09/10/2016

UM CASO DE INFERTILIDADE PSICOLÓGICA

Quero premeter que quando lidamos com o mundo da psique não existe certeza absoluta. Não é como o campo da matéria onde uma coisa pode ser tocada ou não. Mesmo o corpo humano, que é material, está sujeito a tantas variáveis que quando é que podemos dizer honestamente que uma doença é puramente orgânica e nada tem a ver com a psicologia do doente, seu estilo de vida, suas crenças, sua história, sua personalidade? Mais conheço o ser humano e menos certezas eu tenho. Só observo que diante de alguns fenômenos outros ocorrem, diante de algumas descobertas algo se desbloqueia e, sobretudo, diante da tomada de consciência alguma coisa na realidade muda, tanto sua percepção quanto sua manifestação. Mas mesmo disso não posso dar garantia pois cada um é um universo onde as variáveis são muitas e sem o engajamento assumido e aberto da pessoa em questão nenhum terapeuta pode, de fora, resolver seu caso.

Dito isso, quero apresentar um caso interessante que na minha visão explica a dificuldade dessa moça de engravidar. Vou chamá-la Giovana.

Giovana tem cerca de 30 anos e está há alguns anos tentando engravidar. Teve no passado um aborto espontâneo que lhe causou bastante sofrimento. Recentemente, engravidou novamente e desta vez guardou a notícia para si, se preservando de toda intromissão alheia, pois na vez anterior havia anunciado a boa nova imediatamente e a queda havia sido ainda mais dolorosa. De olho nesta, que ela entendeu como uma “lição”, Giovana se resguarda, inclusive fisicamente, apesar de estar em ótima saúde. Quer chegar o mais adiante possível, superar os fatídicos primeiros três meses e aí poderá se abrir ao mundo. E chega próxima do prazo, já está mais confiante e segura. Sente que está tudo bem, e anuncia a um pequeno grupo de amigas sua gravidez, recebe parabéns e felicitações e... no dia seguinte anuncia a perda.

O que aconteceu com Giovana? Parece que ela não consegue “segurar” o bebê – e isso nada tem a ver com o canal vaginal. O “não conseguir” não é físico.

Tenho uma única conversa com Giovana no dia anterior em que ela iria se internar no hospital para fazer uma curetagem pois os restos embrionais estavam já a uma semana retidos num utero que não queria ou não podia soltar...

O que descubro é a seguinte história.

Giovana é a primeira filha de uma mulher que havia sido passiva e sofrida a vida toda. Giovana tinha cerca de 8 anos quando a mãe havia se separado finalmente do marido, pai de Giovana, abusivo porque alcoólico. Naquela época o irmão de Giovana era recém-nascido e na tentativa de evitar que o segundo filho passasse pelo mesmo inferno, a mãe havia resolvido se separar e feito inclusive um acordo com o marido para que ele nunca mais os procurasse, em troca da renúncia da pensão alimentícia. O homem concordou e se afastou.

Diante desse quadro, parece que a mãe de Giovana foi ativa e tomou a iniciativa certa: para males extremos, extremos remédios. Mas a postura interior dela é de sofredora e vítima e assim viveu a vida toda. Está, hoje, a vinte anos casada com um homem que tem quatro filhos, dois homens e duas mulheres, que não gostam da madrasta e não a tratam bem, com a omissão do pai.

Giovana havia crescido espelhando o lado forte que a mãe não manifestava, ao mesmo tempo em que mantinha em si a passividade que a mãe apresentava. Uma relação simbioótica na qual uma é o avesso da outra (além de ter suas próprias personalidades).

Assim, por exemplo, Giovana vivia preocupada com a mãe. Mesmo quando não estava ativamente pensando nela, a mãe estava em seus pensamentos constantemente. Em seu próximo futuro ela se imaginava indo morar perto da mãe, que vivia em uma cidade vizinha. Giovana, porém, não ia visitá-la com frequência porque não aguentava vê-la sendo maltratada pelos entiados (!), assim deixava que isso acontecesse longe de seu olhar para não “constrangir” (!) a mãe, tomando atitudes que visavam assegurar seu respeito (!).

