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COMO AGIR COM UMA CRIANÇA PEQUENA

A criança pequena não conhece o conceito de “obedecer”. Ela está intensamente conectada aos seus impulsos interiores que estão se revelando a ela e que a levam ao movimento e às inúmeras descobertas que definem os primeiros anos de vida. Quantas coisas seu corpo é capaz de fazer e sentir? Quantos sabores, sensações, movimentos? Como cada uma dessas descobertas a faz sentir? Como o mundo se descortina para ela?

Ligada nesse mundo mágico sensorial e emocional, a criança pequena não é um ser racional como nós adultos. Portanto, no lugar de “sermos obedecidos”, vamos pensar em termos de sermos seguidos, como uma ovelhinha segue seu bom pastor. E para isso, precisamos sair do nosso modo racional de operar e nos conectarmos a ela pela linguagem que ela entende e que é emocional, energética, sensorial e sentimental.

As crianças não entendem o porquê do permitido e do proibido. Falta-lhes tanto a experiência como o conhecimento do convívio social e das responsabilidades que somente a idade adulta plenamente dispensa. É através dos pais que a criança vai se ajustar à realidade e se inserir nela de forma (esperamos!) criativa e construtiva.

Como obter este resultado? Estabelecendo uma relação com a criança. Relação é uma coisa muito mais sutil do que parece; não basta conversar e cuidar de suas necessidades físicas, precisa ter vínculo. O vínculo é uma conexão invisível que se estabelece a partir de um centro interior para outro centro interior. Nasce de uma intenção atenta e aberta para se ligar a outra pessoa acolhendo-a e se abrindo a ela. Relação é um vincular-se consciente e amorosamente a outro ser. Uma relação se sente na pele por assim dizer, não precisa de palavras e é palpável entre duas pessoas vinculadas.

Uma vez que esta relação existe, então o conceito de imitação faz todo o sentido. Quando uma criança pequena está tomada pela euforia de uma brincadeira, pela bagunça de grupo num momento de festa e situações do gênero em que está menos “sob controle”, ela só irá se sintonizar com o que o adulto fala se este adulto for muito significativo para ela. O adulto de referência (mãe ou pai, ou ambos) tem que ter um alto valor emocional para a criança para que seja para ela como um farol nos tumultos dos sentidos e das emoções. Somente assim o que o adulto falar e fizer poderão ser ouvidos e imitados.

Uma vez que existir a relação vinculada e vinculante, a fala do adulto deve vir de seu centro sensato e sábio, sendo calma, firme e decida. Pode-se até gritar de vez em quando – pode acontecer, mas a gritaria histérica tira credibilidade do adulto e enfraquece a relação com a criança. A irritação precisa ser contida e transformada em ação efetiva. O adulto é o líder, não o general.

Como líder ele precisa mostrar como se faz... e então ele faz. É pelo movimento de seu corpo, pela energia que transmite, pelas emoções que passa que o adulto vai se tornar o líder seguido pela criança. Falando sua linguagem, ele ganha seu respeito. Ele interfere com a realidade de forma física e energética (não enérgica) – assim como é física e energética a criança. Significa que às vezes é preciso tirar um brinquedo (o um celular!) da mão e pronto, calma e firmemente, sorrindo. Significa criar mudanças no campo material e das emoções introduzindo ordem (catando os brinquedos, por exemplo) e calma (mostrando-se calmo e contido, mas sério e decidido).

Crianças precisam de líderes. E, como diz a sabedoria chinesa (I Ching), um líder precisa antes saber seguir para depois ser seguido.


Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org e www.atnhumanize.com

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