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CRIANÇAS: DROGÁ-LAS OU AMÁ-LAS?

Adriana Tanese Nogueira

Antigamente se batia nas crianças com a intenção de educá-la (e também para desabafar as próprias frustrações, segundo a lógica do bullying: quem é mais forte domina). Hoje todos fogem horrorizados do levantar a mão contra uma criança, há até uma lei que proíbe isso. Como no mundo há de tudo, temos ainda indivíduos que espancam os indefesos e portanto uma lei que protege as crianças é necessária. Mas não estamos com o problema resolvido, muito pelo contrário. Vemos hoje, pais querendo ser “bons” mas na verdade sendo fracos e pais querendo evitar de por as mãos numa criança e na verdade sendo abusivos. Há palavras e tons de voz que são mais violentos do que o tapa em si.

Falta muito ainda para sabermos lidar com as crianças – ou seja, com nós mesmos? Vamos começar com compreender uma coisa: as crianças não têm noção dos problemas dos adultos. Vivem numa outra dimensão - dimensão que nós adultos muitas vezes lhes invejamos mas que ao mesmo tempo lhe negamos! Qual é essa “dimensão”?

Em primeiro lugar, se trata de uma dimensão não racional mas composta de pulsões internas (“impulsos”), vontades, desejos, necessidades, ansiedades – enfim, sentimentos e emoções muitas vezes pouco claros a elas mesmas. As crianças sentem, são guiadas/manipuladas pelo que vêem, pelo que são expostas a gostar ou achar bonito, pelo que lhes pulsa dentro. Mas por baixo das modas e das disneys da vida, as crianças têm reais necessidades que, quando não nomeadas e atendidas, são transferidas para o brinquedinho e a “manhã”.

Cabe ao adulto decifrá-las. Isso é ser mães e pais. Cabe ao adulto orientá-las para os valores essenciais, reconhecer o que está incomodando de verdade, atender as necessidades reais. Assim como cabe ao adulto dar os limites.

Como é difícil essa parte. Limites! Afogados em seus problemas e no sentimento de culpa diante da sutil consciência de que não se está cuidando bem dos filhos, eis que os adultos são fracos diante das demandas (“tortas”) de seus filhos e lhes dão o que não precisam, continuando a omitir-lhes o que precisam. Desta forma, incentivam o “vício” ou seja a fixação num objeto e situação que não são de fato significativos para substituir o que de fato é importante mas negado ou calado.

Comida é um vício, vídeo-game é um vício, amigos demais ou ficar fora de casa demais é um vício, disney é um vício, televisão é um vício, notas ruins é um vício. Todos e outros tantos são comportamentos compensatórios diante de algo essencial que falta e que com o tempo se esquece até do que se trata, mas continua faltando. Um buraco que produz angústia. Angústia que precisa ser acalmada com determinado comportamento, pensamento e companhias.
Não nos queixemos de nossos filhos a menos que não estejamos dispostos a pôr a mão na nossa consciência e a fazer uma séria análise da situação nos colocando em discussão. A menos que não estejamos prontos a encarar as questões que carregamos dentro e que transferimos para eles, poluindo seu crescimento e sua serenidade e carregando-os de mais fardo daquele que lhes cabe, não nos lamentemos deles.

A família deve ser vista como um sistema único. Nela, cada um desenvolve um papel e nesse papel cada um está preso. Papeis aqui não quer dizer somente as funções (ele é o calmo, ela é a briguenta, o outro é o ponderado e a quarta é a histérica). Há nós, laços, problemas mais profundos do que esses que os sustentam, os quais precisam ser desatados, compreendidos e clareados para que haja uma verdadeira transformação positiva de toda a família.

Na ausência dessa disponibilidade moral, intelectual e emocional dos pais se recorre à covardia de drogar as crianças com remédios e falsas interpretações de seus comportamentos para quem se calem e deixem de ser os espelho da personalidade oculta dos pais. Famílias crescem ou morrem juntas. São feitas para cada um ajudar o outro a evoluir. Cabe-nos escolher.

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