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AMOR IN PROGRESS

Vejo casais em busca de si mesmos: temerosos de estragar uma amizade ao começar a relação que, entretanto, está já evidente entre eles. Vejos maridos traindo suas mulheres ciberneticamente por tédio e por vazio existencial, não por falta de amor por elas. Vejo homens deixando as mulheres que amam profundamente por não aguentarem o desafio e preferirem se envolver em relações mornas e superficiais. Vejo casais se separando após 30 anos de casamento porque afinal não havia intimidade mas o “tem que ser”. Vejo mulheres histéricas deixando seus homens loucos e estes baixando a cabeça e aguentando... nem eles sabem por quê. Vejo mulheres encontrando o homem perfeito e convencerem-se na marra que não o amam.

(De Khalil Gibran, Sobre o Amor)

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

Amar é difícil. Conectar-se ao outro é um desafio. Uma relação é um projeto, não um dado que se conquista uma vez por toda e pronto. É cuidar do jardim, dia após dia. Vincular-se é assumir o fardo, transformá-lo juntos, vencer juntos.

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

Amar é o oposto do que aparece nos comerciais: não é um produto que vai te fazer feliz, é um processo que pode te dar muitos momentos de felicidades na medida em que você está disposto a se engajar em um work in progress que vai durar a vida toda, e que começa por e com você.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

A saúde de um casamento se mede pela saúde individual dos dois, ao quadrado. Quanto mais resolvido internamente cada um está, melhor será o resultado: ou seja, mais cumplicidade, intimidade, paz, harmonia e alegria. Quando um ou ambos se recusam a serem transformados pela relação – ou seja, pelo amor – o resultado é negativo, ao quadrado.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Transmutação e revelação, revirar-se como uma luva, do avesso – ou, talvez, para o lado certo? Sempre, em todas as relações estamos em processo de aprendizado e auto-descoberta, em primeiro lugar. Abraçar o processo permitirá que a relação se desenvolva, tanto para terminar logo, se assim for o caso, como para desabrochar se este for seu desígnio.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Aceitar nosso sentimento é sempre um ato de humildade. Humildade do ego e sua “razão”, que precisam aceitar que o “coração tem razões que a razão não compreende.” (Blaise Pascal)

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.


Adriana Tanese Nogueira


Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

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