28/03/2016

PROJEÇÕES CONVENIENTES

A projeção é uma fenômeno natural e necessário, conforme C. G. Jung. Pela projeção conhecemos o mundo. O que é e como funciona?

A projeção é uma dinâmica psicológica que todos utilizamos diariamente, tendo consciência ou não disso, e que nos ajuda a nos orientar no dia-a-dia e, em definitiva, a interpretar o mundo. Ela, como diz a palavra, é uma projeção de “algo” em alguém ou alguma coisa. Este “algo” que é projetado, literalmente jogado, vem de dentro de nós.

E aqui está o lado “desagradável” da projeção: o que “jogamos” para cima dos outros é algo que nos pertence. Assim começou a análise de Jung. A projeção é como um vestir a outra pessoa de determinadas roupagens que nós lhe damos mas das quais não estamos conscientes. E aqui começa o problema: a projeção geralmente não é consciente, mas ela provê a ilusão de sua verdade. É como ver uma pessoa e afirmar que ela está deprimida. Ponto. É fato. E se fôssemos nós que vivemos de lentes escuras e não reparamos?

Projetamos sobre os outros o que não vemos dentro de nós, e não vemos porque não queremos ver. Não queremos ver porque o que projetamos não pertence à nossa identidade consciente. Por exemplo, Rosa é uma pessoa boa e gentil, que quer ter seu próprio negócio. Mas ela não conta nem para si mesma que tem um forte complexo de inferioridade, que não gosta muito de trabalhar, seja porque não acredita em si como por simples preguiça adquirida graças ao compelxo de inferioridade, e que ela sonha em ser “importante” no círculo de amigas do bairro pobre no qual ela cresceu. Ela quer se sentir “alguém”. Quando em seu ambiente entra por acaso uma outra mulher que tem tudo o que ela quer – ou seja, é uma pessoa estudada, de outro nível social e cultural, portanto com outros hábitos e comportamentos – Rosa, movida por profunda inveja, irá projetar sobre a outra mulher o estigma da “arrogante” que se sente “importante”. Como Rosa aparenta ser boa e gentil, todos irão acreditar nela e jurar que ela é uma vítima da outra mais “sortuda”, que nada mais é que alguém que arregaçou as mangas e conquistou o que tem.

E, ainda por cima, sendo o ambiente social de Rosa é homogêneo, todos do mesmo nível cultural e social, todos instintivamente se aglutinam em volta de Rosa e de seu complexo de inferioridade porque lhes é familiar. Assim, sobre a nova mulher são projetados os desejos reprimidos e virados ao avesso que não ousam confessar nem sob tortura porque revelariam sua fraqueza.

A projeção é então seja uma dinâmica psicológica na relação a dois como uma dinâmica social. Quanto maior for o desconhecimento da pessoa a respeito de si mesma maior a quantidade de projeções sobre o mundo ao seu redor.

O desconhecimento de uma pessoa a respeito de si mesma é diretamente proporcional à quantidade de “pecados” que ela acredita carregar dentro. Por “pecados” entendo: sentimentos de culpa, cumplicidades, medos, inseguranças, etc. Desta forma, o que não pode ser encarado, por covardia, fraqueza, imaturidade, é jogado para cima do outro.

O conceito do bode expiatório foi estabelecidos pelas tribos israelitas que tinham um ritual períodico durante o qual o inteiro vilarejo se reunia em volta de um bolde e gritava contra ele todas as coisas ruins que lhes passava pela cabeça. Em seguida o bode, carregado de todo esse “mal”, era mandado para fora do vilarejo. Era uma medida para evitar as projeções internas e portanto manter a unidade do grupo. Sabedoria antiga de quando não havia terapia.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente – Presencial, Skype, por telefone e por escrito. Boca Raton, FL +15613055321. www.adrianatanesenogueira.org.


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