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CRIANÇAS: QUANDO A PSICOLOGIA PREJUDICA

Adriana Tanese Nogueira


Seu filho faz “manha” ou não fez o dever de casa e lhe avisa no domingo à noite... Ou seu filho berra no meio do supermercado, corre pela loja e não lhe obedece...

Você está correndo, está com pressa, sente vergonha de seu filho, não sabe o que fazer enquanto paga o caixa ou tenta chegar ao carro o quanto antes. O agarra pelo braço e o puxa até o veículo, ou o pega no colo, segura firme e anda a largos passos bufando, ou então já vai berrando para ele que essa gritaria não se faz, que nunca mais ele se atreva a gritar desse jeito ou a te desobedecer, e enquanto isso aperta o corpo dele contra o seu. Ou então você é do tipo que não quer violência e conversa com seu filho, a dentes cerrados porque está tensa, sorri um sorriso forçado respirando fundo e tentando ser a pessoa amável e paciente que acredita tem que ser. Se agacha (como se fosse suficiente para criar um clima de respeito com seu filho!) e explica que isso ou aquilo não se faz. Seu filho abaixa os olhos triste, ou preocupado, ou com medo, ou bravo.... Mas pode ele falar alguma coisa?

Crianças! É normal crianças fazerem “manha”, desobedecer, gritar, perturbar?

Sim, é tão normal quanto é normal nós adultos estarmos bravos, preocupados, irritados, desapontados, etc.

Crianças e adultos têm maneiras diferentes de expressar sua frustração. Mas no final, somos todos iguais – com um detalhe: os adultos têm poder e se dão o direito de desabafar, as crianças não (será por isso que tornam suas “manhas” ainda mais “poderosas”?).
O problema nessa equação entre pais e filhos é que geralmente os pais querem “endireitar” seus filhos, “corrigi-los” sem endireitar e corrigir a si mesmos, sem se dar ao trabalho de realmente entendê-los.

E além disso, não reconhecem a criança pelo que é, uma criança. O sabem mentalmente, mas muitos tratam seus filhos como mini-adultos. Desde de muito cedo se espera deles comportamentos que pertencem a idades mais avançadas. Um menino de 2 anos é criticado pelo pai (machista!) por chorar: é menino e já é grande demais! De uma menina de 8 anos o pai espera que prepare seu café da manhã sozinha: é para que ela se torne independente ou porque ele é preguiçoso? Quem irá questioná-lo? Ninguém. Seu poder é soberano.

Infelizmente, muita psicologia – em particular aquela de cunho americano, a saber: comportamentismo e cognitivismo e todas suas variantes – querem ajudar os pais focando a atenção no filho “problemático” a fim de colocá-lo numa linha imaginária que é tão cultural quanto preconceituosa.

Cadê a pergunta a respeito do tipo de relação que há entre pais e filhos? Quando vai se falar do clima emocional da casa? Da relação do casal que espirra sobre os filhos? Dos problemas silenciados que as crianças absorvem como papel toalha? Quando vai se olhar para a criança com um olhar mais profundo do que a superfície opaca de seu “comportamento” que nada mais é que um sintoma?

Quer-se resolver o grito e a “manha” da criança, quando muitas vezes o grito pela bala é a única forma de lançar o pedido de socorro, e a “manha” é o jeito da criança descarregar uma tensão que está se tornando insuportável dentro dela.


Usar a psicologia para ensinar os pais a sufocarem as crianças com mais efetividade, a endireitá-las para caberem nas nossas conveniência sem atentarmos para nós mesmos é triste e covarde. É racionalizar, normatizar e achatar esses pequenos seres humanos que estão lutando para encontrar seu caminho em meio ao mundo problemático que encontraram, começando por suas próprias casas. 

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