06/11/2016

OS FILHOS DE PAIS QUE BEBEM DEMAIS

É fácil apontar o dedo para as drogas, porque logo se pensam nas que são ilícitas. Mas e o que dizer de uma droga perigosíssima que tem o uso legalizado? O álcool. A droga mais comum, mais usada, a que causa mais mortes no trânsito, a que é promovida por outdoors e comerciais na TV.

O alcoolismo é uma doença séria que engloba aspectos físicos, emocionais, cognitivos e espirituais. Não só, o alcoolismo é uma doença super contagiosa, sobre a qual a omissão coletiva é quase total. Cabe a cada um de nós tomar consciência da brutalidade do alcoolismo e pararmos de ser cúmplices de seu uso indiscriminado.

Na Finlândia uma organização sem fins lucrativos que combate o alcoolismo criou uma campanha impactante. Eles conseguiram chamar a atenção para o problema com um vídeo que pode ser visto no YouTube e que se chama “Fragile Childhood – Monsters” (https://www.youtube.com/watch?v=XwdUXS94yNk).

O alcoolismo marca a vida das crianças para sempre. Ter um pai ou uma mãe alcoólatra (ou ambos!) acarreta consequências terríveis que esses mesmos pais evitam enxergar porque a dor da culpa seria insuportável. E essa fuga da própria responsabilidade só promove o próprio alcoolismo. Bebe-se para esquecer, para não pensar, para amenizar a vida.

E o que significa para uma criança? Significa que ela é órfã todas as vezes em que seus pais estão sob o efeito do álcool. Não só órfa como também em perigo. E quando seus pais não estão alterados, mesmo assim ela não pode estar tranquila porque um alcoólico não é “normal” nunca. O vídeo acima ilustra muito bem essa realidade. Não são necessárias as palavras, basta as expressões perplexas, assustadas, confusas, das crianças.

É preciso se colocar no lugar delas. Nascem e não sabem o que é alcoolismo. Só sabem que seus pais são, de vez em quando ou frequentemente, estranhos e assustadores. Mesmo quando um pai quer se mostrar “calmo” para o filho, sua energia, seus gestos, seu jeito, é esquisito, é altamente perturbado e pertubador.

Uma criança sabe o que é isso, não entende. Por isso fica confusa. Sente o amor dos pais e os ama muito. Mas... como funciona esse “amor”? É normal ter medo de quem se ama? A mesma pessoa que sabemos nos ama nos faz também sentir apavorados e em perigo, berra, fala coisas horrendas, quebra objetos e agride nossa mãe (se o pai for o alcoólatra da família).

Os filhos crescem confusos e tristes. Estão amarrados a um sentimento de culpa que não compreendem e sua autoestima é esmagada. A culpa é um dos traços mais comuns dos co-dependentes, que são os que convivem com os alcoólicos. Culpa por existir, culpa por ter sentimentos contraditórios pela figura dos pais, culpa por querer sumir e ter outra vida em outro lugar. Culpa por não conseguir aguentar... Culpa que bloqueia os movimentos e atrasa suas vidas.

Essas crianças acabam ou por se afastar de casa ou por assumir a responsabilidade por “resolver”, ajudar, cuidar, curar seus pais. Protegê-los de si próprios. Pegam sobre si um fardo gigantesco. Missão impossível, pois não podemos ajudar quem não quer ser ajudado. E enquanto isso, sua vida passa. Enquanto isso são sugadas para dentro do abismo do alcoolismo que é feito de medo, dúvida, insegurança, ceticismo, solidão, fraqueza, tristeza...

O que fazer? O que parece mais difícil: cuidar de si em primeiro lugar. Reconhecer o problema mas salvar-se sendo mais fortes da derrota que o alcoolismo semeia em volta. Estudando mais, trabalhando mais, sendo mais honestos, mais alegres, mais fortes, mais confiantes. Sem culpa e sem culpar. Ser um sol no meio da noite escura.

Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

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