Giovana tinha outro motivo para se preocupar, o irmão mais novo estava a anos metido em drogas, numa vida sem rumo e sem tarbalho fixo, e dava muito problemas para a mãe, que não sabia o que fazer. Esta poranto, vivia à mercê dos entiados, que, ao contrário de Giovana, visitavam frequentemente a casa, da omissão de seu marido que permitia que ela fosse maltratada, e do filho problemático que precisava constantemente de ajuda.

Mas a sina da mãe de Giovana estava marcada desde o início de sua vida, pois ela nasceu de uma mãe que não gostava dela, que sentia inveja dela (nas palavras de Giovana) e nunca a tratou bem. Esta avó de Giovana era dura, invadia constantemente a privacidade dos filhos e não tinha respeito algum pelos outros e sobretudo por esta filha, a mãe de Giovana.

Num exercício de imaginação ativa que eu propus, Giovana vê à sua frente um espaço onde tudo é em câmara lenta, não há sensação, não há sentimento fora a percepção de que é bom estar lá e não se deve sair de lá. Será este o útero do qual Giovana não quer ainda sair? O bebê intrautero sabe se do lado de fora há paz ou guerra, harmonia ou inferno. Sabe. Esta condição de câmara lenta é aquela que temos dentro da água e que temos como resultado de um trauma: os sentidos perdem a prontidão dos reflexos, a adrenalina se congela no nosso sistema e nós nos “dissociamos” da situação traumatizante. Em ambas as hipóteses, Giovana está claramente presa a algo que impede o fluxo da vida, o movimento vivo, borbulhante, ativo. Ainda por cima, é o que ela vê “na sua frente”.

Confirmando esta perspectiva, há o sonho de Giovana na noite anterior à nossa conversa: ela se vê na casa da avó, brincando com os primos. Ela estaria grávida, mas se olhando no espelho percebe que não.

Por que ela está na casa da avó? Uma avó em suas palavras distantes e áspera? O que a mantém lá? Por que uma mulher adulta e grávida está “brincando” com os primos, como se fosse uma criança? Algo está fora do lugar... O sonho mostra a sobreposição entre Giovana e sua mãe. A identificação de Giovana com a mãe é tamanha que ela está na casa da mãe/avó, ainda presa àquela que foi uma madrasta e que a mantém numa vida infantil.

Como trabalhei no meu livro sobre psicologia arquetípica da gestação, o “Empoderando as Mulheres. Psicologia Perinatal”, atentar para o relacionamento da grávida com a própria mãe é muito importante para enteder os desafios que esta aquela terá pela frente, tanto na gravidez quanto no parto. O mesmo vale para as tentantes e para as que sofrem abortos espontâneos.

Todas as dores da mãe de Giovana foram assumidas pela filha, a qual é tanto filha quanto mãe de sua própria mãe. Nessa simbióse neurótica, nenhuma das duas cresce – por isso é “neurótica”. O coração de Giovana já está tão lotado de preocupações e dores maternais que... será que cabe um filho?

Estaria Giovana livre, psicológica e espiritualmente, para dar vida à sua própria família quando está ainda tão envolvida emocionalmente até as raízes de seu ser na sua família de origem?

Diante desse quadro, olho para o desfecho dessas tentativas de gravidez e encontro a resposta: não há lugar para um filho na vida de Giovana. Até ela não resolver sua dependência da mãe, não se emancipar encontrando o caminho que coincide tanto ajudar a mãe (que ela não poderá simplesmente abandonar) como emancipar-se dessa realidade psicológica de vítimas sofridas que precisam se proteger umas às outras de coisas ruins... até então não há espaço na vida de Giovana para uma nova família.

Conclusão: a gravidez pode não acontecer porque você não está pronta de verdade. Engravidar não é como apertar um botão e fazer o downloado de um bebê. Engravidar também não é um simples ato do querer. Trazer uma criatura humana para junto de nós requer, para algumas mulheres, um trabalho interior de limpeza, preparação, amadurecimento e superação. 

Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

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