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EMOÇÕES: COMO FUNCIONAM

As emoções influenciam tudo em nossa vida. Acredito seja de conhecimento comum que existe uma relação entre como nos sentimos e o que acontece dentro da gente e nas relações da gente. Certo?

Agora, isso não significa que há sempre uma linha direta, causal, entre uma emoção reprimida (ou não) e nossos sintomas físicos e relacionais. Pensar assim é usar a mentalidade causalista que é simplória e miope diante da complexidade e profundidade de nossa realidade psíquica. Pior do que a ignorância é o conhecimento distorcido e banalizado.

Para entender como funcionam as emoções pensem no sistema hidráulico de sua casa. Para funcionar, precisa que os canos estejam vazios para que a água passe, certo? Se houver um entupimento, há congestação e eventualmente o cano poderá rachar, quebrar ou até explodir. Agora, não importa se o que entuipiu o cano é lixo ou ouro. Se está entupido o sistema inteiro não funcionará. A água, com todo seu peso, irá gravitar na direção de qualquer ponto fraco do sistema para vazar. Porque vazar precisa. Ou explodir.

A água são suas emoções, o sistema hidráulico seu sistema psíquico. Observe se não é assim mesmo que acontece em você: ocorre algo, você armazena tensão, positiva ou negativa, ansiedade, medo, raiva, um impulso de qualquer natureza e, no lugar de expressá-lo, o reprime. Se cala, se distrai com outra coisa, muitas vezes nega o que sente sem nem perceber. E vive assim um dia atrás do outro, engolindo muito mais daquilo que se dá conta de estar fazendo, porque uma certa hora se para até de perceber...

Esses conteúdos “energéticos” não sumiram, estão em algum lugar de seu sistema e, exatamente como a água parada, vão criar problemas. Com a água o segredo é: nunca deixá-la parada, certo? Com as emoções é a mesmíssima coisa. Mais paradas, mais problemas. Problemas que vão vazar por toda brecha possível, em sintomas, atos falhos, sonhos, momentos de “fraqueza”, quando se está desavisados... Certeza maior não tem: uma hora a coisa vai vir à tona e exatamente no lugar onde existe uma brecha – a brecha sendo o ponto mais vulnerável. Afinal, ninguém pode manter a guarda alta o tempo todo, certo?

E aí, um dia, se tem medo do que há do outro lado do muro interno... Muita pressão se acumulou (e tensão alta, ansiedade, depressão). É preciso abrir uma porta, mas... e se o portão for na verdade uma represa? O risco é chegar uma mortífera onda tsunami o que a consciência justamente teme porque significa a sua “morte”, um assustador perder a cabeça. Instintivamente, todos sabem. E por isso todos preferem tomar remédios no lugar de abrir a porta interna quando a tensão aumenta. Mas remédios não vão resolver.

O que fazemos então? Ampliamos (num trabalho terapêutico qualificado – porque precisa competência para isso) o aquário um pouco de cada vez. Melhoramos a comunicação entre as duas realidades, ajudamos o Eu da pessoa a reconhecer, aceitar e aprender a lidar com o oceano dentro dela. Nem todo o mar vai entrar ou mesmo precisa ou quer entrar em seu pequeno aquário, mas compreendam que um aquario minúsculo irá perceber uma poçinha de água como um oceano. Tudo depende da perspectiva! Qualquer seja o caso, precisamos ampliar as fronteiras e esclarecer a mente. Alternativas não conheço.

Por que isso é tão difícil? Por que as pessoas estão geralmente tão reprimidas?

1) Porque vivemos numa cultura repressora do nosso Eu interior, o que significa que é preciso engolir muito cocô para fazer parte, ser aceito, fingir de se sentir com autoestima alta, levar a vida adiante na selva social, sobreviver à família, escola, relações e quem sabe mais ao quê.

2) Porque vivemos numa cultura cartesiana que valoriza a razão em detrimento das emoções, não se dando conta, estupidamente, que todas as razões do mundo são destronadas por emoções irracionais, baixas e violentas. A história é testemunha, o presente é testemunha.

3) Porque, consequentemente, não se ensina a lidar com as emoções. Não existe o processo de ouvi-las, prestar atenção nelas, abrir a cabeça para algo novo. No lugar disso, se racionaliza, ou seja se aplica uma etiqueta conveniente (que não nos dê trabalho) por cima de uma emoção, nos iludindo de que a temos “compreendido” e “resolvido”. Tudo de mentira. Um tiro no pé. Colocar um durex para tapar uma brecha aqui, não vai frear a água de encontrar outra saída, outro sintoma.

4) E isso é super importante, ouvir nossas emoções significa se disponibilizar para as mudanças. E é aí é que o bicho pega. Emoções não são neutras. Elas têm conteúdo, nos comunicam alguma coisa. É como se você recebesse a informação de que teu marido está te traindo, foi visto e fotografado. Uma vez que você tem essa informação não tem como voltar atrás, terá que tomar uma atitude, certo? Pode ser um engano, e terá que descobri-lo; pode ser real, e terá que por em discussão a relação; poderá fingir que nada aconteceu, se convencer que é mentira de quem te falou e não querer mais saber nada... Mas quem é tão bobo para acreditar que esta estratégia vai dar certo?

5) Enfim, gente: unificar a mente e as emoções num todo holístico, funcional e harmonioso é a tarefa humana para o século XXI. Não se trata de culpar os pais ou a sociedade mas, reconhecendo os limites passados e presentes, assumir as rédeas do verdadeiro protagonismo que começa com a coragem de entrar de fato dentro da gente, para além da cultura de massa, e encontrar nossas verdades, no silêncio, na humildade, na tempestade e no amor que existe em cada um de nós. Aceitar que estamos aqui para ser transformadores e não clones de estereótipos. Desta vez, não são novas terras e ciências a serem desvendadas mas um novo si mesmo. As profundezas psíquicas precisam entrar a fazer parte da nossa vida consciente.

Emoções induzem à atitudes, ações, escolhas, dilemas, desafios. Emoções induzem mudanças. Em você, nas tuas relações, nas tuas escolhas de vida. Onde quer que seja.

No fundo, o Eu percebe isso e é por isso que as reprime. não só porque seus pais lhe ensinaram assim. Virou tanto um hábito como uma fuga.

Agora, se prepare, porém. Um dia o sistema hidráulico irá falhar e quando você menos espera.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Orientação Pais, Terapeuta Floral, Consultora, Palestrante e Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente. Consultoria em empresas e serviços de saúde. Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

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