nossa casa. Ter uma empregada, ou seja uma pessoa que cuide da casa continuadamente, terceirizar nosso lar a outrem, significa abdicar de nosso lugar de donos-da-casa e por isso donos-de-casa. A empregada é diferente da faxineira que vem nos ajudar sem tirar-nos nosso lugar, com uma doméstica em casa nos colocamos no lugar de hóspedes de uma casa administrada por terceiros.


Machismo

Pergunta: por que limpar a casa é considerado trabalho de segunda categoria motivo pelo qual mães e esposas nunca foram valorizadas por fazê-lo e empregadas recebem salários tão baixos? Porque vivemos numa sociedade patriarcal cujos valores são androcêntricos (andros = homem de sexo masculino em grego antigo) Isso significa que só é valorizado o que pertence ao universo masculino: guerras, trabalho, tudo o que acontece fora de casa, que é mental e racional, pensamento abstrato e objetos sem almas. Por isso, vale mais o peão de obras do que a dona-de-casa. Ele "trabalha", ela "não". Não é o trabalho que muda, é quem o faz. O que o homem faz vale mais (questão sociológica e de gênero) do que aquilo que a mulehr faz, e o que pertence ao mundo do "espírito" (questão filosófica, psicológica e existencial), entendido como o do pensamento abstrato e universal, é superior àquilo que pertence à matéria e ao mundo concreto. Tendo a mulher sido relegada ao âmbito da matéria, ela e suas atividades foram historicamente desqualificadas apesar de que sem elas nada teria sido feito.

Então, tomar cerveja no bar com os amigos é bacana, fazer tricô ridículo. Trabalhar numa loja como vendedora é superior do que cuidar dos próprios filhos. Saber cozinhar não é tão importante quanto saber usar o computador. Ler o jornal é mais sério do que ler um românce. Falar de sentimentos é brega mas falar de futebol é o máximo. Expressar emoções é infantil mas passar uma noite rindo de piadas superficiais é fantástico. E assim vai. E as mulheres, ovelhas mais uma vez, entraram nessa, se equipararam aos homens para serem como eles, como se eles fossem a representação do valor supremo e não o outro lado da mesma doença que elas carregam.

Ao não saber cuidar das próprias meias, da própria roupa suja, ao não saber passar as próprias camisas, não se dar ao trabalho de lavar os pratos após ter cozinhado e comido, de varrer o chão das migalhas que se deixou cair comendo, de tirar a mesa e por em ordem as coisas, de dar água nas plantas, limpar os vidros e etc. o homem e a mulher estão repetindo o antigo preconceito que bane da vida "valiosa" e "digna" as tarefas domésticas sem atentar para o fato que sem elas perderiam chão sobre o qual mantêm sua postura altiva. Repetem o antiguíssimo e abusado modelo do grande homem atrás do qual há uma grande mulher que permanece na sombra. O que seria de Freud sem a esposa que criou os seis filhos, manteve a casa funcionando e permitiu ao grande homem ficar horas em seu consultório trabalhando sem pensar em mais nada do que na psique e suas armadilhas? E o que teria feito Jung sem a poderosa e rica esposa que lhe permitiu se demitir do hospital e se dedicar à clínica particular e à pesquisa? Que lhe poupava toda a preocupação com a vida material para que ele se dedicasse ao mundo do espírito? Para que possamos realizar grandes feitos no mundo do espírito ou do trabalho temos que ter alguém que segure nossa barra no campo concreto do dia-a-dia - mas esse alguém não é reconhecido ou valorizado.

Precisamos acabar com o androcentrismo que molda a vida de homens e mulheres mutilando-os de suas subjetividades ao valorizar somente o que é externo e "objetivo", o que rende lucro e é visível nas contas bancárias. Sem o aconchego de um lar, de um abraço, de uma relação nenhum magnata se sustentaria. Hoje em dia, os homens não podem se dar ao luxo de ter uma esposa dona-de-casa que os materne e acolhe e suporte sem nada pedir em troca porque tais mulheres não existem mais e quando parecem existir são ficções científicas cuja conta irá aparecer mais cedo ou mais tarde. Por outro lado, as mulheres sofrem ao se vestirem de homens e desistirem das tradicionais atividades femininas, entre elas cuidar do lar, das crianças e da comida. Elas ainda não perceberam que não é o que se faz que cria problemas mas como se faz. Libertar-se de papeis não equivale a libertar-se de tarefas. O que a emancipação das mulheres traz não é desaprender a cozinhar mas não prender o próprio desenvolvimento pessoal às tarefas domésticas. A mulher é muito mais do que uma dona-de-casa ou da-casa, mãe, esposa, cozinheira, profissional, a mulher é um sujeito que engloba em si múltiplas facetas e capacidades, âmbitos de realização e satisfação. Uma deusa das mil manifestações que pode portanto ser mãe e esposa sem se perder no papel, ser cuidadora do lar sem se resumir a isso. O homem por sua vez está ainda mais anos luz dessa compreensão, pregado na cruz da própria masculinidade entendida em termos de machismo, ele teme dar um passo para além do estereótipo e ser mais e melhor do que é e já foi.

Matéria e espírito são complementares e poderosamente promotores de consciência e bem estar quando valorizados e harmonizados entre eles no peito e na mente de cada indivíduo. Saiemos enfim dos modelos patriarcais que desvalorizam fazer a própria cama e prezam ganhar dinheiro para outra pessoa fazê-la por você. No novo paradigma: é ridículo você não saber cuidar de suas coisas assim como é ridículo colocar outra coitada no seu lugar para fazer aquelas tarefas de casa que você mulher conseguiu se safar de fazer, até porque quando a empregada não está seu marido espera que você retome seu lugar, o de empregada-do-lar. Nada mudou. É tudo uma farsa. O que ganhamos foi preguiça e ilusões.

* Note-se que estou falando de empregadas domésticas e não de faxineiras.

2 comentários:

  1. O melhor blog,artigos,de psicologia que já li até hoje. Rigoroso, prático, verdadeiramente útil e que seguramente terá ajudado muita gente. Parabéns e continue

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