Pular para o conteúdo principal

MÃE CONECTADA CONSIGO, BEBÊ FELIZ

Entre os diversos prejuízos da cultura patriarcal, há um que é  tão forte quanto sorrateiro, algo que sequer se entende ser patriarcal, e cujos efeitos nocivos são também difíceis de perceber. Isso porque fazem parte da cultura atual. Chama-se pensamento abstrato.

O pensamento abstrato é este que funciona desconectado da realidade. Todos conhecemos aqueles discursos sobre como deveria ser um casamento, ou um parto natural, ou uma amizade, ou uma vida e todos já tentamos fazer o “download” do tal pensamento abstrato na realidade, se, averiguar o que seria possível, do que a realidade precisa e até “o que ela quer”.

Na maternidade esse fator se manifesta já na gestação quando se presta mais atenção nas “coisas” do que naquilo que se sente, que é afinal a realidade verdadeira da gestante. Se como uma pessoa está, se o que ela sente não for real, então o que é? O quartinho de grife?

No parto, o pensamento abstrato se expressa nas fantasias sobre o parto perfeito e na ilusão de que basta informação (e a doula e a parteira das tantas) para acontecer. Nada mais longe da realidade. Ninguém faz o parto para você. Essas mulheres que buscam fora de si a garantia de que vão superar o teste são como o aluno que leva Einstein para a prova... vai resolver? Não vai. O teste é só seu.

Aí chega o filho. E com ele se espatifam no chão muitos discursos abstratos (e esperamos que todos) e as idealizações. Um neném é real, não é uma palavra, uma ideia, uma evidência científica, um discurso bonito. Ele é algo bem-bem concreto que funciona do jeito dele. Maternidade não vem com manual, e por isso se você quiser aprender como se faz vai precisar jogar fora todos os supostos-manuais que havia armazenado para lhe dirigirem e ajudarem.

Comece do zero. Comece com você. Aprenda a observar, com olhos límpidos, com verdadeira atenção. Curiosa. Relaxe. Confie em você. Vai dar certo. Abra os olhos bem abertos e observe. Aprenda a se conectar consigo e verá que será mais fácil se conectar a seu bebê. Aprenda a olhar para o que sente, a acolhê-lo, a elaborá-lo. Pés no chão, no seu chão, no seu corpo, na sua alma. No que acontece dentro de você. Desenvolva seu bom senso. Desenvolva sua intuição. Teste, observe, aprenda a pensar de verdade, sem jargões.

Não há receitas. Só precisa saber para onde quer ir, como chegar lá são outros quinhenhos – que você terá que descobrir ao longo do caminho. Caminho que, inclusive, muda. Pode mudar a cada dia. Por isso você precisa ser muito viva, estar alerta, olhos abertos na estrada. Não há GPS que possa guiá-la. Não há receitas. Há referências, exemplos, modelos. Mas não copie. A dupla você-bebê nunca existiu antes na face da Terra. É no trabalho diário de (auto)conhecimento que você poderá encontrar seu caminho.

Cuidado, portanto, com as modas, os “must” de uma filosofia ou da outra. Cuidado com suas próprias crenças – seu filho poderá derrubá-las. E entre uma ideia e a felicidade do bebê, joga-se fora a ideia., certo?

Maternidade é assim, é ter a flexibilidade de dançar conforme a música. E se não souber os passos, improvise – poderá até divertir-se. Seja livre. Seja responsavelmente atrevida. Atreva-se a libertar-se dos dogmas, do passado, das falas de internet, das fantasias cor-de-rosa.

Maternidade é enveredar junto a seu bebê por um caminho totalmente desconhecido mas cheio de conquistas e boas surpresas. Quando se torna muito difícil é porque você perdeu a conexão com você mesma. Se você está perdida, seu bebê ficará apavorado. Linke-se com você. Reencontre-se e seu bebê voltará a sorrir.


Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Orientação Pais, Terapeuta Floral, Consultora, Palestrante e Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente. Consultoria em empresas e serviços de saúde. Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

POR QUE ESQUECEMOS DA INFÂNCIA

Adriana Tanese Nogueira

Em minha opinião, aceitamos com demasiada indiferença o fato da amnésia infantil - isto é, a perda das lembranças dos primeiros anos de vida - e deixamos de encará-lo como um estranho enigma. S. Freud, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana

Um dos motivos que, com certeza, provocam o apagamento de grandes partes da infância é o estresse vivido naquela época. No conto de fada que os adultos gostam de tecer a respeito das crianças consta que a delas seria uma época dourada, sem preocupações, contas para pagar, tensões, trânsito e relacionamentos difíceis. Balufas. As crianças sofrem e podem sofrer muito, e muitas delas têm uma vida do cão (estou falando de crianças "normais" vindas de famílias “normais”).
O fato delas não terem a consciência e o conhecimento de um adulto só piora as coisas, porque elas não podem dar nome ao que as machuca. Isto as confunde, as deixando ainda mais assustadas. Para pior as coisas e aumentar a perplexidade e confusão da crianç…