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UM CASO DE ABUSO INFANTIL

Estava numa sessão com uma criança realizando um jogo de associação de palavras, quando ouço em associação à  palavra “child” a palavra “abuse” em resposta. Controlando minha surpresa/espanto/tristeza, termino o “jogo” e passo a conversamos sobre as associações. Chegando na de child-abuse, indago sobre tal combinação. A criança responde imediatamente, sem pensar muito, que “elas vão juntas”, como se fossem uma só palavra e como se fosse óbvio. 

Pobre criança! Pobre ser que acha que ser maltratado faz parte do ser criança.

Como todos sabemos, abuso/maltrato e criança/infância não são palavras que têm qualquer vínculo natural e normal (fora a patologia e a criminalidade), portanto se uma criança as associa e justifica a ligação dizendo que “andam juntas” é porque na experiência desta criança, ser criança e ser maltratada são praticamente sinônimos.

Segundo a Wikipedia em português, “O abuso infantil, ou maltrato infantil, é o abuso físico e/ou psicológico de uma criança, por parte de seus pais - sejam biológicos, padrastos ou adotivos - por outro adulto que possui a guarda da criança, ou mesmo por outros adultos próximos da criança...” A violência doméstica e física é uma das formas de abuso infantil mais comum. “Segundo Azevedo & Guerra (2007) [ela] corresponde ao emprego de força física no processo disciplinador de uma criança ou adolescente por parte de seus pais (ou quem exercer tal papel no âmbito familiar...).”

Pergunto: bater uma criança com o cinto é abuso infantil? Ameaçá-la, sempre com o cinto na mão, de que se não fizer o dever de casa ou não se comportar como lhe é pedido ela será espancada, é abuso infantil? Deixo a resposta à consciência de cada um.

O genitor que, ao tomar conhecimento da associação de sua criança entre child e abuse tenta instrui-la de que “bater com o cinto” não é child abuse, está ainda por cima exercendo violência psicológica, pois este genitor está fazendo uma lavagem cerebral no filho para que aceite a violência como normal.

Quem educa seus filhos na violência, tanto física quanto psicológica (pressão, xingamento, depreciação) pode ter crescido assim e estar repetindo um modelo aprendido em sua própria infância. Mas a criança maltratada vive no século XXI, e como todos nós está submetida a uma avalanche de informações e estímulos que trazem valores diferentes. Segundo a Wikipedia em inglês: “Definir o que é maltrato infatil depende dos valores culturais prevalecente com relação a crianças, desenvolvimento infantil e genitorialidade.”  

Entretanto, se para o genitor bater com o cinto é normal, certamente para sua criança não é, porque apesar dela comentar a associação como se fosse óbvia, ela está de fato denunciando sua realidade e pedindo ajuda. Pede ajuda da única forma que conhece: nas entrelinhas. Uma criança maltratada é uma criança que tem medo.

O maltrato infantil implica dois aspectos: tanto o ato de agir sobre a criança quanto o ato de se omitir com respeito às necessidades da criança. É o pai ou a mãe que não dão comida ou proteção, mas também que omitem acolhimento, afeto, vínculo. Vamos além.

Assim como quem comente a violência prejudicando o desenvolvimento e equilíbrio psico-físico de uma criança estão comentendo um crime, também os que se omitem são responsáveis pelo sofrimento e pelas possíveis trágicas consequências que essa criança poderá sofrer: distanciamento emocional e falta de concentração, notas baixas hiperatividade, medo social, doença, dificuldade de encontrar um caminho na vida e desenvolver habilidades, morte.

Segundo o Florida Department of Children and Family, “Qualquer um que saiba ou tenha uma boa razão para suspeitar que uma criança está sendo abusada, abandonada ou neglicenciada [....] é obrigada a  denunciar o fato § 39.201(1)(a).”


Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Orientação Pais, Terapeuta Floral, Consultora, Palestrante e Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente. Consultoria em empresas e serviços de saúde. Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

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