11/05/2015

PSICANÁLISE REVOLUCIONÁRIA

Quando Freud descobriu uma nova forma de pensar os distúrbios nervosos estava abrindo uma estrada que levaria muito mais longe do que ele imaginava. O fato dele perceber que alguns problemas tinham raízes naquilo que uma pessoa havia reprimido (e esquecido), e que, trazendo à tona esses conteúdos, a pessoa se curava, levava a considerar a presença de um "outro" dentro da gente. Um "outro" que não se encaixa no "real" no qual está inserido e/ou não se conforma com este mesmo "real" - e é por isso reprimido, mas que deixa rastros: as consequências desagradáveis que o reprimido-não assumido produz.

A solução de Freud foi: vamos trazer à tona, isto é, trazer à consciência, tornar a pessoa consciente desses conteúdos e vamos dar a estes conteúdos um caminho de expressão, já que o propósito original supostamente não pode ser realizado. Nasce o conceito psicológico de sublimação: liberar conteúdos reprimidos gera energia que é então canalizada em realizações pessoais e social aceitáveis e satisfatórias do ponto de vista da moral estabelecida. A psicanálise se torna assim instrumento de civilização – a civilização do tempo dele, é importante frisar.

Jung vai além dessa visão. Ele percebe que o que é reprimido nem sempre é ter sexo com a mãe (complexo de Édipo) ou qualquer coisa que a moral reprove, mas engloba valores positivos que foram sufocados por conta das limitações do ambiente sócio-cultural no qual a pessoa cresceu, produzindo um profundo mal estar e o desarranjo das relações. Em meio ao material reprimido Jung descobre que existe um núcleo de originalidade da pessoa, um espaço fora do espaço-tempo em que o sujeito é plenamente si mesmo e que não conseguir expressar essa plenitude leva ao sofrimento psicológico. 

A questão é mais complicada do que parece. É importante compreender essa "originalidade" , pois nào se trata aqui de é uma variação individual dos valores coletivos; não é também "ser do contra", fumar maconha e viver no campo. É algo muito mais profundo do que isso. As necessidades do Ser interior (ou Self) não necessariamente são conhecidas pelo eu que pode estar enredado nos valores e limite de sua visão de mundo. Logo, a originalidade surge quando este mesmo eu se abrir para seu Ser interior e se tornar disponível a acolher suas demandas. O ego é, por definição, pequeno, o Self é, por definição, grande. O ego é miope porque está vinculado às suas necessidades imediatas, o Self vê muito mais longe e alcança muito mais longe. Daí, a necessidade do trabalho de autoconhecimento para que seja possível o que Jung chamou de "processo de individuação". Desta forma, a “civilização” de Freud é muito mais do que um processo de repressão necessária da animalidade humana, mas se abre para um processo humano criativo e inovador.

A psicanálise se torna, na psicologia junguiana, um instrumento de transformação individual e social, uma promotora da renovação cultural e um espaço aberto de conhecimento que se debruça sobre o amplo desconhecido da nossa psique e de seus segredos. 

Com Silvia Montefoschi, o questionamento do sistema se faz ainda mais marcado pois ela leva adiante esta perspectiva junguiana que nos coloca inevitavelmente diante de uma verdadeira revolução. Faz-se claro que individuar-se leva ao questionamento do status quo: que sejam os valores da família ou da sociedade ou os padrões internos de comportamento (complexos e arquétipos), todo desvincular-se deles é uma revoluçã: a quebra do dado, do antigo, do estabelecido, e a abertura para o novo. Nesse cenário, a criatividade é a condição de vida por excelência. No lugar da repetição irrefletida, ou seja inconsciente e insensata, de padrões comportamentais e de crenças, o normal do ser humano é tomar distância do dado, questionar, reinventar. 

A psicanálise mostra a gênese das revoluções sociais: a emancipação subjetiva do sistema. Tudo começa dentro da gente, a mundaça também. Nós trazemos imbutidos em nosso sistema mental (o "Sistema-Homem", como ela o chama) todos os dados que nos fazem recriar, repetir e reforçar o que precisa mudar e nos faz sofrer. Somente a jornada interior de autoconhecimento que permita abarcar a visão total do processo, sabendo reconhecer os efeitos universais das mudanças "minúsculas" de consciência e, vice-versa, permitindo perceber os padrões de pensamento culturais, sociais e históricos nas neuróses e "normalidades" diárias – somente esta perspectiva dá ao indivíduo uma estrada segura para o "além". Abre as portas da gaiola para o passarinho voar. Esta é ou deveria ser a psicanálise.

Montefoschi teoriza a psicanálise como legítima continuadora da filosofia e como "O Método" de conhecimento que rompe a divisão subjeito-objeto e faz do auto-conhecimento o único real instrumento de conhecimento de si e do real. Auto-conhecimento este que se inicia com nosso questionamento da forma de nos entender, entender ao mundo e lidar com o mesmo. Esta revolução como ocorre dentro do indivíduo atinge, voluntária ou involuntariamente, todos os seu redor. Logo, nós mudamos, sim, aos outros (apesar que não necessariamente na direção que gostaríamos). O verdadeiro distintivo do humano é a evolução da consciência. A humanidade só existe e sobreviveu na Terra graças aos repetidos saltos de consciência que deu desde os tempos mais remotos. Tudo o que ocorreu em nossa história bio-social é uma sequência de rupturas que permitiram novas aberturas, novos caminhos, novas revoluções.

As grandes revoluções científicas e filosóficas, que precedem aquelas culturais e sociais, existem em escala menor mas não menos importante em nossa vida diária. O sofrimento no qual tantos vivem é, em suma, o resultado do bloqueio de seu processo evolutivo devido medos e limitações - ou seja à formas de se entender e entender ao mundo - que prendem o indivíduo ao velho, ou que não serve mais. Limitações que são de caráter cognitivo, comportamental, afetivo e, acrecentaria eu hoje, espiritual. Toda vez que nosso Ser - maior do que nosso eu - não consegue ir adiante conforme sua natureza exige, eis que sofremos.

A psicanálise se estabelece assim como o framework que permite a libertação do Ser a partir do trabalho subjetivo de conscientização. Uma vez que o Ser está livre de seguir sua evolução estamos diante de um novo paradigma humano.


Adriana Tanese Nogueira, psicanalista, life coach, terapeuta transpessoal, educadora perinatal e autora.



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