06/07/2015

A SÍNDROME DO PEQUENO PODER

Adriana Tanese Nogueira

Imagine a sociedade como uma selva – todos conseguimos fazer isso facilmente! Usamos esta comparação para dizer que vivemos num mundo onde o mais forte ganha. Na nossa sociedade humana “mais forte” significa maior (tamanho) e mais forte (físico), mas também mais “poderoso”. Poderoso quer dizer: ter mais poder, dinheiro, condições, recursos, atenção, spolight, voz, oportunidade, circunstâncias, berço, personalidade e “n” outras variáveis, todas porém que podem ser enquadradas em ter “mais energia”, como bem explicou James Redfield em seu livro “A profecia celestina”.

A diferença porém entre a selva e a sociedade no que diz respeito a este jogo de poder é que na selva, em primeiro lugar não se mata ou se “abusa” de outra criatura pelo simples prazer pessoal. Todos, grandes e pequenos, fortes e fracos, são orientados pela mesma lei que governa o todo. Na natureza temos ecosistemas onde os seres vivos nele presentes se harmonizam com o todo do qual fazem parte.

Nós, humanos, muito mais complexos e complicados, também nos “harmonizamos”, por assim dizer, com o todo no qual vivemos, ou seja a cultura da nossa sociedade, mesmo quando esta é doentia. Então numa sociedade que preza o poder no sentido do “estar acima e por cima de alguém” eis que todos seus membros são compelidos a buscar e alcançar este tão ambicionado status: ter poder sobre alguém.

Ter poder é bom. Faz sentir emocionalmente mais fortes, mais capazes, mais até amados! O problema é que o poder por si só é um desastre. O poder é um meio, é um um instrumento. Exemplo: temos uma Ferrari. Bacana. O que vamos fazer com essa Ferrari? O mecânico ganhou uma Ferrari, o ministro ganhou uma Ferrari, Nelson Mandela ganhou uma Ferrari, Einstein ganhou uma Ferrari, seu vizinho e até seu filho de 14 anos ganharam uma Ferrari. É intuitivo que o uso do meio vai depender da cabeça de seu proprietário. E por cabeça entendemos: valores, educação, conhecimento e consciência. E ninguém em sã consciência daria uma Ferrari para um garoto de 14 anos, por óbvios motivos.

Eis que chegamos à Síndrome do Pequeno Poder. Ter uma Ferrari não nos torna uma pessoa melhor, assim como ganhar na loteria ou chegar ao posto de Ministro não significa necessariamente fazer algo de bom com o que temos. Muito pelo contrário, é preciso ter muita sabedoria para saber o que fazer com os meios poderosos que temos nas mãos. Infelizmente, em nossa muito míope sociedade que, como Sérgio Buarque de Holanda bem retratou em seu “Visão do Paraíso” a respeito da colonização do Brasil, desde os portuguêses se busca brilho e status, poder e lustro mesmo sem nenhum merecimento, eis que a ganância pelo poder é irresistível. A luta social é tamanha que mesmo quem não está contaminado por este vírus precisa se submter ao jogo sujo porque se não ele será alvo do poder de outra pessoa possivelmente de moral duvidosa.


A natureza não dá saltos. Dar poder a uma barata não a faz evoluir mais rapidamente na escala evolutiva. O único resultado que obteremos é uma barata gigante – terrível perspectiva! Precisamos portanto ter consciência na hora em que empoderamos a outros, ou seja lhes damos importância, espaço, consideração, tempo e dinheiro. A Síndrome do Pequeno Poder é um sintoma de uma cultura perdida onde o que sobrou é se afirmar para cima dos outros, se aproveitando de suas fraquezas e vulnerabilidades, mas também de sua ingenuidade e bondade. Por isso temos hoje tantas pessoas com cérebros diminuto, moral aos trapos e empatia zero em lugares de poder. A Síndrome do Poder Pequeno retrata as catastróficas consequências do poder nas mãos de “pessoas de almas pequenas”. 

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