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IN YOUR EYES - PELOS TEUS OLHOS


In Your Eyes, um filme sobre o encontro com o Outro interior, que Jung chamaria de Anima para ele e Animus para ela e Montefoschi de feminino para ele e masculino para ela. Este Outro traz as qualidades opostas à personalidade consciente de cada um e é desta união interior de opostos e complementares que os protagonistas do filme encontram a força interior para superar as limitações de suas vidas e personalidades até então.

"Com você sou mais forte", ela diz e "Você é a melhor parte de mim", ele diz. A diferença dos papeis tradicionais é que cada um deles sente o Outro a partir de si próprio. É uma relação interior antes de ser externa, uma intimidade inesperada e incontrolável que une duas pessoas e as leva a se conhecerem e então, somente depois, a se encontrarem no mundo externo.

Do ponto de vista psicológico, este filme saído neste ano de 2014, traz a novidade de se começar a falar numa comunicação interna e invisível aos olhos do coletivo (que a considera maluca), um olhar para dentro que leva enfim à mudança para fora. Como a protagonista, Zoe Kazan explica ao márido médico controlador e "normatizador", ela está "shedding", ou seja fazendo a muda. Uma muda de proporções gigantescas.

A recuperação do Outro interior transforma de fato a vida, permitindo à personalidade a plena expressão de si mesma, a genialidade de novos pontos de vista, a coragem para atitudes inovadoras e a experiência de uma mais segura e madura forma de estar no mundo.

Para Jung, o Outro interior não corresponde àquele externo. Uma coisa é a Anima, outra é a esposa de um homem; da mesma forma, Animus e companheiro/marido de uma mulher não se identificam. Montefoschi vai além e questiona essa separação. No filme vemos, de fato, que se torna incompatível manter a relação com o Outro externo, cujo vínculo está baseado em papeis estereotipados, uma vez que se encontra o Outro interior, muito mais interessante porque livre de estereótipos e portanto vivo, dinâmico, criativo. O Outro interior nos torna mais vivos e reais.

Na prática todas nós mulheres em particular sabemos que um homem que não está à altura das nossas conversas, pensamentos, ideias e visões interiores é desinteressante, nem por isso deixamos de estar com ele, mas se não houver evolução se torna um sacrifício no longo prazo. Na mulher a "Função Anímica" é muitas vezes mais ativa e evoluída do que no homem, já que nós mulheres somos todas psicólogas como diz John Grey no seu Homens são de Marte, mulheres são de Vênus. Logo, ela percebe de imediato a diferença entre suas frequências interiores e aquelas de companheiro e se cansa. Mas acontece também o oposto, homens com esposas fracas, ou seja estereotipadas, que não oferecem alimento para o intelecto, a alma, as emoções, mulheres desenstimulantes. Pessoas repetitivas e padronizadas são sempre aquelas sem Função Anímicas, pessoas que vivem somente dos produtos que o mundo oferece e tem pouca ou nenhuma vida interior. Ao contrário, aqueles com vida interior são sempre pessoas com as quais é interessante conversar, trazem algo novo para pensar e sentir, ampliam nossas experiências.

Portanto, nada de mais agradável num casal do que encontrar no outro um reflexo do Outro interior, alguém diferente mas que consegue enxergar pelos nossos olhos, ser Um conosco mesmos sendo diferente. Um alguém assim garante seu lugar em nossas vidas para sempre porque a relação se torna um estar juntos que nutre infinitamente ambas as almas.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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